Home Apostas Betsson adquire Suaposta, à espera de regulamentação
< Voltar

,

Betsson adquire Suaposta, à espera de regulamentação

24/12/2019

Compartilhe

André Gelfi, sócio da Suaposta: mercado tem potencial de crescer, principalmente com apostas em jogos de futebol — Foto: Ricardo Benichio/Valor

Às vésperas de sua regulamentação, o mercado brasileiro de apostas on-line começa a mostrar seu poder de atrair investimentos internacionais, em meio às expectativas de que o país se torne um dos maiores do mundo nesse setor nos próximos anos.

“Mais de 30 empresas demonstraram interesse em nosso negócio”, diz André Gelfi, sócio da brasileira Suaposta, cujo controle foi adquirido, na semana passada, pela sueca Betsson. “Em seis meses fiz 10 viagens à Europa para negociar [com todos os potenciais compradores]”, conta o empresário.

Pelo acordo, anunciado na quinta-feira, a Betsson ficará com 75% de participação na companhia. Os demais 25% permanecerão nas mãos de Gelfi e de seu sócio Fernando Corrêa. Os valores não são revelados.

A Suaposta foi criada em setembro do ano passado, depois que Gelfi e Corrêa concluíram a compra da divisão de apostas on-line da espanhola Codere no Brasil. Foi uma operação de “management buyout”, em que os gestores de uma empresa adquirem seu controle. Gelfi era diretor-geral da Codere no país e Corrêa, diretor financeiro.

A companhia brasileira está concentrada nas corridas de cavalo, uma das duas modalidades de apostas regulamentadas no país. A outra é a das loterias. A expectativa, no entanto, é que esse cenário mude radicalmente nos próximos meses, com o fim das restrições e a expansão das apostas para outros esportes. É isso o que está atraindo a atenção de empresas como a Betsson, uma das cinco maiores do mundo em apostas on-line.

A legislação que torna lícitas as apostas esportivas no país – estendendo a prática para além do turfe – já existe. É a Lei 13.756/2018, promulgada em dezembro do ano passado. Mas para que o mercado seja ampliado é preciso regulamentar a lei, sem a qual não é possível conceder as licenças às empresas. Depois de aguardar as definições há praticamente um ano, muitas pessoas no mercado acreditam que as regras serão definidas em breve. A julgar pelas movimentações do governo, a expectativa é que a lei seja regulamentada até o fim do próximo semestre, ou até bem antes disso.

Com a regulamentação, a projeção é que o mercado brasileiro de apostas on-line, que hoje movimenta cerca de R$ 800 milhões por ano, passe para algo em torno cerca de US$ 6 bilhões anuais, no prazo de quatro ou cinco anos, diz Gelfi, citando dados de um estudo da consultoria KPMG.

Na Suaposta, o perfil predominante dos apostadores é o de homens acima de 45 anos, que conhecem a fundo o turfe e veem, nas apostas, a chance de ganhar dinheiro com seu hobby. A empresa tem uma parceria com o Jockey Club do Rio Grande do Sul e paga licenças para que os usuários possam apostar em corridas internacionais.

Com a ampliação das atividades para outros esportes, afirma Gelfi, a expectativa é que o público seja ampliado, com a entrada de pessoas mais jovens, de ambos os sexos, e com distribuição social capaz de refletir melhor a pirâmide econômica brasileira. O principal atrativo será a possibilidade de apostar em jogos de futebol, cuja participação pode facilmente chegar a 85% de todo o movimento, prevê Gelfi.

No mercado, espera-se que uma das questões centrais da regulamentação seja a revisão da carga tributária. Atualmente, a incidência do imposto é de 3% sobre o movimento das apostas, que as empresas consideram muito elevada.

O problema, diz Gelfi, é que os serviços de apostas on-line pagam muitos prêmios sobre valores pequenos. “É diferente das loterias, em que a pessoa pode ganhar uma fortuna e mudar de vida”, afirma. A chance estatística, segundo o empresário, é que o apostador receba de volta entre 90% e 92% do valor apostado. Numa aposta de R$ 10, seria pouco mais de R$ 9. No caixa da empresa sobraria, portanto, 8% do valor apostado. Mas o imposto incide sobre o valor total da aposta. “Na prática, é mais de 30% do faturamento”, diz Gelfi. No governo se estaria trabalhando com a hipótese de uma carga de 1%.

Além dos impostos, o segmento enfrenta uma questão intangível: a rejeição por parte da população para a qual as apostas podem estimular o vício em jogar. É um risco que a tecnologia tem ajudado a reduzir, afirma Gelfi. “A internet traz o benefício de podermos monitorar o cliente”, diz. Ferramentas digitais conseguem identificar comportamentos compulsivos e estabelecem formas de controle, inclusive o bloqueio por familiares, dependendo do caso.

Na Betsson, diz o empresário, há cerca de 500 programadores que trabalham integralmente para melhorar a plataforma.

A regulamentação, argumenta Gelfi, também pode ter um efeito positivo em coibir comportamentos compulsivos porque hoje muitos brasileiros apostam em sites ilegais, que não seguem as regras existentes. “Não há nenhum tipo de precaução quanto a esse problema”, afirma. (Valor Econômico)