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Cassinos no Brasil: uma oportunidade & uma preocupação

16/03/2020

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Oreni Braga*

Há mais de uma década, a discussão a respeito dos cassinos retornarem ao cotidiano brasileiro tem sido uma realidade. O Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes de Turismo do Brasil – FORNATUR discutiu reiteradamente, por longos anos, a legalização desse atrativo no país. Todavia, nunca imaginamos que o tema pudesse receber uma atenção especial por parte dos tomadores de decisão no Governo Central, como está se vendo recentemente.
Enquanto estivemos frente ao Órgão Estadual de Turismo do Amazonas, por 14 anos, participamos de inúmeras audiências públicas e seminários, nas Comissões de Turismo da Câmara e do Senado Federal,  em Brasília, para discutir o retorno dos Cassinos no Brasil.
Eu cheguei, inclusive, a encaminhar ofícios à vários Ministros que passaram pela Pasta do Turismo, indicando os municípios de Manaus, Barcelos e São Gabriel da Cachoeira, para sediarem cassinos, por entender que os municípios mais distantes, desde que ofereçam uma boa infraestrutura de acesso (porto ou aeroporto), podem ser beneficiados com esse atrativo que movimenta bilhões de reais no mundo.
A experiência dos cassinos para o turismo brasileiro será extraordinária. Macau, Singapura, Las Vegas e outros destinos mundiais são experiências exitosas e faturam fortunas com os turistas que viajam para esses ambientes em busca do divertimento.
No entanto, percebemos que no Brasil, mais uma vez, os olhares daqueles que tomam as decisões no país estão voltados para as regiões mais ricas. O que era Las Vegas antes dos Cassinos? Um deserto de  clima extremamente elevado e quase nenhum morador. Embora tenha havido várias investidas para que Vegas se tornasse povoada e com crescimento econômico, só após a criação das leis que decretaram a instalação dos cassinos foi que a cidade começou, efetivamente, a atrair os investidores do segmento, de grandes grupos empresariais de resorts de luxo e dos extraordinários hotéis temáticos. Daí foi um salto para que Las Vegas se tornasse diferenciada das demais cidades americanas.
Aliás, o desenvolvimento de Vegas como destino turístico começou com os próprios americanos que passaram a escolher a cidade como seu destino prioritário, por conta dos seus atrativos inovadores.  A partir de então, a fama de Las Vegas estava criada e o seu destino traçado como a Cidade do Pecado. Mas, não é bem assim! Nem tudo é permitido na cidade das luzes e da diversão. Algumas regras devem ser observadas. O cidadão só pode ingerir bebida alcoólica se comprovar que tem 21 anos de idade. Beber enquanto dirige? Nem pensar! Quem acha que vai curtir Las Vegas e vai poder fazer tudo, está muito enganado. Os pontos turísticos da cidade são monitorados por câmeras e bem policiados. Foi pego fumando maconha nas ruas ou em locais públicos é dor de cabeça. Não pode!
Mas, o que importa mesmo é que, do nada, surgiu uma cidade que revolucionou o turismo americano. Embora o Estado de Nevada tenha legalizado o cassino em todo seu território, foi Vegas quem tomou para si o protagonismo do negócio. E veja só, Vegas estava no meio do nada!
E o que dizer de Macau? A pequena ilha Macau passou a ser considerada a Las Vegas do Oriente, por conta da visão estratégica de seu governo, em transformar a região no destino turístico de cassinos. Macau tem algumas aparências arquitetônicas com o Brasil, uma vez que foi colonizada por nossos irmãos portugueses, e muitos cidadãos locais ainda falam português.  No entanto, pensou mais rápido que nós! Legalizou os cassinos e passou a faturar 6 vezes mais que Las Vegas, embora a cidade americana continue com a fama conquistada.
O que Macau fatura com os cassinos em uma semana, Vegas leva um mês para faturar. O faturamento dos cassinos representa 80% da economia de Macau. A proximidade de Macau com Hong Kong permite a ida de turistas no famoso Day Trip, os quais deixam fortunas naquela cidade mágica.

O impressionante é que a legalização dos cassinos nessas cidades arregimentou importantes e vultosos investimentos privados, além de obrigarem aos governos a investir na infraestrutura básica e de apoio, garantindo assim, o sucesso do destino. Ganham os governos! Ganham os empresários! Ganha a população com um leque de novas oportunidades de trabalho.
Portanto, reiteramos que, os cassinos devem ser implantados em regiões que necessitam de desenvolvimento. Não em regiões já desenvolvidas. As regiões Norte e Nordeste devem merecer, por parte do Governo Central, um olhar diferenciado.
Está na hora da economia desse segmento turístico ser uma realidade nos locais remotos do Brasil. Se juntarmos os fartos atrativos naturais e culturais dessas duas regiões com os cassinos, o Brasil sairá da inércia de receber um pouco mais que 6 milhões de turistas estrangeiros/ano. Em 2019, Macau e Vegas receberam 39,4 milhões e 42, 5 milhões de turistas, respectivamente. Macau tem 28,6 mil quilômetros quadrados em dimensões geográficas e um pouco mais de 600 mil habitantes.
O nosso Brasil é um país continental, rico em terras vazias ou pouco habitadas, como é o caso da Amazônia, que dispõe de cidades fronteiriças e cidades estratégicas, longe dos eixos econômicos do país.
Só o Estado do Amazonas é detentor de 18% do território nacional, ou seja, 1 milhão e 571 mil quilômetros quadrados, com um pouquinho mais de 4 milhões de habitantes, oferecendo condições especiais para esse segmento se instalar.
A capital Manaus está 04h50 minutos de Miami, tem um clima similar ao de Vegas e está conectado via aérea com os estadunidenses, portanto com todas as prerrogativas para receber os grandes e importantes resorts, desde que se instalem fora da área urbana da cidade, evitando assim a proliferação de atividades indesejadas e o mínimo de impactos negativos para a sociedade local.
No entanto, para que isso aconteça em nosso país, é preciso vontade política dos governos para destravar a legalização desse fenômeno. A instalação de cassinos atrelada a parques de diversão será injeção na veia da economia local.
Cremos que as iniciativas dos parlamentares federais, do próprio presidente da República, juntamente com o ministro da Economia e os governadores, em discutir esse tema como pauta do dia, será um divisor de águas para o turismo brasileiro.
Por outro lado, existe uma enorme preocupação de que essas discussões fiquem apenas no âmbito de governos, sem que haja a efetiva participação do trade nacional do turismo.
Outra preocupação é a possível legalização de outros tipos de jogos que não trazem benefícios ao país, da proliferação da prostituição e do crime organizado.
O Brasil pode adotar mecanismos legais que favoreçam o que deu certo nessas cidades e evitem ou minimizem aquilo que possa trazer mazelas sociais ao país.
(*) Oreni Braga é ex-presidente da Amazonastur, especialista em Ecoturismo e Design de Ecolodges e mestre em Gestão e Auditoria Ambiental e veiculou este artigo no Amazonas Atual.

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Confira a opinião no Blog do Editor: Falta de informação e avaliação equivocada amplifica o preconceito contra os jogos‘.