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Clientes de bingos lotam grupo de auto-ajuda em busca da cura do vício.

20/10/2003

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A disputa em torno dos bingos vai além das denúncias de irregularidades. Psicanalistas alertam que o bingo vicia como uma droga. Para se ter uma idéia, 95% dos cerca de 450 apostadores compulsivos que freqüentam o grupo de auto-ajuda Jogadores Anônimos (JA) são viciados em bingo. O que era passatempo inofensivo, típico do domingo no clube, profissionalizou-se e produz alto grau de dependência: há os que já perderam fortuna e hoje tentam se livrar de cartelas e caça-níqueis.
O psiquiatra Ricardo Krause conta que, em seu consultório, cresce o número de jogadores patológicos. Ele diz que o bingo é uma droga: pesquisas feitas nos Estados Unidos mostram que o cérebro do jogador patológico comporta-se de modo semelhante ao do viciado em álcool e cocaína.
— A partir de mapeamentos por tomografia computadorizada, ficou constatado que o perfil cerebral de um jogador é semelhante ao de quem usa drogas. Já há medicamentos que interferem na química do cérebro e reduzem o desejo de jogar, o que prova que há, nessas pessoas, disfunção química — diz.
Jogadores compulsivosficam em transe
Ricardo Krause lembra que o ambiente já é inebriante:
— São locais onde as pessoas não sabem se é dia ou noite. As pessoas que jogam ficam em transe.
Foi exatamente o glamour do ambiente que atraiu a bancária Silvia (pseudônimo usado no JA). Ela conta que começou a frequentar casas de bingo com os pais e o marido, mas perdeu o autocontrole:
— Deixava de ir trabalhar para jogar. Cheguei a ficar dez horas no bingo e perder R$ 1 mil.
A psicanalista Ruth Goldenberg explica que o perigo não está no jogo, mas no jogador:
— A pessoa que tem tendência ao vício se torna compulsiva. São, em geral, pessoas com problemas psicológicos que buscam no jogo uma compensação para resolver angústias.
A aposentada Maria Vergueiro, de 68 anos, garante que não é viciada e que só joga duas vezes por semana, acompanhada de amigas. Ela festejou a reabertura dos bingos, fechados durante sete dias por determinação da Justiça Federal, que investiga irregularidades no jogo. Liminar concedida pelo ministro Marco Aurélio de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), reabriu as casas na quinta-feira.
— É minha diversão predileta. Mas só jogo R$ 20, duas vezes por semana. O dinheiro não faz falta — diz Maria.
Para a executiva Morgana (nome que adota no JA), de 46 anos, o jogo começou como brincadeira, até que virou vício. Ela já perdeu R$ 2 mil em seis horas de jogo, mas não freqüenta casas de bingo há 25 dias e quer resgatar a autoconfiança.
A vendedora Priscila, também do JA, conta que, em quatro anos de jogo, fez uma dívida de R$ 30 mil:
— O jogador perde o controle. As luzes e o barulho das máquinas hipnotizam — conta.
Para o executivo Marcelo Matos, de 51 anos, o maior perigo dos bingos é o fato de ficarem abertos 24 horas:
— E você não precisa de parceiros. Em dois anos, fiz dívida com bancos, agiotas e financeiras. Quase perdi a família.
O Globo – Taís Mendes