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Anete Costa Ferreira: Apostar na sorte

15/06/2018

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Anete Costa Ferreira*
A palavra jogo, originária do latim jocu, significa brincadeira, divertimento, zombaria e gracejo, que tanto pode ser educacional ou mero folguedo, obedecendo a regras que definem o indivíduo ou um grupo vencedor ou perdedor.
Manuscritos mostram que a China no século IX foi a precursora dos jogos no mundo. Os primeiros, de tabuleiro, apareceram cerca de 5000 anos a.C. na Mesopotâmia e no Egito. No século XIV chegam à Europa, e no século XVI os estudos matemáticos de Luca Paccioli, em 1500, na obra Summa, dão início ao Jogo de Balla. Em 1526, Girolano Cardano escreve o livro dos Jogos de Azar. Antes, em 1453, o jogo chega à Irlanda e é rapidamente aceite pelos habitantes como passatempo, distração e facilitador do desenvolvimento da inteligência. Roma também acata, utilizando letras, mas a Igreja rejeita, achando ofensivo à moral.
Existem uma infinidade de jogos, cada um com regras próprias, apoiados por aficionados, adeptos, claques, viciados, simpatizantes e fanáticos. Com a informática, surgiram os jogos eletrônicos, considerados atividades lúdicas e estimulantes, pelos efeitos que causam nos utilizadores, como satisfação, violência, medo e depressão, exigindo cuidado dos jogadores.
Os jogos de apostas são sempre em dinheiro. O jogador participa em eventos arriscados de resultados incertos. O seu fanatismo não permite raciocinar antecipadamente, pois a obsessão de vencer ocasiona algumas vezes efeitos danosos na sua vida.
As navegações e as trocas de informações entre os povos possibilitaram que arqueólogos encontrassem em túmulos da China no século IX a.C. as primeiras bonecas que as crianças utilizavam nas suas brincadeiras. Em Atenas foram encontrados os jogos “cabo-de-guerra”, utilizados pelos adolescentes. No Peru, foram localizados brinquedos usados nos folguedos infantis. No Brasil, os indígenas bororo, no Mato Grosso, manchineri, no Acre, e os guaranis, em São Paulo, divertiam-se com o “jogo da onça”, cuja origem atribuem à civilização inca.
No século XIX, vivia no Rio de Janeiro João Baptista Vianna de Drummond, a quem, em 1888, o imperador D. Pedro II concedeu o título de barão de Drummond. Possuía uma quinta com animais de estimação, dando origem ao Jardim Zoológico, subsidiado pelo império. Constituída a República em 1889, é cortado o referido benefício.
O seu amigo mexicano dom Manuel Zevada aconselha-o a cobrar entrada aos frequentadores do zoológico, colocando desenhos de animais no verso dos bilhetes, dando em troca um prêmio resultante do sorteio do dia. O primeiro prémio foi avestruz. Entusiasmados, os visitantes, conforme os seus palpites, passaram a pedir os bilhetes pelo nome dos bichos, que podiam ser até 25: vaca, touro, águia, galo, tigre, etc. Nascia o Jogo do Bicho no Brasil. O barão anunciava o nome do bicho sorteado, entregando ao vencedor o valor do prêmio. A ação propalou-se e começaram as vendas nos estabelecimentos do bairro. Os pobres faziam apostas para melhorar os seus rendimentos. O barão perdeu o controlo e o governo proibiu as apostas, em 1894. Mesmo proibido, o jogo tomou conta do país, e assim funciona até hoje, o bicheiro sentado na cadeira numa esquina com banca desmontável e bloco de anotações, fazendo as apostas.
Em Portugal, há o totoloto, totobola, Lotaria Popular, Lotaria Clássica, raspadinhas, Euromilhões vendidos nas casas da sorte. Nas ruas, os cauteleiros apregoam números, valores dos prémios e data dos sorteios, incentivando apostadores.
Em 1928, Jules Rimet criou a Copa do Mundo, homenageando o futebol. O primeiro evento realizou-se em 1930, no Uruguai, entre 13 e 30 de junho, participando 13 equipas, sete da América do Sul, quatro da Europa e duas da América do Norte. O Uruguai foi o primeiro campeão. Durante a II Guerra Mundial, foi suspenso o campeonato, retornando em 1950, no Brasil, sendo campeão, de novo, o Uruguai. De 14 de junho até 15 de julho de 2018, as atenções voltam-se para a Rússia, para o acompanhamento da 21.ª Copa, com muitas pessoas apostando na sorte.
(*) Anete Costa Ferreira é historiadora Brasileira e veiculou o artigo acima no Diário de Notícias de Portugal.