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China aproveita passado português de Macau.

22/10/2004

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Macau – Nesta península inundada de história, onde a cultura portuguesa se mistura com o ar salgado do Mar do Sul da China, um visitante do Brasil começa o dia tomando o café-da-manhã, enquanto lê um dos três jornais diários em português ou assiste às noticias em uma das duas estações de televisão portuguesas.
Na rua, um motorista de táxi abaixa o seu sinal de ‘livre’, e pega um passageiro em meio a palmos de coqueiros, igrejas católicas barrocas, fortes pintados de branco, faróis no topo de montanhas, placas de ruas em português e chinês e anúncios bilíngües sobre festivais de música. Fazendo com que visitantes se sintam mais em casa, a Rádio Macau toca o fado, bossa-nova e notícias em português o dia inteiro.
Cinco anos atrás, quando Portugal rendeu o seu enclave de 16 quilômetros quadrados à China, a maioria das pessoas previu que sua língua iria desaparecer em um piscar de olhos. Os portugueses pouco fizeram para promover a sua língua aqui, desde que seus mercadores pisaram nas margens por volta de 1553. Quando partiram, somente por volta de 2% das 450 mil pessoas em Macau falava a língua de Lisboa, com os outros 98% falando cantonense e outras línguas.
Mas em uma reviravolta surpreendente, as inscrições para aulas particulares de português triplicaram, para mil desde 2002. Isso estimulou as escolas públicas chinesas a oferecerem aulas de português nesse outono, atraindo mais de 5 mil estudantes.
“O número de falantes de português explodiu no ano passado”, disse Manuel F. Moreira de Almeida, um antigo residente português que administra a Livraria Portuguesa, uma loja em uma estreita rua colonial. “Em poucos anos, haverá mais falantes de português aqui do que durante a época portuguesa”.
Se a economia dita a ascensão e queda de línguas, a renascença do português é ditada pela nova determinação de Pequim para que Macau sirva de plataforma para o crescente interesse comercial e estratégico da China no mundo latino.
Apesar do jogo ser a muito tempo a principal indústria aqui, a minúscula Macau achou uma nova função: a ligação da China com as 220 milhões de pessoas do mundo em português.
Enquanto Pequim sempre atrairá as visitas mais importantes, como a viagem de maio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, Macau oferece programas de treinamento e convenções em ambientes culturalmente amistosos do canto mediterrâneo da China, onde o português está, oficialmente pelo menos, no mesmo pé que o chinês.
“Macau pode ser uma ponte entre a China e países que falam português”, o vice-ministro do comércio da China, Na Min, disse em outubro passado depois de negociações de mercado com sete países de língua portuguesa. Coroando as negociações, a China assinou um acordo para aumentar o comércio, investimento e cooperação econômica com Portugal e seis de suas antigas colônias: Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guinea Bissau e Timor Leste. São Tomé e Príncipe não participou por ter relações diplomáticas com Taiwan.
A Universidade de Macau agora ensina direito em português para angolanos e Moçambicanos. Seminários de treinamento em turismo, enfermagem, tradução e administração de empresas atraem estudantes dos cinco países de língua portuguesa da África e do Timor Leste, uma ilha na Ásia com longas ligações históricas com esse posto de comércio no delta do Pearl River.
“Macau pode ser um intermediário, fornecendo serviços de boa qualidade em treinamento, tradução e consultoria”, disse Gary M. C. Ngai, um pesquisador local. Devagar para estabelecer conexões com países de língua portuguesa e espanhola, a China agora se move agressivamente. Quase da noite para o dia, se tornou o segundo maior parceiro econômico do Brasil, depois dos EUA, comprando ferro brasileiro, aço, alumínio e soja. O comércio bilateral com o Brasil quadruplicou desde 1999, para US$ 6,7 bilhões no ano passado. Em retorno, a China apóia o Brasil no esforço para ganhar um assento no Conselho de Segurança da ONU.
“A China é intimidadora do ponto de vista militar e indústrial, mas as suas regiões especiais têm uma imagem diferente”, o ministro do comércio do Brasil, Luiz Fernando Furlan, disse aqui, referindo-se a Macau e Hong Kong, de acordo com a Associated Press.
No norte do Brasil, uma siderúrgica de aço de US$ 1,5 bilhão está sendo construída com a parceria da Shanghai Baosteel Group e a Companhia Vale do Rio Doce, a maior produtora de minério de ferro do mundo. A Vale do Rio Doce também tem um parceria com a produtora de alumínio chinesa, a Chalco, para construir uma refinaria de alumínio no valor de US$ 1 bilhão, também no norte do Brasil.
A Argentina viu o seu comércio com a China dobrar desde 2000. O Chile negocia um pacto de livre comércio com a China.
À medida que a China se torna mais dependente de petróleo externo, ela cultiva a Angola, um dos maiores produtores de petróleo do Oeste da África. Com os negócios e o comércio oficial se intensificando, a China concordou recentemente em estender US$ 2 bilhões em créditos para a Angola, principalmente para reconstruir a ferrovia leste-oete do país, um linha da era colonial destruída por 40 anos de guerra civil.
“Os países de língua portuguesa rico em recursos e o mercado que mais cresce no mundo, a China, parece ser um par perfeito”. An, vice-ministro do comercio da China, disse no ano passado, de acordo com a Xinhua. Para esses mercados, Macau está preparando um exército para tradutores bilíngües.
Típico de uma nova direção, quando a Feira de Investimento e Comercio Internacional abrir no dia 21 de outubro, haverá uma grande sessão chamada “Feira de Países de Língua Portuguesa-Chinesa”.
Depois de se encontrar aqui em outubro passado, executivos da Portugal Telecom, a maior companhia de Portugal, estão desenhando planos para se expandirem na China. Sob um novo acordo de livre comércio China-Macau, o acesso livre de impostos se iniciara a partir de 1 de janeiro de 2006 para 93% dos produtos exportados aqui para a China, e o mercado da China abrirá para 18 setores de serviços, incluindo telecomunicações.
Para Ricardo Pinto, editor do Ponto Final, um dos jornais diários, a conexão também permite a cidade “alguma diversificação econômica além do jogo”.
Macau se nomeou no passado como a Monte Carlo do Oriente. Hoje, o jogo cresce, inchando as fileiras de 5 milhões de pessoas esperadas para usar o aeroporto internacional de Macau este ano.
O seu 15o cassino, o Casa Real, abriu recentemente e a receita do jogo em Macau subiu por volta de 50%, comparado com o ano passado, de acordo com o The Macau Post Daily, o primeiro jornal em inglês da cidade, que estreou em agosto para se aproveitar da sua nova fartura. Com bilhões de dólares em investimentos planejados para novos cassinos, Macau espera que em 2010 duplique o seu número de visitantes anuais, para 30 milhões, quase o mesmo que Las Vegas.
Com a renda per capta de Macau atingindo US$ 17 mil, quase o nível de Portugal, existe pouco incentivo econômico para os 110 mil possuidores de passaporte português aqui emigrarem para Portugal. Surfando na onda do jogo, o governo de Macau espera coletar US$ 2 bilhões  em taxas de jogo este ano, 60% a mais do que o ano passado.
Longe de se afastar do passado colonial de Macau, líderes da cidade restauraram e iluminaram marcos coloniais, como igrejas, fortes, hospitais, teatros, museus, um observatório e o palácio do governo. Raro para uma cidade asiática moderna, a preservação histórica tem sido tão extensiva que Macau espera receber reconhecimento no ano que vem da Unesco como um local de patrimônio mundial.
“Eles foram de preservação de patrimônio para a cultivação de patrimônios”, disse Harald Bruining, diretor do The Macau Post Daily.
As telhas pastéis e vermelhas dos telhados, pratos com bacalhau português e um enxame de motocicletas dá um amplo gosto de Mediterrâneo. Todos os nomes das companhias e sinais de transito são obrigados a estar em português e chinês, o que deixa os visitantes de língua inglesa confusos.
Mas como Almeida, que vê uma nova geração de falantes de português entrando em sua livraria, diz. “Os portugueses foram de uma ressaca colonial para uma oportunidade de negócios”.
The New York Times