Home Jogo Responsável Bingo por diversão pode virar compulsão.
< Voltar

Bingo por diversão pode virar compulsão.

08/10/2003

Compartilhe

"Isso já faz parte da minha vida", revela a manicure Célia Rocha, 49 anos, sobre a importância que o bingo tem em seu dia-a-dia. Assim como a manicure, outros milhares de pessoas encontraram nas casas de bingo um meio para combater a solidão e outros males como a depressão e a ansiedade. Praticamente todos os dias, ela e uma legião de pessoas freqüentam os dois bingos na cidade em nome da diversão. O jogo, antes restrito aos bazares beneficentes, agora tem uma legião de adeptos, que variam em idade, sexo e condição financeira.
Segundo especialistas, o jogo por diversão pode levar a outro mal tão danoso quanto a dependência química: o vício de jogar.
Estudo do Amjo (Ambulatório do Jogo Patológico), criado em 1998 pela USP (Universidade de São Paulo) para estudar os jogadores compulsivos e oferecer ajuda, aponta que a unidade quase dobrou o número de atendimento desde que foi inaugurada. "Muitas pessoas simplesmente não sabem que o bingo pode provocar dependência, o que é um grande engano", afirma o psiquiatra Hermano Tavares, fundador da entidade.
A maioria dos jogadores ouvidos pela Folha da Região, em Araçatuba, disse ter o controle sobre o jogo e que procura esse tipo de diversão para suprir outras necessidades. Célia diz que não conseguiria viver sem o bingo e as amizades que conquistou ao longo dos cinco anos que freqüenta uma casa na avenida Luís Pereira Barreto, no centro da cidade. "Fiz amizades muito boas aqui dentro."
Outra freqüentadora, que preferiu ter o nome preservado, disse que procurou o jogo para fugir da depressão. "Aqui eu encontrei o remédio ideal, é como se fosse uma terapia que funciona perfeitamente", afirma.
As duas mulheres, que hoje são amigas, não se consideram viciadas. "A gente vem aqui para se divertir e encontrar os amigos", comenta.
O gerente da casa, Edson Costa Moura, diz que dá para perceber quando o cliente está se viciando no jogo. "Geralmente ele não consegue parar de jogar e começa a pedir dinheiro emprestado e pede até para a gente segurar um cheque pré-datado." Nesse caso, o gerente garante que orienta o cliente a se controlar e a "repensar as atitudes". "Nós temos essa preocupação com nosso público, porque o objetivo disso aqui é exclusivamente diversão."
Moura se lembra de histórias curiosas que aconteceram no bingo desde que a casa foi aberta em 1997. Segundo ele, no início deste ano, um cliente que entrou no bingo após perder o horário de um ônibus para Três Lagoas (MS) ganhou R$ 3 mil. Ele jogou uma cartela, que foi a sorteada. O cliente, que investiu R$ 1 na aposta, deixou o estabelecimento logo após receber o prêmio. "E ele nem sabia jogar direito", diz o gerente.
Há alguns anos, uma cliente antiga do bingo que estava em dificuldades financeiras conseguiu ganhar um prêmio de R$ 7 mil. "Ela ficou muito contente, mas não resistiu ao impulso e perdeu a quantia no próprio jogo".
Para Moura, o cliente deve usar a cabeça para ser um bom jogador. "Se ele está perdendo muito, deve saber que é hora de parar e se estiver ganhando também. O segredo é saber dominar isso", afirma. Especialistas afirmam que nem sempre é possível ter o controle da situação e que a cada dia aumenta o número de pessoas que desenvolvem a compulsão por jogos, principalmente por bingo. Ainda não existem levantamentos que mapeiem o transtorno com base em amostras da população brasileira.
Os especialistas apontam pelo menos três indícios de que o distúrbio se alastra silenciosamente, à medida que as casas de apostas proliferam. O primeiro deles é que nos dois únicos ambulatórios públicos do Brasil que cuidam do problema, ambos em São Paulo, a maioria dos freqüentadores manifesta compulsão por bingo, seja o tradicional ou o eletrônico. Outros tipos de jogos, como o do bicho, o videopôquer, os caça-níqueis, as corridas de cavalo e as cartas, seduzem uma quantidade bem menor de pacientes. O segundo indício é que um estudo realizado pelo Amjo demonstra que a procura por tratamento para o jogo patológico cresceu no mesmo período em que ocorreu o "boom" dos bingos. O terceiro é que o Jogadores Anônimos, grupo que presta assistência a compulsivos, reúne sobretudo dependentes de bingo e se expande conforme as casas de apostas aumentam.
De acordo com Tavares, esses dados, se não permitem tirar conclusões definitivas quanto à gravidade da situação, evidenciam que há um perigo no ar. Os especialistas defendem que o governo deveria tratar o assunto com o rigor que reserva para o cigarro e as bebidas alcoólicas.
No exterior, a proporção de viciados em jogo é de sete homens para uma mulher. No Amjo, a proporção é de um para uma. O Brasil tem uma realidade diferente da de outros países porque as mulheres têm maior acesso às casas de jogos.
A Lei Zico instituiu as casas de bingo em julho de 1993. Dez meses depois, foi inaugurada a primeira casa. Em 1998, havia 150 no país. Em 2000, eram 980 e atualmente já chegam a 1.100 estabelecimentos.
Todos os bingos estão funcionando atualmente no Brasil amparados por liminar conseguida pela Abrabin (Associação Brasileira de Bingos), que agrega 1.200 casas associadas. A atividade está proibida pelo governo federal. De acordo com a associação, o público diário dos bingos varia de 500 a 1.500 pessoas por casa. A categoria lucra cerca de R$ 20 milhões por mês e gera, direta e indiretamente, pelo menos 320 mil empregos, segundo a entidade.
São Paulo concentra de 50% a 60% das casas de bingo do Brasil e o maior número de jogadores viciados.
De acordo com o ambulatório, o jogo patológico é uma doença reconhecida pela OMS (Organização Mundial de Saúde) desde 1992. Quem sofre do mal não resiste à tentação de jogar e, quando está jogando, não consegue parar, mesmo depois de perder muito. Para especialistas, a fissura do jogador compulsivo ultrapassa a do cocainômano. Em razão da ruína financeira, uma parcela significativa dos dependentes, segundo Tavares, pratica atos ilícitos para obter dinheiro. Outros tentam suicídio.
Nos EUA, na Inglaterra e na Austrália, estima-se que o vício atinja entre 1% e 4% da população — taxa superior às da esquizofrenia e psicose maníaco-depressiva. O tratamento é psicoterápico, com resultados considerados satisfatórios pelos especialistas do Amjo.Folha da Região – Roberto Alexandre dos Santos – Araçatuba (SP)