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A luta contra o vício!

18/10/2002

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Desvio de caráter Descobertas científicas recentes estão mudando a forma de entender o comportamento dos dependentes. Até algum tempo atrás, o vício era considerado um desvio de personalidade, próprio de pessoas fracas de caráter e com dificuldade para se relacionar socialmente. Aos poucos, os cientistas estão chegando à conclusão de que a raiz do problema é muito mais biológica do que social. Suas pesquisas conseguem explicar por que determinadas substâncias têm o poder de propiciar momentos tão intensos e fugazes de felicidade artificial. E também por que algumas pessoas caem mais facilmente nas tentações do álcool, do cigarro, da cocaína e de outras drogas, enquanto outras conseguem livrar-se delas sem grande sofrimento.
Tudo isso está relacionado com a química do cérebro. É a produção de uma substância natural chamada dopamina que rege todas as formas de compulsão. Assim como a serotonina, cuja falta é associada às sensações de tristeza e abatimento, a dopamina é a molécula produzida no cérebro para transmitir a sensação de prazer. Ela é liberada a partir de estímulos externos, como um elogio, um beijo, uma boa mão de pôquer ou o consumo de álcool e cigarro (veja quadro abaixo). A ciência também está descobrindo que pessoas cujas células cerebrais têm alguma dificuldade em produzir ou liberar dopamina são as mais predispostas ao vício. Elas teriam uma tendência genética a recorrer ao estímulo das drogas ou das emoções fortes, como forma de compensar as deficiências na química natural do cérebro. Esse mesmo mecanismo químico seria capaz de induzir uma pessoa ao vício nas mesas de jogo ou à dependência da cocaína. Isso explica, também, por que muitas pessoas circulam por diferentes formas de vício: abandonam o alcoolismo e se tornam dependentes do fumo, depois largam o cigarro e se tornam comilões compulsivos.
A substituição de uma compulsão por outra é uma peculiaridade marcante no comportamento dos dependentes. Um dos grupos de auto-ajuda que mais recebem migrantes de outras entidades do gênero é o Comedores Compulsivos Anônimos, CCA. Nascido em 1960 em Los Angeles, nos Estados Unidos, o grupo chegou ao Brasil na década passada e expandiu-se rapidamente. Hoje existem 138 CCA espalhados no país, com 1.500 freqüentadores. Essas pessoas comem muito para preencher algum vazio, que muitas vezes é um outro vício que abandonaram , afirma o endocrinologista Antônio Vieira Gabriel, da Associação Brasileira de Estudos da Obesidade. A maior parte dos comedores compulsivos é obesa e não consegue controlar seus impulsos por meio de remédios. Nas reuniões, são estimulados a fixar o número diário de refeições e a abster-se de determinados alimentos pelos quais têm compulsão. O contato com outros comedores compulsivos que souberam contornar o problema faz com que aquele que está entrando no grupo melhore e seja incentivado, afirma a assistente administrativa Fernanda, de 33 anos, coordenadora, em Belo Horizonte, da Junta de Serviços Gerais de Comedores Compulsivos do Brasil. Das pessoas que freqüentam nossas reuniões, 80% aprendem a comer moderadamente
Além dos limites Nos grupos de auto-ajuda, as pessoas com tendência natural à compulsão encontram forças para superar seus próprios limites. Essas entidades dão uma rede de apoio para pessoas que, sozinhas, não teriam estrutura para vencer suas dificuldades , diz o psiquiatra Hermano Tavares, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Um caso exemplar é o Jogadores Anônimos, uma organização que só existe há três anos no Brasil. Embora o jogo seja legalmente proibido no país, estima-se que só as casas de bingo sejam freqüentadas por 1 milhão de pessoas. A grande maioria vai a esses lugares apenas para se divertir e encontrar amigos. Uma boa parte, no entanto, acaba viciada em jogo. Em São Paulo existem três grupos de Jogadores Anônimos freqüentados principalmente por dependentes de bingo. São, geralmente, homens e mulheres na meia-idade, que faltam ao trabalho ou deixam os filhos em casa para passar tardes e noites inteiras jogando. Antes, acordava no meio da noite só para ir ao bingo , afirma Patrícia, uma secretária de 47 anos, que fez sua estréia numa reunião do Jogadores Anônimos antes do Carnaval. Não conseguia me controlar. Agora, estou há uma semana sem jogar.
Em geral, os viciados em jogatina falam mais abertamente sobre seu problema do que os participantes de outros grupos de ajuda. Fazem piadas envolvendo cartelas de apostas, bolinhas de bingo e cartas de baralho. Mas, na maioria dos casos, estão muito preocupados com dívidas. O problema é alarmante. André, empresário paulista de 40 anos e hoje freqüentador do Jogadores Anônimos, era viciado em videopôquer. Costumava tomar dinheiro emprestado do banco e de amigos para jogar. Para que a família não desconfiasse que estava viciado em jogo, abriu em segredo quatro diferentes contas bancárias. Só decidiu procurar ajuda quando devia cerca de 700 000 reais e começou a receber ameaças dos agiotas. Reuniu a família, contou o que estava acontecendo e prometeu parar de jogar. Vendeu alguns bens para cobrir as dívidas de jogo e, depois de algum tempo, achou que estava curado. Não estava. André convivia com a mulher e os filhos normalmente, mas por dentro só pensava no jogo. Pensei que tivesse aprendido a lição e que poderia jogar moderadamente , diz. Voltei ao videopôquer e, um ano e meio depois, já estava novamente devendo 600 000 reais. André só parou de jogar depois de conhecer o grupo Jogadores Anônimos. Há seis meses luta para pagar dívidas pendentes daquele período. Hoje, se eu vender todos os meus bens, só consigo pagar um terço do que estou devendo.
Receita infalível Nos Estados Unidos, onde há estatísticas mais precisas sobre o vício, os próprios cassinos promovem campanhas e serviços assistenciais contra o jogo compulsivo. Cerca de 5 milhões de americanos são viciados em jogo. Na Holanda, existem 140.000 jogadores classificados como patológicos, quase 1% da população do país. Como as drogas químicas, a compulsão pelo jogo também está relacionada à sensação física que ele produz. As casas de bingo usam uma receita infalível para criar dependência , diz o psiquiatra Hermano Tavares. A fórmula combina um jogo de azar, em que novas rodadas se sucedem rapidamente, com um ambiente fechado, onde a luz do sol nunca entra. O ritmo das apostas não deixa tempo para que o jogador calcule o quanto já perdeu. O lugar fechado impede que ele se dê conta de quantas horas já passou ali dentro. Estudos do Hospital das Clínicas de São Paulo mostram que, nas rodadas mais decisivas de bingo, por exemplo, um jogador tem sua freqüência cardíaca e respiratória acelerada na mesma proporção de quem disputa uma corrida de 100 metros rasos ou cheira uma carreira de cocaína. Uma súbita descarga de dopamina no cérebro é a recompensa pela vitória no jogo, enquanto uma eventual derrota obriga o jogador a tentar novamente, em busca dessa sensação prazerosa. Essas alterações abruptas no metabolismo são fatais para criar dependência , explica o psiquiatra.
Os estudos mostram que cada tipo de droga age de maneira diferente no cérebro. A cocaína bloqueia a absorção da dopamina produzida no organismo. O excesso de neurotransmissor acelera o número de descargas elétricas entre os neurônios e produz sensação de euforia. As anfetaminas obtêm efeito semelhante acelerando a liberação de dopamina, a um ritmo que o cérebro não tem tempo de reabsorvê-la normalmente. A nicotina do cigarro faz as duas coisas simultaneamente: tanto acelera a produção de dopamina quanto cria uma enzima que impede a quebra das moléculas do neurotransmissor. Em todos os casos, o resultado final é sensação artificial de prazer e bem-estar, ainda que momentânea. São sensações tão agradáveis e recompensadoras que o dependente tende a procurá-las cada vez mais, não importa a que preço.
Uma nova vida Pelo efeito químico que provoca e por sua fácil difusão entre os consumidores, o cigarro concorre com o álcool para o posto de vício mais perigoso do planeta. Não existe viciado mais fiel que o tabagista , afirma João, um músico de 36 anos, freqüentador do grupo Fumantes Anônimos, em São Paulo. Ele fumou durante vinte anos e foi levado ao desespero por crises agudas de falta de ar, durante uma gripe. Tentei de tudo para largar o cigarro , conta. Acupuntura, simpatias, nada deu certo. Hoje, com a ajuda do Fumantes Anônimos, João está sem fumar há três anos. Mas ainda não esqueceu o vício. A sensação de prazer proporcionada pelo cigarro é incomparável.
Criados no Brasil em 1980, os grupos Fumantes Anônimos têm ex-dependentes engajados na organização das reuniões em todo o país e na transmissão de sua experiência. Na primeira vez que comparecem a esses encontros, os fumantes que tentam livrar-se do vício recebem um toco de madeira para que possam ocupar as mãos e ter a sensação de estar segurando o cigarro. Ouvindo histórias de outros fumantes, percebi que era um dependente químico e precisava do apoio do grupo para mudar minha vida , diz João. Esse é um dos aspectos mais animadores das associações de auto-ajuda. Elas têm-se fortalecido tanto no Brasil, e no mundo inteiro, porque exercem um duplo papel de ajuda aos dependentes. Primeiro, conseguem fazê-lo interromper o uso de substâncias viciantes ou desistir de determinadas atividades compulsivas. Depois, dão-lhe suporte e orientação para recompor laços familiares e sociais. Como o próprio nome desses grupos indica, são pessoas anônimas, que nunca se tinham visto antes. E que, uma vez juntas, encontram forças umas nas outras para dar uma guinada no rumo da própria vida. Todos os personagens desta reportagem são identificados por pseudônimos.

Eu passava a noite nos bares à procura de novos parceiros.
Berenice, artista gráfica, 32 anos, ex-viciada em sexo

Acordava no meio da noite para ir ao bingo. Não podia me controlar.
Patrícia secretária, 47 anos, ex-viciada em jogo

Não há dependente mais fiel ao vício do que o tabagista.
João, músico, 36 anos, ex-fumante

A química do vício
Como funcionam as reações no cérebro que induzem uma pessoa à dependência
1 – As sensações de prazer são produzidas no cérebro na forma de descargas elétricas entre os neurônios, induzidas por um neurotransmissor chamado dopamina. É uma substância que o cérebro libera normalmente quando uma pessoa faz sexo, come ou bebe. Quanto maior a quantidade de dopamina, maior a sensação de prazer
2 – Drogas como álcool, cigarro ou cocaína estimulam a liberação de dopamina ou bloqueiam sua absorção natural no cérebro. O resultado é uma sensação artificial de euforia ou de bem-estar. A compulsão por jogo, sexo ou comida tem mecanismo parecido
3 – Pesquisas recentes indicam que pessoas cujas células cerebrais têm alguma deficiência no uso da dopamina são mais propensas ao vício ou à compulsão. Elas teriam tendência a procurar com mais freqüência atividades ligadas ao prazer – como jogar ou beber em excesso – de modo a compensar a insuficiência orgânica
Como algumas drogas enganam o cérebro
Cocaína
Bloqueia a absorção normal de dopamina. Inundado pelo neurotransmissor, o cérebro produz uma excessiva sensação de euforia
Anfetamina
Gera euforia porque acelera a liberação de dopamina em quantidade tão grande que o cérebro não tem tempo suficiente para reabsorvê-la
Cigarro
A nicotina estimula a liberação de dopamina enquanto uma outra substância do cigarro bloqueia sua absorção. O resultado é um momentâneo efeito de bem-estar.