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ATP surpreende e retira pessoas envolvidas com máfia das apostas do Ibirapuera

01/03/2019

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O submundo das facilitações de apostas em todo o mundo segue rondando o tênis e em São Paulo não foi diferente. Alheio ao público normal, atuantes deste processo foram flagrados, retirados do Ibirapuera e agora estão sob investigação.

A reportagem do Tênis News no ATP 250 brasileiro presenciou o delicado momento em que a equipe de segurança do torneio, discretamente, se aproximou de pessoas e solicitaram que as acompanhasse em retirada do complexo para a verificação do envolvimento e demais procedimentos realizados.

A primeira situação ocorreu na terça-feira, em que durante a segunda partida da programação da quadra central, um rapaz, com aparência de 30 anos, foi abordado pelo chefe da segurança e um profissional da organização. Já o segundo foi um homem, na casa de seus 40 anos de idade, abordado no meio do primeiro set entre Leonardo Mayer e Lorenzo Sonego na quarta-feira.

A observação à distância por parte desta reportagem, nos dois casos, foi possível notar que a abordagem é sempre feita por estas duas pessoas – um profissional da equipe de segurança do torneio e um da ATP – , que chegam em opostos do corredor onde a pessoa está localizada. A abordagem é rápida para ocorrer durante o minuto de intervalo entre games, a conversa é baixa e a saída é, mesmo com sistema de escolta, realizada para que não chamem atenção.

O perfil e o modus operantis dos retirados do complexo é muito parecido. Pessoas trajando roupas mais esportivas, pequenas mochilas, sempre com o celular à mão, que buscam estar sozinhas e afastadas de grupos. Fazem de tudo para parecerem o mais ‘normais’ possíveis. O posicionamento nas cadeiras é sempre próximo à diagonal das quadras e de frente para os juízes.

O posicionamento é importante, revela uma fonte da ATP, porque o apostador consegue verificar plenamente agilidade do árbitro de cadeira em registrar o placar e estando no local do jogo o “gestor” consegue antecipar-se em 10 segundos ou mais o registro da informação oficial, o que é tempo suficiente para aumentar o ganho do apostador.

No mercado negro das apostas há quem classifique este perfil como “gestores”, porque gerenciam diretamente do torneio as informações para os grupos de apostadores.

No saibro, segue a fonte consultada, é ainda mais complicado para os árbitros serem ágeis, porque é preciso muitas vezes descer da cadeira para verificar a marca, mostrá-la a quem contesta, apresentar a decisão ao público e aí sim registrar o placar no aplicativo oficial da ATP, que alimenta o sistema oficial de pontos.

Vale salientar que há o atraso de emissão de imagens para redes de televisão em todo o mundo variam, mas podem chegar a mais de 40 segundos, portanto, a presença de um “gestor” de grupos de apostas em torneios é importante para os negócios dos apostadores.

Todo profissional credenciado para trabalhar no torneio, independente da atividade que exercerá, recebe no verso de sua credencial, onde fica explícito que é proibido “coletar, divulgar, transferir, publicar ou reportar continuamente qualquer contagem/pontuação ou dados estatísticos relacionados à partida de dentro do território do torneio durante o jogo”. Ou seja, é proibido atuar como um gestor, mesmo que a “informação” seja utilizada para outros fins.

Como o mesmo tipo de regra é aplicado ao público, pedimos para verificar ingressos de pessoas comuns, tanto com emissão online quanto vendidos de modo impresso na bilheteria do complexo e em nenhum dos dois há aviso semelhante ao público. Porém, ingressos cortesia e comprados online para entrega a pedido do cliente, o informe está na frente do ingresso abaixo do logo do torneio.

Segundo a mesma fonte da ATP, em alguns lugares do mundo, torneios colocam informes sobre a proibição nas entradas dos clubes, alguns em cartazes grandes e até mesmo posters. Entretanto, isso ainda não é uma prática da maioria das organizações de torneio mundo afora e nem um padrão de atuação da ATP.

O profissional da Associação dos Tenistas Profissionais ressaltou que este tipo de atividade de repasse de informação para apostas é um problema que a entidade máxima do tênis profissional masculino enfrenta em todos os lugares onde realiza competições no mundo. “Não há uma situação em que seja exclusivo de tal nacionalidade ou tal lugar”.

Buscada de maneira oficial, a equipe da ATP que gere o torneio paulistano não negou a realização destas autuações, mas por uma questão de gestão interna dos processos e investigações não poderia dar mais informações sobre o ocorrido.

Ainda à ATP, o Tênis News solicitou algum balanço a respeito de números condizentes com a condução de “gestores” e as punições aplicadas. Como resposta, soube que por razões de investigações e processos internos, a associação não divulga este tipo de números.

A identificação dos possíveis “gestores” em meio ao público é feita por observação atenta de diversos olhares. Profissionais de todos os âmbitos da cadeia da organização da competição têm as informações claras a respeito de como identificá-los, pois há diferentes modos de atuarem não apenas os observados pela reportagem. A necessidade é de reduzir o risco de alarmes falsos e gerar os chamados ‘bodes expiatórios’ para que os que realmente atuam passem ilesos é enorme. Principalmente para evitar constrangimentos para fãs do esporte.

Dentro do complexo, diversos sites de facilitação de apostas e/ou de informações rápidas a respeito de competições que podem alimentar apostas ilegais e/ou viciadas são bloqueadas pela equipe de TI. Está aí uma possível ferramenta para identificar possíveis “infiltrados” entre quem trabalha na competição.

A ATP reforçou seu compromisso com a informação oficial e contra o uso para benefícios pessoais e danos a terceiros, como no caso testemunhado em São Paulo.

O perigo das apostas online

O ‘boom’ mercadológico das apostas online, ganhou força no tênis em 2011 quando tanto a ATP quanto a WTA assinaram contrato para a venda dos dados de pontuação de seus jogos ao vivo com a empresa de estatísticas e dados esportivos Enetpulse, que tem base na Dinamarca. No ano seguinte, a suíça Sportradar, do mesmo ramo da dinamarquesa, assinou contrato com a Federação Internacional de Tênis (ITF), para receber os dados do circuito ITF US$ 15k e 25k.

Através desta parceria, o contato das entidades do tênis ficou mais próximos às empresas de apostas. Entretanto, a relação foi estreitada com a assinatura de uma cooperação entre as grandes ‘casas de apostas’ globais online e a Unidade de Integridade do Tênis (TIU), que é um órgão independente que atua na investigação e punição de casos de corrupção no esporte. A parceria define que as casas de apostas criem um alerta ao TIU todas as vezes que uma partida receber um número estranho ou acima de normal de apostas. Principalmente se tratarem de apostas de alto valor.

Segundo o relatório da auditoria independente do TIU, entre 2013 e 2017, 157.571 partidas do tênis masculino em nível ITF foram disponibilizadas por apostas e geraram 491 alertas das casas, enquanto no feminino 118.952 partidas foram disponibilizadas e 155 alertas gerados. Para se ter parâmetro, no circuito ATP 21.175 partidas foram postas para apostas e 110 alertas foram gerados, em detrimento de 20.557 partidas da WTA e 23 alertas gerados.

O mesmo relatório diz ainda que entre 2013 e 2017, 851 tenistas (homens e mulheres) estiveram sob suspeita, exatamente por terem gerado alertas em suas partidas, o que não quer dizer que sejam culpados. Destes 138 foram objeto de três ou mais alertas, outros 23 de seis alertas ou mais. O jogador que teve maior presença de alertas, não tem o nome especificado no relatório, conduziu 16 alertas em seus jogos.

A presença dos “gestores” em torneios corta o elo das entidades esportivas e suas empresas de estatísticas, porque cria um mercado paralelo de informações, que facilita a aposta de grandes grupos e geram prejuízos às casas, que recebem a informação oficial, segundos depois.

O que a lei brasileira diz…

Apostar e trabalhar com apostas não é crime no Brasil, porém se o apostador realizar seus palpites apenas em casas internacionais, sem declarar seus gatos e ganhos à Receita Federal, pode ser configurado o crime de “evasão de divisas”.

Há um dispositivo da lei de contravenção, que não fala de crime tipificados, mas sim de uma infração social, que gera registro policial, mas não processo criminal. O artigo 50 do Decreto de Lei 3.688 tipifica: “Estabelecer ou explorar jogo de azar em lugar público ou acessível ao público, mediante o pagamento de entrada ou sem ele”, com pena de prisão simples de três meses a um ano e aplicação de multa. Na prática, condenados neste tipo de contravenção não ficam presos. (Lance – Por Ariane Ferreira)