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Abertura de clube de pôquer em SP tem ‘Exalta’, cigano Igor e Elvis cover

30/01/2020

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Paulo Sampaio*

Depois de colocar uma pulseira de papel dourado no meu braço, a recepcionista da festa inaugural do complexo Maxximum Arena, realizada na segunda-feira, 27, sugere alegremente: “Corre para pegar o show do ‘Exalta’!” Como estou com uma lesão no menisco, prefiro não facilitar. Em vez disso, entro a esmo nos diversos ambientes do lugar, incluindo, claro, o Vegas, anunciado como “o maior clube de pôquer da América Latina”.

Composto por dois salões de jogos, o clube ocupa uma área considerável dos 3.500 metros quadrados do complexo, que tem ainda restaurante e espaço de eventos. Ao todo, são 34 mesas com capacidade para dez jogadores. No salão abarrotado do andar superior, um dos observadores da jogatina aponta para um anão na mesa do pôquer e ri alto: “HAHAHAHAHA. Se a polícia entra aqui e pega esse ‘de menor’ jogando, fecha essa merda! HAHAHAHA”

Gente fina é outra coisa

O convite para a inauguração do complexo prometia uma “noite épica” e vinha com a assinatura de um dos quatro sócios. “Ass: Regi Campos”. Além da apresentação do ‘Exalta’, a festa contou com a presença VIP de cigano Igor, alter ego do ator Ricardo Macchi, e ainda com a performance de um cover de Elvis Presley, e um show burlesco.

Macchi posou para foto à saída do espaço de eventos Coliseum, enquanto a costureira Margareth Eloi fazia malabarismos atrás dele, para também ser contemplada na imagem. “Meu marido é dono da maior concessionária Fiat do Brasil. Do Brasil, não! Do mundo! Você não quer falar com ele?”

Esporte da mente

Como estou próximo de Reginaldo “Regi” Campos, aproveito a piada do anão para perguntar se uma casa de pôquer corre risco real de ser fechada pela fiscalização. “De jeito nenhum. Funcionamos dentro da mais absoluta legalidade. O pôquer não é um jogo de azar, é um esporte da mente”, explica ele.

Regi veste um terno xadrez em tons esmaecidos de verde e salmão, usa um mocassim bico fino de verniz preto, com uma fivela grande que atravessa o peito do pé, sem meia, e um relógio Rolex Submariner.

Mind Game Association

Aparentemente, a ideia de “esporte da mente”. — em que a vitória se conquista com estratégia e não com sorte — serviu para salvar o pôquer da ilegalidade. O advogado Eduardo Tavares, da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep) lembra que, no Brasil, “a lei das contravenções penais (3.688/41) não tipifica o pôquer como um jogo de azar”. “Entende-se que é um jogo intelectual, como o xadrez, ainda que decorra um lucro para quem ganha, e um prejuízo para quem perde”, diz

Por sua vez, os entusiastas do pôquer comemoraram em 2010 o reconhecimento do jogo pela International Mind Game Association (IMGA), em um congresso anual da entidade, em Dubai. “Existem laudos nacionais e internacionais que mostram que o fator sorte, no pôquer, não define quem vai ganhar”, diz o presidente do Instituto Jogo Legal (IJL), Magno José Santos de Sousa.

Matéria de faculdade

Em pelo menos duas universidades de São Paulo, há disciplinas que usam o pôquer para estudar técnicas de estratégia, risco e tomadas de decisão, e também como recurso de análise de economia comportamental.

Na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), a disciplina é oferecida desde 2013 como matéria eletiva, dentro do curso de “ciências aplicadas”. Figura com o nome de “tópicos especiais em ciência do esporte – fundamentos do pôquer”.

Cristiano Torezzan, professor responsável pela iniciativa, explica que a ideia não é “ensinar a jogar pôquer”. Em entrevista ao site da Unicamp, Torezzan fala em explorar os fundamentos matemáticos do jogo e sua semelhança com o conjunto de estratégias, probabilidades e riscos experimentado no mercado financeiro. “Torneios de pôquer envolvem competições mentais que levam de 8h a 10h de concentração. O jogador precisa tomar, em média, duas decisões estratégicas por minuto. Em torneios on-line, esse número pode chegar a mais de vinte por minuto.”

Laboratório de estratégias

Na ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), a matéria se chama “teoria dos jogos: uma visão do pôquer” e tem carga horária de 36 horas/aula. De acordo com o professor Alexandre Gaino, o curso usa o pôquer como um laboratório para a análise do perfil dos jogadores – audacioso, conservador, cauteloso, agressivo – e também propicia o embate entre esses adversários.

“A partir de um conjunto de informações incompletas, criamos uma imagem falível em relação ao futuro, mas que leva o aluno a pensar em probasbilidades e medir riscos.”

Trezentos mil

No Vegas o esporte da mente pode render R$ 300 mil aos sortudos, perdão, felizardos ganhadores de um torneio que começou no dia da inauguração e teve, até terça-feira, 372 inscritos. O buy in (valor mínimo para participar de uma mesa) era R$ 100, que valiam 15 mil fichas.

Dos R$ 300 mil, R$ 100 mil iriam para o vencedor dos vencedores, que também ganharia uma viagem ao Casino Saint Monticello, no Chile. O resto do dinheiro seria distribuído entre os demais colocados.

Chega de jogo

Continuo meu périplo pelo complexo, cuja fachada tem um pé direito muito alto e é delineada por linhas de neón roxo. No alto, em letras garrafais, brilha o nome da casa, Maxximum, com dois “xx”. Uma limusine parada na porta, aparentemente decorativa, evoca a figura de um elefante tristonho, envergonhado por ser exposto mais uma vez como chamariz de VIP.

No espaço Coliseum, onde fiz a foto do cigano Igor, está o camarote da festa. Não é fácil entender o critério utilizado para selecionar quem entra no cercadinho, quem fica de fora. Dos dois lados havia desde torcedores de futebol vestindo o short e a camisa do clube, até mulheres de longo estilo “madrinha de casamento”, playboys de mãos dadas com malhadonas, pagodeiros de boné, regata e chinelo e moçonas turbinadas, em trajes ventilados.

Doni e Van

Em determinado momento, um dos chineludos de boné, de estimado 1,70m de altura, se aproxima de uma jovem mais alta que ele cerca de um palmo. “Prazer, tudo bem? Eu sou Doni. Você?”

Espremida em um vestido branco frente-única, sem calcinha à vista, ela não se mostra muito receptiva. “…Van”, diz apenas, enquanto quebra com os dentes metade de uma castanha remanescente, encontrada nas mesas cheias de restos de comida. A passos lentos, ela dá uma caranguejada até a porta, e então vê que vem chegando uma amiga menos sarada, que carrega nas mãos dois sanduichinhos. Apresenta a amiga a Doni. “Tati, Doni”.

Tati também não se anima. Feliz com os sanduichinhos, ela morde um deles, dá um giro de cabeça e diz que vai tentar conseguir um refrigerante. Desaparece. Doni dá uma olhada em volta, aparentemente investigando se tem mais gata no pedaço.

Passa de meia noite, hora de bater em retirada. Eu me despeço dos anfitriões, na medida do possível, e me encaminho para a porta. Ainda sorridente, apesar da hora, a recepcionista pergunta: “Conseguiu pegar o show do Exalta?”

(*) Paulo Sampaio, nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames. O artigo acima foi veiculado no Portal UOL.