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48 horas em uma mesa de jogo.

12/06/2003

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O comerciante Romerito (nome fictício), 60, é viciado em jogos. Há mais de 40 anos Romerito joga tranca, pôquer, bacará, bingo e outros jogos com uma roda de amigos. Ele conta que chegou a ficar mais de 48 horas seguidas numa mesa de jogos. “Comecei num sábado e fui parar numa terça-feira. Dificilmente a gente come. Belisco um sanduíche e levanto só para ir ao banheiro.”
Romerito só joga apostado, e grandes quantias em dinheiro. “Já perdi dinheiro de comprar carro zero. Mas também ganhei muita grana.” O comerciante considera que perder faz parte do jogo. Ele não se preocupa com o dinheiro desperdiçado. Dá mais valor à emoção de arriscar. “Se perder, perdeu.”
Ao mesmo tempo em que se considera um viciado, Romerito aposta que pára quando quiser. “Se eu quiser parar, eu paro. Mas parar pra quê? Gosto. Quando era jovem, vivia jogando. Hoje, jogo com menos freqüência.”
Romerito pode até jogar com menos freqüência, porém ainda arrisca muito dinheiro. Em uma quinta-feira de manhã, horário de trabalho, ele já estava reunido na casa de jogos onde freqüenta com os amigos. À tarde, marcou com o fotógrafo do DM em um bingo para que fosse retratado para ilustrar a matéria.
Casos – É comum ouvir histórias de empresários e autoridades que perderam fortunas em aposta de jogos. Casas, fazendas, carros, heranças e até os móveis da família vão pelos ralos da jogatina. Geralmente estas histórias não vêm a público porque os personagens não gostam de expor suas vidas.
Para a psicóloga e coordenadora da Clínica Escola da Universidade Católica de Goiás (UCG), Purificacion M. A. Miceli, 59, a pessoa viciada em jogos é portadora de uma estrutura neurótica-obsessiva, com necessidade de controlar o ambiente em que vive. “O indivíduo apresenta um comportamento ritualístico e preenche o tempo com uma atividade, como o jogo, por exemplo”, explica.
De acordo com Purificacion, o indivíduo tem dificuldade de lidar com os sentimentos subjetivos e procura se distrair. Na verdade, esclarece a psicóloga, o viciado em jogos esconde seus sentimentos e torna-se escravo de seus atos.
“Geralmente utiliza mais atos racionais, em detrimento dos subjetivos. É uma forma de escudar seus sentimentos, de fugir de si mesmo e de não sentir as coisas que o incomodam. São pessoas inseguras, que se sentem seguras através desses atos. Perdem a moral, os bens, a família, a felicidade. Perdem a liberdade de ser e tornam-se escravas do fazer. Sofrem demais.”
Compulsão – A psicóloga explica que o vício pelo jogo desenvolve no indivíduo um comportamento compulsivo. Mesmo que não tenha vontade, há um impulso interno que o obriga a fazê-lo e que não pode ser questionado racionalmente, por ele mesmo, de maneira alguma.
“A princípio, a pessoa adquire um comportamento obsessivo e não compulsivo. Quando esse traço de personalidade adoece, torna-se compulsão. Ela quer se livrar do vício, mas não consegue, porque não tem vontade própria o suficiente.”
Purificacion diz que o viciado em jogos é portador do Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), doença que precisa ser tratada com medicamentos e psicoterapia. “Nesse caso, é necessário que o paciente passe por uma avaliação psicológica para identificar o motivo de sua fuga emocional. Se o estágio da doença for avançado, é preciso fazer um tratamento psiquiátrico conjugado com remédios.”
Segundo a psicóloga, o paciente pode se beneficiar muito com o tratamento. “Mas primeiramente precisa perceber que não tem mais vontade sobre si mesmo e que necessita de ajuda”, garante a especialista.
3% da população é dependente
De acordo com o psiquiatra e professor do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG), Abrão Marcos da Silva, cerca de 70% da população em geral joga uma vez ou outra. Desse total, 3% não pára mais. Na opinião de Abrão Marcos, estes indivíduos não são portadores do TOC, mas do transtorno de hábito e impulso. Ele explica que o jogo patológico, denominação utilizada hoje pelos psiquiatras, é mais dependência que compulsão.
“Os indivíduos não têm uma estrutura específica de personalidade. Geralmente são independentes, individualistas e bastante competitivos. Não param quando estão ganhando e nem quando estão perdendo. Mentem para os outros, dão cheques sem fundos, pegam dinheiro com agiotas e chegam até a roubar para garantir o vício.”
O psiquiatra diz que a obsessão pelo jogo faz com que o indivíduo deixe a alimentação, o sexo e o sono em segundo plano. “É como as drogas. É uma relação de prazer e dor. O cara tem mil prejuízos, perde família e vínculo social, mas continua jogando”, afirma.
Recuperação – Conforme Abrão Marcos, menos de 50% dos casos conseguem se recuperar. “A maioria tem recaídas.” Ele afirma que a prática psiquiátrica, no Brasil, é pequena. “É muito raro os indivíduos procurarem um psiquiatra, pois não se sentem doentes.”
O fazendeiro José Bela Vista, 72, era viciado em jogo, mas conseguiu se recuperar. Ele passou grande parte de sua vida jogando todo tipo de jogo de cartas. Chegou a ficar dois dias seguidos em uma mesa com oito parceiros. “Jogava a noite toda. Comíamos e bebíamos durante o jogo”, descreve.
Apesar de ter conseguido deixar o vício antes mesmo do casamento, José herdou um problema de saúde. De tanto ficar sentado, o fazendeiro sente dores nos nervos. Ele conta que já gastou mais de R$ 30 mil no tratamento. Em vão. Hoje, José apelou para sessões de massagens. “Quando a gente tem compulsão, ficamos cegos. No jogo, todos perdem. Uns perdem a saúde, outros perdem até a família.”
De acordo com o psiquiatra, um estudo feito nos Estados Unidos constatou que mais de 50% dos viciados em jogos tinham depressão. “Mas não ficou claro se a depressão veio depois da perda do patrimônio com os jogos ou se o indivíduo já era portador antes do vício.”
Confusão de sentimentos
Distorções do pensamento (negação, superstições, excesso de confiança ou sentimentos de poder e controle) podem estar presentes em indivíduos com Jogo Patológico. Muitos acreditam que o dinheiro é tanto a causa quanto a solução para todos os seus problemas. Essas pessoas também são, com freqüência, altamente competitivas, cheias de energia, inquietas e facilmente entediadas.
Elas podem mostrar-se bastante preocupadas com a aprovação dos outros e ser generosas ao ponto da extravagância. Quando não estão jogando, podem ser pessoas “viciadas em trabalho” ou profissionais que esperam até perto do prazo final para então realmente começar a trabalhar de verdade.
Estes indivíduos podem estar propensos a apresentar hipertensão, úlcera péptica, enxaqueca associadas ao estresse. Também podem apresentar taxas aumentadas de transtornos do sono, transtorno de déficit de atenção/hiperatividade, abuso ou dependência de substância e transtornos da personalidade anti-social. Há relatos indicando que, entre os indivíduos tratados para jogo patológico, 20% já tentaram o suicídio, mostrando o grau de instabilidade emocional da pessoa.
Bingos fazem casos aumentar
O número de novos usuários do Ambulatório do Jogo Patológico (Amjo), criado em 1998 pela Universidade de São Paulo (USP), saltou de 44 pessoas para 80. A curva coincide com o aumento das casas de bingo. Em 1998, havia 150 no País. Em 2000, 980. Hoje, já chegam a 1.100. Grande parte, 430, se localiza em São Paulo.
Um estudo realizado pela psiquiatra Sílvia Sabóia Martins mostra o perfil de 156 pacientes atendidos no Amjo entre janeiro de 1998 e janeiro de 2002. Na maioria, eram brancos e católicos. Pertenciam à classe média e completaram o segundo grau.
A psiquiatra concluiu que 78,2% tinham o bingo como jogo de preferência. O videopôquer atraía apenas 8,3% dos compulsivos. Os caça-níqueis, outros 8,3%. O bicho seduzia 3,2%. As cartas, 1,3%. E as corridas de cavalo, 0,6%.
O estudo também aponta de que modo o vício se distribui entre os sexos. Em 1998, 29 homens e 15 mulheres passaram pelo Amjo. Em 2001, a relação se inverteu: 38 mulheres para 33 homens. O levantamento demonstra ainda que 48% dos 156 pacientes analisados praticaram atos ilegais para financiar apostas (furtos, falsificações, fraudes contábeis etc).
Diário da Manhã (GO) – Lucielle Bernardes