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CBN: Quase cinco milhões de brasileiros têm problemas com jogos de azar

09/08/2019

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Clandestinos ou disfarçados, bingos voltam a se multiplicar em São Paulo. Foto: Guilherme Balza / CBN

“Apertava o botão e ficava rodando, rodando… Te enfeitiça, né? Teve um dia que eu perdi R$ 2 mil. Meu filho mais novo tem hoje 16 anos e eu perdi a infância dele todinha”.
O manobrista Thiago Cícero da Silva desperdiçou um terço da vida com o jogo e as drogas, um vício alimentando o outro. Começou com baralho no bar. Logo foi para as máquinas de caça-níquel. E aí se arruinou financeiramente. Deprimido, passou a usar cocaína. Com ajuda da mulher e de uma entidade religiosa, conseguiu se recuperar.
“Aí tinha que pegar dinheiro emprestado com agiota. Começava a perder e ficava depressivo. Pensava em como pagaria as contas. E daí entravam as drogas. Emocionalmente eu estava todo destruído”.
Morador do Capão Redondo, periferia de São Paulo, Thiago se enquadra no perfil do brasileiro mais atingido pelo transtorno do jogo. Dados do Programa Ambulatorial do Jogo Patológico, do Hospital das Clínicas, mostram que 1% da população sofre desse transtorno e outros 1,3% têm algum nível de problema. Em números absolutos, quase 5 milhões de brasileiros sofrem com jogos de azar. É o terceiro vício mais comum, atrás do álcool e do cigarro.
A psicóloga Mirela Mariani, uma das voluntárias do programa, diz que a primeira fase é a da vitória. Em seguida, começam as derrotas e os empréstimos. A terceira fase é a do desespero, da completa impotência.
“Quanto mais rápido o estímulo, mas o jogo pode ser viciante. Os estímulos visuais, as dobras, os pagamentos em suspenso, todas esses são pressupostos que vão fazer as máquinas criar mais dependência no apostador.”
Os jogos de azar foram proibidos em 1946 e liberados em 1993. Em 2001, os jogos voltaram a ser proibidos, mas as casas continuaram abertas com base em permissões judiciais. Em 2007, o STF proibiu os bingos de vez.
O presidente do Instituto do Jogo Legal, Magno José de Sousa, afirma que a legalização pode gerar R$ 20 bilhões em impostos ao ano e criar 600 mil empregos. Ele diz ainda que ajudaria a combater o que chama de indústria da proibição, ou seja, a corrupção e os crimes associados à clandestinidade.
“É você legalizar a demanda, controla essa demanda, e a partir dessa demanda o estado avalia o que serve. E aí você vai eliminando as modalidades que não servem, que geram problemas para a sociedade, que podem gerar mais facilmente patologias, que podem gerar dificuldades de fiscalização”.
Há dois projetos, no Senado e na Câmara. Esse último está pronto para ser votado. A psicóloga Mirela Mariani teme os efeitos da legalização.
“Isso significa que mais pessoas estarão expostas. Significa que mais vulneráveis tomarão contato com o jogo. É muito mais fácil resistir à tentação se ela não é constantemente esfregada na sua cara”.
Hoje aposentado, Wilson Jesus Dutra foi viciado em caça-níquel por 20 anos. Em meio ao vício, terminou o primeiro casamento e tentou se suicidar.
“Você não dá mais atenção aos seus filhos, abandona a esposa, abandona o lar literalmente falando. Você desenvolve a mitomania. Você passa a ser um mentiroso compulsivo. Seu cérebro vira um mingau. Você não tem controle nenhum sobre seus atos”.
Wilson parou de jogar há 17 anos, após receber apoio da ONG Viver Bem e do Neuróticos Anônimos. É autor de dois livros sobre o tema. Ele não é contrário à legalização, mas diz que isso só funcionária se houvesse uma fiscalização rígida.
“Em outros países existe essa fiscalização. O camarada entra e vai jogar, é um jogo que ele sabe. Então existe uma fiscalização, existe um jogo honesto. Aqui no Brasil, não.”
(Ouça a íntegra do áudio de 4m06s da reportagem de Guilherme Balza e Bianca Kirklewski, Com colaboração de Izabela Ares para a Rádio CBN).

Conivência da polícia e pena branda ajudam a manter bingos abertos em SP

A reportagem da CBN visitou oito bingos que funcionam em áreas de muito movimento, vizinhos a estações de metrô ou terminais de ônibus. As irregularidades são visíveis ou facilmente comprovadas, mas as casas continuam a funcionar. Quando são fechadas, voltam a abrir em outros endereços ou no mesmo local, mas com outro nome
(Ouça a íntegra do áudio de 3m46s da reportagem de Guilherme Balza e Bianca Kirklewski para a Rádio CBN)

 

Clandestinos ou disfarçados, bingos voltam a se multiplicar em São Paulo

Proibidos há 15 anos, os bingos voltaram a se multiplicar pelas ruas da maior cidade do país. As casas funcionam na clandestinidade ou se utilizam de ONGs, muitas delas de fachada, para driblar a legislação. A reportagem da CBN esteve em oito bingos nos últimos dias

(Ouça aqui a íntegra do áudio de 4m52s da reportagem de Guilherme Balza e Bianca Kirklewski para a Rádio CBN)