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Cobertura da mídia: Depoimento de Waldomiro Diniz na CPI da Loterj na Alerj

14/04/2004

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Waldomiro: ”Fui e sou chantageado”. Ex-assessor da Casa Civil reclama das pressões de Carlinhos Cachoeira e se diz envergonhado. Jornal do Brasil – Adriana Freitas Em depoimento à CPI da Assembléia Legislativa do Rio, o ex-presidente da Loterj e ex-assessor de Assuntos Parlamentares da Casa Civil, Waldomiro Diniz, acusou o bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, de tê-lo chantageado desde janeiro do ano passado. Waldomiro respondeu às perguntas do deputados durante seis horas, chegou a se emocionar em alguns momentos e alegou que Cachoeira estaria contrariado por não ter conseguido instalar máquinas de videoloteria no Estado. Segundo o ex-presidente da Loterj, o bicheiro não obteve autorização para implantar essas máquinas e, pelo contrato, deveria explorar a loteria online, com direito a apresentar novas modalidades de jogos. – Por que esse senhor nutre por mim tanto ódio? Por que usou expediente criminoso de ter uma fita gravada durante dois anos e veio a utilizar agora? Foi porque eu não cedi naquilo que ele não tinha direito. Eu disse que concordava, desde que ele cumprisse o determinado no contrato. Ele se sentiu prejudicado e usou outros subterfúgios – declarou. Segundo ele, as pressões começaram assim que assumiu o cargo de assessor da Casa Civil: – Eu fui e estou sendo chantageado. No início de janeiro de 2003, recebi em meu gabinete uma ligação de um senhor chamado Mino Pedrosa, jornalista, dono de uma empresa de consultoria, que já afirmou prestar consultoria ao senhor Carlos Cachoeira. Ele me perguntou o que eu tinha a dizer sobre uma fita ”em que que você está pedindo dinheiro para um bicheiro de Goiás, o Carlinhos Cachoeira”. Pego o telefone, ligo para Carlinhos Cachoeira, e digo que quero saber o que é isso. Ele disse: ”É que você não retorna as minhas ligações”. Mino Pedrosa negou ontem as acusações e disse que não fez qualquer tipo de chantagem. Cachoeira não quis comentar o depoimento. De seu primeiro contato com o bicheiro, Waldomiro disse lembrar que o empresário já planejava uma jogada ilegal: ”queria comprar o contrato de exploração de loteria online que, em 2001, pertencia à Montreal”. O ex-assessor da Casa Civil garantiu que, à época, encaminhou à Procuradoria Geral da República e ao ministro da Justiça ofícios pedindo para que as denúncias fossem apuradas. – Eu pedi para ser investigado e, para minha surpresa, recentemente fui procurado novamente por esse senhor para interferir no processo de bingos que tramita na Casa Civil – informou. Waldomiro concentrou o depoimento na acusação de chantagem envolvendo a fita, mas também teve de explicar o conteúdo da gravação, na qual aparece pedindo propina a Cachoeira. A culpa recaiu sobre o consultor da Loterj Armando Dili, morto em dezembro de 2002, vítima de aneurisma. O ex-assessor da Casa Civil se descreveu ”como um refém que tentou ajudar um amigo (Dili)”. Segundo ele, a quantia de 1% pedida na fita de vídeo serviria, na verdade, como pagamento ao consultor. – Cometi um pecado ao tentar ajudar um amigo a quem presto homenagem por não estar mais entre nós. Ao tentar ajudá-lo, tornei-me refém de uma engenharia criminosa, de uma gravação premeditada feita por pessoa inescrupulosa para aferir benefício financeiro – afirmou. Em tom de mea-culpa, Waldomiro se disse constrangido: – Estou envergonhado, com a alma quebrada, mas não tenho medo de ser investigado. Preciso voltar a olhar de cabeça erguida para meus amigos, filhos, pais, e para aqueles que sempre depositaram confiança em mim e hoje são cobrados cotidianamente como se beneficiários fossem dos meus atos. O presidente da CPI, Alessandro Calazans (PV), vai propor uma acareação entre Waldomiro e Cachoeira. Magela nega doação. No depoimento à CPI, Waldomiro Diniz confirmou que repassou R$ 100 mil para a campanha de Geraldo Magela (PT) ao governo do Distrito Federal. Segundo ele, a doação feita por Carlinhos Cachoeira foi entregue em parcelas ao tesoureiro Paulo Waisros Pereira, o Paulinho. Waldomiro contou aos deputados que o consultor Armando Dili mencionou que Cachoeira queria contribuir para campanhas políticas no Rio. O ex-presidente da Loterj negou, contudo, ter recebido dinheiro para campanhas no Estado. Magela negou ontem que tenha recebido de Waldomiro doação de campanha, mas se complicou ao não explicar por que desconhecia que seu tesoureiro se encontrou com ele durante a campanha eleitoral. O próprio Paulinho confirmou pelo menos dois encontros no Rio. – Eu era candidato e tinha um conjunto de coordenadores setoriais. Não tinha como saber o dia-a-dia da campanha – alegou Magela. Durante o depoimento, Waldomiro Diniz confirmou que o ex-governador Anthony Garotinho o convidou para presidir a Loterj. – Fui assessor parlamentar do governador Cristovam Buarque, que em 1998 perdeu a reeleição em Brasília. O governador Garotinho disse a ele que precisava de uma espécie de secretário em Brasília. Cristovam respondeu que, se ele quisesse, Waldomiro Diniz seria uma boa escolha. Garotinho considerou e me convidou – contou. Na presidência da Loterj, Waldomiro ganhava R$ 4 mil e recebia ajuda de custos de R$ 8 mil da ONG Fundação Parque de Alta Tecnologia de Petrópolis. – É claro que não vejo dispositivo legal que autorize esse tipo de mecanismo – comentou o deputado Alessandro Calazans sobre o dinheiro que, segundo o próprio Waldomiro, não foi declarado à Receita Federal. Apesar disso, Calazans não pretende convocar Garotinho para depor. Waldomiro chora e pede desculpas na CPI.
O Globo – Toni Marques
Em depoimento ontem à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro que apura supostas irregularidades durante sua gestão na Loterj, Waldomiro Diniz chorou e pediu desculpas indiretamente ao ministro José Dirceu (Casa Civil):
— Quero dizer que peço desculpas pelo constrangimento que causei.
Ele disse que assumiu a presidência da Loterj não por arranjo político entre PT e PSB, mas por convite do então governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, que à época era filiado ao PSB e tinha como vice-governadora Benedita da Silva, do PT, numa aliança eleitoral.
— Quem me convidou foi o então governador Anthony Garotinho. (Não houve) qualquer acordo político. Eu era representante do governo do Estado do Rio de Janeiro em Brasília — disse Waldomiro, cujo depoimento durou cinco horas e meia. — Desenvolvi um trabalho que julgo do agrado do senhor governador, e isso levou o governador a me convidar para ser presidente da Loterj.
Garotinho não se pronuncia sobre depoimento à CPI.
Ao fim da entrevista coletiva concedida ontem a respeito da violência no Rio, o secretário de Segurança, Anthony Garotinho, encerrou o evento sem se pronunciar sobre o depoimento dado à CPI. A afirmação de Waldomiro contradiz informação prestada por Garotinho e pela governadora Rosinha Matheus, em fevereiro deste ano. Rosinha dissera que Waldomiro era “da cota do PT”. Procurada pelo GLOBO, a assessoria de Garotinho não retornou o telefonema.
Waldomiro disse também que não tinha intimidade com Armando Dile, prestador de serviço da Loterj que deixou a autarquia para trabalhar para o bicheiro Carlos Ramos, o Carlinhos Cachoeira, no consórcio Combralog. Mesmo assim, Waldomiro afirmou ter cometido “um pecado ao tentar ajudar um amigo, Armando Dile”. Segundo Waldomiro, o pedido que fez de 1% mostrado na fita gravada por Cachoeira e divulgada em fevereiro pela revista “Época” era para Dile, que morreria em acidente de carro em 2002.
— Errei, cometi um pecado e responderei por ele.
Ele explicou que Dile lhe dissera que, depois de ser contratado por Cachoeira, não recebia regularmente o salário combinado. Foi por isto que Dile, segundo ele, o convidou para conversar com Cachoeira num escritório da Torre RioSul, no Rio de Janeiro. Ali teria ocorrido a gravação divulgada pela “Época”.
— Estive naquela conversa, estava ali para ajudar um amigo em dificuldade. E por que em dificuldade? Carlos Cachoeira contratou Armando Dile e não mantinha regularidade nos seus pagamentos. Armando passou por dificuldades em alguns momentos.
Waldomiro chorou ao se dizer vítima de chantagem por parte de Cachoeira.
— Eu fui e estou sendo chantageado — disse ele.
Waldomiro afirma que, em janeiro de 2003, o jornalista Mino Pedrosa lhe telefonou para falar sobre a existência da fita. Waldomiro diz que o jornalista presta serviço para Cachoeira. Mino e Cachoeira teriam tentado a chantagem, segundo Waldomiro.
— Há muito tempo, como homem público, deveria ter dado um basta nesta história. (Cachoeira) me chamou para propor negócios escusos os quais não aceitei. Pedi investigação ao procurador Cláudio Fonteles; pedi investigações ao ministro Waldir Pires; ao ministro da Justiça (Márcio Thomaz Bastos) — disse ele, indicando documentos que comprovariam o que disse à CPI. — Eu pedi para ser investigado.
Cachoeira, prosseguiu Waldomiro, o procurou novamente para propor “interferência no processo de bingos que tramitava dentro da Casa Civil”.
Sobre a campanha de Geraldo Magela, Waldomiro afirmou que, conforme a gravação, entregou à campanha do então candidato ao governo do Distrito Federal R$ 100 mil. Negou, porém, que tenha recebido dinheiro para as campanhas de Rosinha e Benedita ao governo do Rio em 2002
A CPI suspeita que Waldomiro cometeu ato ilegal pelo fato de ele ter dito que, além do salário de R$ 4,5 mil recebido na Loterj, ganhava R$ 8 mil como “ajuda de custo” da Fundação Parque de Alta Tecnologia de Petrópolis, dinheiro não declarado à Receita Federal. Procuradoria contesta ex-assessor de Dirceu.
BRASÍLIA. A Procuradoria-Geral da República negou ontem que Waldomiro Diniz, ex-subchefe de Assuntos Parlamentares da Casa Civil, tenha informado que estava sendo chantageado pelo bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, quando já trabalhava no governo. Na procuradoria há apenas registro de um ofício enviado por Waldomiro em 4 de julho de 2003, pedindo que a revista "IstoÉ" fosse responsabilizada criminalmente por insinuar seu envolvimento com a máfia do jogo.
"Por exercer função pública e de confiança não é possível admitir tamanha agressão, sem causa e gratuita. Um governo que tem a probidade administrativa como uma de suas pedras angulares não pode tolerar que nuvem tão espessa possa pairar sobre um de seus servidores", escreveu Waldomiro.
Candidato derrotado ao governo do Distrito Federal, o ex-deputado Geraldo Magela chamou ontem Waldomiro de mau caráter e voltou a ameaçá-lo com uma ação de calúnia e difamação, negando que tenha recebido R$ 100 mil para a campanha.
O tesoureiro de sua campanha, Paulo Wairos Pereira, no entanto, confirmou, pela primeira vez, ter se encontrado pelo menos duas vezes com Waldomiro, para pedir ajuda na captação de recursos. Houve contradição entre as versões. Magela disse que soube dos encontros ontem. Wairos afirmou não lembrar se avisara a Magela em 2002, mas garantiu ter avisado em fevereiro, quando o escândalo estourou.
— Ele (Magela) reuniu a coordenação e perguntou se alguém tinha recebido dinheiro de Waldomiro. Respondi: ‘Não’. Nem nos encontros que tive com ele recebi alguma coisa — diz Wairos.
O depoimento de Waldomiro serviu para reforçar a pressão da oposição por uma CPI. O senador Antero Paes Barros (PSDB-MT), autor do requerimento da CPI de Waldomiro, fez novo apelo aos colegas para completar as 27 assinaturas necessárias.
Já o líder do PMDB, senador Renan Calheiros (AL), no entanto, voltou a descartar a possibilidade de o Senado promover uma investigação paralela à que vem sendo feita pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. Mas Renan considera fundamental a punição de Waldomiro e de todos os demais envolvidos no escândalo. Ontem, os petistas se recusaram a comentar o depoimento.
— Pergunte ao Waldomiro — recomendou Professor Luizinho.Waldomiro diz que repassou dinheiro a petista.
Ex-assessor de Dirceu afirma em CPI que valor recebido de bicheiro foi para campanha de Magela.
Estadão – WILSON TOSTA e KELLY LIMA RIO – O ex-subchefe de Assuntos Parlamentares da Casa Civil Waldomiro Diniz confirmou ontem ter repassado dinheiro do bicheiro Carlos Ramos, o Carlinhos Cachoeira, para a campanha do candidato do PT ao governo do Distrito Federal em 2002, Geraldo Magela, e revelou o nome de quem recolheu a contribuição: o tesoureiro "Paulinho". Em depoimento à CPI da Loterj/Rioprevidência da Assembléia Legislativa, ele disse ter entregue R$ 100 mil, em cinco ou seis encontros, no Rio e em Brasília, mas negou ter repassado dinheiro para as campanhas de Rosinha Garotinho (PMDB) e Benedita da Silva (PT). Segundo ele, foi Cachoeira que disse querer contribuir com as campanhas. Waldomiro acusou Cachoeira de usar a fita em que ambos aparecem discutindo propinas e contribuições de campanha em 2002 para tentar, por chantagem, influir no projeto sobre bingos que tramitava na Casa Civil. Segundo ele, Cachoeira no ano passado usou a gravação, que deflagrou a maior crise do governo Lula, para chantageá-lo pessoalmente. Ele disse que sabia do vídeo desde o início de 2003."Estou dizendo ao senhor (deputado Luiz Paulo Corrêa da Rocha, do PSDB, um dos relatores) e quero dizer ao Brasil que fui e estou sendo chantageado por esse senhor com essa fita", disse Waldomiro, que presidiu a Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) em 2001 e 2002.Em mais de cinco horas de depoimento, Waldomiro relatou ter sido procurado, no início de 2003, por telefone, pelo jornalista Mino Pedrosa, que presta consultoria para Cachoeira. Pedrosa teria perguntado o que tinha a dizer sobre a fita. Waldomiro contou ter dito que desconhecia o fato e procurou Cachoeira, que alegara ter assuntos para tratar com ele, que não lhe respondia às ligações."Herói" – Depois do relato do suposto achaque em tom emocionado e com voz embargada, Waldomiro disse que não denunciou nada por estar acuado. "Talvez hoje (se tivesse reagido), Waldomiro Diniz estaria aqui como herói nacional", disse, com ironia.Ele insistiu na versão de que pediu dinheiro a Cachoeira não para si, mas para o amigo Armando Dilli, que trabalhara na Loterj e prestava serviços para o empresário. O ex-subchefe disse que Dilli, que já morreu, passava na época por dificuldades financeiras, porque não estava recebendo de Cachoeira. "Cometi um pecado", disse ele, referindo-se ao fato de não mencionar na fita que o dinheiro era para Dilli.O ex-subchefe também disse ter sido indicado ao então governador Anthony Garotinho (PMDB) para representar o Rio em Brasília pelo hoje senador Cristovam Buarque (PT-DF), com quem trabalhou no governo do Distrito Federal. Depois, segundo ele, Garotinho o convidou para a presidência da Loterj. Por meio de sua assessoria, o hoje secretário de Segurança Garotinho reafirmou que a indicação para a Loterj foi do ministro da Casa Civil, José Dirceu.Waldomiro também contou ter conhecido Sérgio Canozzi, que, de acordo com o ex-secretário nacional de Segurança Pública Luiz Eduardo Soares, teria dito que Waldomiro arrecadava pouco para a campanha na Loterj. Segundo o ex-subchefe, Canozzi lhe disse que faria indicações na Loterj, mas ele não acreditou.O ex-assessor garantiu que nunca recebeu no governo federal ordem para cometer ilícitos. "Assumo a responsabilidade." Sem citar o nome de Dirceu, Waldomiro pediu desculpas a todas as pessoas que prejudicou com seus atos e agora sofrem cobranças por causas deles."Não sabia das reuniões", diz Magela
Petista nega ter recebido recursos para campanha e afirma que vai processar Waldomiro.
VANNILDO MENDES E EUGÊNIA LOPES BRASÍLIA – O candidato derrotado do PT a governador no Distrito Federal em 2002, Geraldo Magela, afirmou que só teve conhecimento das reuniões entre o ex-coordenador de finanças do partido Paulo Wairsros Pereira e Waldomiro Diniz ontem. "Não sabia dos encontros. Não tinha condições de acompanhar o dia-a-dia da campanha. Mas o Paulo é de absoluta confiança." Magela acusou Waldomiro de mentir em seu depoimento na Assembléia do Rio e anunciou que vai entrar com uma ação de reparação de danos por calúnia e difamação contra o ex-assessor da Casa Civil. "Ele foi desonesto e usou de mau-caratismo. Em nenhum momento ele trouxe recursos para a minha campanha", afirmou. Em nota distribuída ontem à imprensa, Geraldo Magela suspeita que as declarações do ex-assessor da Casa Civil teriam objetivos políticos. Pereira confirmou ontem que se encontrou, pelo menos duas vezes, com Waldomiro. Disse ter ido ao Rio, a pedido de Waldomiro, para tratar de financiamento para a campanha, mas negou que tenha recebido dinheiro do ex-assessor: "Waldomiro não falou a verdade. Em nenhum momento recebi recursos para a campanha das mãos dele." Cachoeira – O bicheiro Carlinhos Cachoeira afirmou ontem, por meio da sua assessoria, que jamais chantageou o ex-assessor do Palácio do Planalto Waldomiro Diniz para obtenção de contratos de exploração de jogos. Cachoeira disse que é vítima – não réu – no processo que apura corrupção e tráfico de influência no período em que Waldomiro presidiu a Loteria do Estado do Rio (Loterj), até 2002, e depois que ele assumiu a subchefia de Assuntos Parlamentares do governo federal, de janeiro de 2003 até ser afastado do cargo, em 13 de fevereiro. Para Cachoeira, Waldomiro mentiu perante a CPI da Loterj, no Rio, para confundir as investigações e tentar desqualificar as provas contra ele. Acrescentou que não vai ficar batendo boca com Waldomiro a cada acusação porque colabora com as investigações e está à disposição do Ministério Público e das autoridades policiais e judiciárias. Em rápido comunicado transmitido ontem, ele tentou encerrar a discussão: "Sou vítima nesse processo todo e já disse o que tinha a dizer." O jornalista Mino Pedrosa, ex-assessor de Cachoeira e também acusado por Waldomiro de tê-lo chantageado num encontro entre os dois, em janeiro de 2003, disse que jamais tratou desse assunto com o ex-assessor do Planalto. O encontro, do qual Mino disse ter participado apenas como observador, foi com outro jornalista, Mário Simas, editor da revista Isto É.Waldomiro Diniz, que caiu em várias contradições, diz na CPI ter pecao para ajudar um amigo e admite o pedido de propina. O Dia – Alexandre Arruda e Raphael GomideO ex-subchefe da Casa Civil Waldomiro Diniz admitiu ontem, em depoimento à CPI da Loterj, que cometeu um “pecado para ajudar um amigo” – já morto –, ao pedir 1% de comissão do contrato da Loterj ao bicheiro Carlos Ramos, o Carlinhos Cachoeira, em conversa gravada. Durante cinco horas, em muitos momentos com a voz embargada, acusou Cachoeira de chantageá-lo, negou tê-lo favorecido em licitações, mas admitiu ter intermediado doação dele de R$ 100 mil para a campanha do candidato Geraldo Magela (PT) para Brasília. O ex-assessor do ministro José Dirceu protegeu e elogiou seu ex-chefe e disse que foi apenas do ex-governador Anthony Garotinho a responsabilidade por nomeá-lo para a presidência da Loterj. Waldomiro afirmou que o bicheiro o odeia porque ele não cedeu a suas pressões para entrar no negócio de caça níqueies no Rio e disse já saber da fita desde janeiro do ano passado. A CPI fará uma acareação entre os dois. Segundo ele, o 1% – do contrato de loterias on-line entre Loterj e o consórcio Combralog, de Cachoeira, no valor de R$ 168 milhões – destinava-se a pagar o salário de seu ex-assessor na Loterj Armando Dile, morto, que trabalhava para o bicheiro como consultor e não estaria recebendo. “Cometi um pecado ao tentar ajudar um amigo e me tornei refém de uma engenharia criminosa, por uma pessoa inescrupulosa. O homem que aqui comparece é uma pessoa envergonhada, com a alma quebrada”, disse. “Só com uma sessão espírita”, brincou Paulo Melo, sobre Dile.
A versão de Waldomiro não convenceu. “Nunca tive amigo nem muito próximo com essa disposição toda de arriscar o nome e a reputação por mim”, ironizou Geraldo Moreira (PSB).
Acompanhado de dois advogados, Waldomiro afirmou que nunca assistiu à fita de vídeo exibida em todas as redes de televisão. Tampouco viu o diálogo ontem: com dois meses de existência, a CPI ainda não tem o vídeo que causou a sua existência.
Doação para campanha paga em várias prestações.
O ex-assessor da Casa Civil disse ter entregue em cinco ou seis parcelas R$ 100 mil ao tesoureiro da campanha de Magela, Paulinho – em duas ou três vezes. Paulinho teria vindo ao Rio buscar o dinheiro. A assessoria de Magela e Paulinho contestam a história. Waldomiro negou ter pedido recursos para as campanhas de Rosinha Garotinho (PMDB) e Benedta da Silva (PT). No diálogo gravado, porém, ele claramente pede “ajuda para o mês que vem” e sugere o valor de R$ 500 mil. Após rápido leilão, o montante combinado fica em R$ 300 mil, R$ 150 mil para cada candidata. “Cento e cinqüenta dá?”, pergunta Cachoeira. “Dá”, responde ele.
O ex-assessor do Planalto levou à Alerj um habeas corpus preventivo, para evitar ser preso.Ele aparentava calma a maior parte do tempo, tinha resposta para tudo e foi sempre cordial com os deputados, chegando a elogiar alguns. Questionado sobre por que, tão próximo do Poder, não gravou as supostas chantagens de Cachoeira e de seu assessor, o jornalista Mino Pedrosa, alternou os papéis de vítima e herói. Saiu-se com uma frase inusitada. “Dispunha de elementos para abortar e desmoralizar essa chantagem, mas não o fiz. Talvez Waldomiro estivesse hoje aqui como herói nacional”, afirmou.
Os principais pontos do depoimento de Waldomiro à CPI da LOTERJ GAROTINHO – “Minha indicação para a Loterj não teve a mediação de ninguém. Sempre mantive com Anthony Garotinho a melhor relação e respeito. Não tenho conhecimento das declarações dele negando a minha indicação. O governador me convidou e eu aceitei. O ministro José Dirceu não tinha nenhum interesse na minha nomeação”.
JOSÉ DIRCEU – “O ministro é um dos homens públicos mais dignos.”
LOTERJ – “Presidente da Loterj? Nem pensar” (recusando o convite, inicialmente)
SIGILO FISCAL – “A Receita Federal está fazendo um trabalho intenso sobre a minha vida fiscal. Não se assustem, é a declaração de um funcionário público. Tomar empréstimo de R$ 7 mil na Caixa Econômica Federal é coisa absolutamente normal.” (O DIA revelou o caso e o empréstimo)
CEF/GTECH – “Estive na GTech em janeiro do ano passado, depois dessa ligação (do jornalista Mino Pedrosa, em nome de Cachoeira) que dizia da fita contra mim. Ele queria que eu participasse da reunião. Só queria que eu fosse lá conhecê-los e dissesse que conhecia Cachoeira e que ele tinha negócios no Rio. Fiquei com medo do prejuízo que isso pudesse causar a mim”.
AJUDA DE CUSTO – “Recebia salário líquido de R$ 4 mil e morava em um apart-hotel no Leblon. Tinha ajuda de custo da Funpat de R$ 8 mil, que não declarei no Imposto de Renda. Não conhecia a empresa e seus meandros. Quando cheguei, fui me informar da ajuda de custo. A Funpat já estava contratada pela Loterj”.
PROTEÇÃO – “Nenhum ministro jamais me pediu nada que não fosse lícito. Uma pessoa na minha situação não tem por que proteger ninguém, vivo ou morto. A responsabilidade é única e exclusivamente minha”.
ENVERGONHADO – “Dispunha de elementos para abortar e desmoralizar essa chantagem. Tinha todos os instrumentos, mas não o fiz. Talvez hoje Waldomiro Diniz estivesse aqui como herói nacional, mas não fiz”. “Aos que sempre depositaram em mim total confiança nestes 23 anos, peço desculpas pelo constrangimento que causei”.
DOAÇÃO – “Paulinho (tesoureiro da campanha de Geraldo Magela)veio buscar no Rio, porque ele era o tesoureiro da campanha (do Magela)”. “Nunca tive função de caixa de campanha”. “Eu sou escravo da lei”.
Acareação deve esclarecer todas as divergências dos envolvidos no caso.A acareação entre o bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira (foto à esquerda), e o ex-presidente da Loterj Waldomiro Diniz tem tudo para ser cheia de polêmicas. A primeira história a ser esclarecida é o encontro, estopim do escândalo, gravado pelo bicheiro, no qual eles aparecem negociando propina e doação de campanha para as então candidatas ao Governo do Rio Benedita da Silva (PT) e Rosinha Garotinho (à época no PSB, hoje no PMDB). Um diz que foi chantageado pelo outro.
Segundo Cachoeira, Waldomiro, através do assessor Armando Dile, fez vários pedidos de dinheiro. “Então, eu disse: ‘Quero ouvir isso do presidente’”, sustentou o bicheiro. Ontem, a história foi diferente. “Eu fui chantageado”, reagiu Waldomiro. Segundo ele, Cachoeira é quem teria reiterado, em diversas ocasiões, a Dile, que desejava contribuir para campanhas no Rio e que fazia pressão para conseguir explorar o mercado de máquinas caça-níqueis no Rio. “Eu nunca fiz doações de campanha no Rio”, disse o bicheiro.
Em seu depoimento na semana passada, na Assembléia Legislativa de Goiás, Cachoeira foi enfático ao dizer que, em 2002, Waldomiro o obrigou a contratar Dile, que trabalhava para o presidente da Loterj, como seu assessor. Ele passou a receber pela empresa do bicheiro, o Consórcio Combralog, ganhando em torno de R$ 17 mil.
Já Waldomiro garante que o próprio Cachoeira chamou Dile para trabalhar. “Cachoeira disse que gostaria de ter o Dile o assessorando”, afirmou. Segundo ele, “Carlos Ramos fez uma proposta três vezes maior do que ele (Dile) ganhava” para assessorar seus negócios no Rio Grande do Sul.
Ex-presidente da Loterj admite que PL indicou os funcionários- fantasmas.O ex-presidente da Loterj, Waldomiro Diniz, admitiu ontem que o PL foi o responsável pela indicação do funcionário fantasma Amaro Sérgio Santos Rio na autarquia. Oficialmente Amaro era Chefe de Gabinete de Waldomiro mas admitiu, em depoimento à CPI, que ia trabalhar “esporadicamente” apesar de receber R$ 3,5 mil pela função. Ontem, o ex-presidente do órgão disse que foi “orientado” pelo partido, que queria Amaro em outro posto. “Houve uma orientação de que este funcionário seria requisitado pelo Gabinete Civil”, disse.
Amaro, porém, deu versão diferente. Ele afirmou à comissão que trabalhava como assessor do deputado federal Bispo Rodrigues. “Queiramos ou não, as coisas batem na porta do deputado federal Bispo Rodrigues. É uma figura central em uma corrente política de muita força”, disse o deputado Paulo Ramos.
Waldomiro ainda confirmou os nomes dos diretores José Carlos Simonin e Rivângela Barros pelo partido. Rivângela, junto com Waldomiro, são suspeitos de participar de um esquema de desvio de verba publicitária da Loterj com a ajuda do pastor João Domingos, à época subsecretário do gabinete Civil, onde Waldomiro diz que Amaro trabalhava.
O ex-presidente disse desconhecer quem indicava os funcionários, mas admitiu saber da função de Domingos. “Ele tinha dois amigos na Loterj e eventualmente ia lá”.
Paulo Ramos foi quem mais insistiu na questão das nomeações fantasmas e do desvio de verba, negado por Waldomiro. “A corda sempre arrebenta do lado mais fraco.Todos estão se preservando, há uma simulação de providências, há um esforço político para proteger o deputado (Rodrigues), há até dificuldade para convocá-lo”, afirmou Ramos, que já tentou convocar o deputado federal, mas foi voto vencido na comissão.
O tucano Luiz Paulo Corrêa da Rocha também questionou os escândalos. “Como é que o senhor analisa essas indicações políticas que não trabalhavam?”. Tenso, Waldomiro negou que fosse centralizador, como disse Rivângela à CPI, e que os diretores não trabalhavam. “Não é verdade que o diretor de operações não trabalhava e a senhora Rivângela cumpria as funções dela. Isso pode ser constatado pelos documentos que eles assinavam. Não existia ali um exército de brancaleones”, reagiu.
Waldomiro Diniz ganhava R$ 8 mil de ajuda de custa e não declarava a rendaWaldomiro Diniz recebia quase R$ 13 mil de salário para presidir a Loterj, mas não declarava à Receita Federal a maior parte do salário. Além do salário líquido de R$ 4 mil, ele recebia R$ 8 mil da Fundação Parque Alta Tecnologia (Funpat), a título de “ajuda de custo”, que não declarava. Em resposta a uma das poucas perguntas para as quais não parecia pronto.
“Recebia salário líquido de R$ 4 mil e morava em um apart-hotel no Leblon. Tinha ajuda de custo da Funpat de R$ 8 mil, que não declarei no Imposto de Renda. Não conhecia a empresa e seus meandros. A Funpat já estava na Loterj”.
Paulo Ramos (PDT), que fez a pergunta, atacou a manobra. “Essa complementação é ilegal. Não observa nenhum padrão de moralidade ou legalidade”, disse. “Isso é um artifício ilegal, complementar o salário com uma prestadora de serviço” completou Gilberto Palmares.
O presidente da Funpat, Camilo Garrido, negou qualquer pagamento a Waldomiro. O auditor fiscal José Luiz Quintães foi outro que disse, também na CPI, que recebia ajuda de custo de R$ 4 mil mensais da mesma fundação. “Desconheço esses dois casos citados”, disse o presidente da Funpat, Camilo Garrido. (Frederico Fraga)
Cuidados especiais com segurança.O depoimento do ex-presidente da Loterj Waldomiro Diniz, na CPI da Assembléia Legislativa do Rio, foi cercado de cuidados, especialmente com a segurança. Waldomiro pediu proteção à Polícia Federal para ir à Alerj e, para evitar o assédio da imprensa, chegou uma hora mais cedo ao local.
“Não tinha ninguém aqui. A porta ainda estava fechada”, disse um funcionário da casa. Na hora do depoimento, mais uma tentativa de despistar as câmeras: o advogado de Waldomiro, Luiz Guilherme Vieira, entrou pela porta destinada aos depoentes, para onde todas as câmeras estavam apontadas, e Waldomiro entrou discretamente pela porta principal. Na saída, pelo elevador privativo, buscou uma porta lateral no subsolo da Casa.
Os deputados se preocuparam em fazer muitas perguntas ao ex-presidente da Loterj, o que fez com que o depoimento se arrastasse por cinco horas. Waldomiro, apesar do bombardeio de perguntas e de apresentar sinais de forte emoção com a voz embargada, estava à vontade entre os parlamentares. Só o líder do Governo, Noel de Carvalho (PMDB), fez poucas perguntas. Ele gastou seu tempo, basicamente, tentando desvincular Waldomiro do secretário de Segurança Anthony Garotinho (PMDB), associando-o ao PT.
A reação.Durante a CPI, os deputados se revezaram em críticas a Waldomiro, principalmente sobre a “ajuda de custo” de R$ 8 mil, recebida pelo ex-presidente da Loterj. Até o líder do PT, Gilberto Palmares, condenou a prática: “Esse é um artifício ilegal: usar uma prestadora de serviço da Loterj para complementar salário”. Relator da CPI e líder do PMDB, Paulo Melo acredita que Waldomiro “quis levar toda a culpa para alguém que já morreu”.
Outro relator, o tucano Luiz Paulo Corrêa da Rocha, diz que “A rentabilidade da loterj em sua gestão foi baixíssima, os gastos de publicidade aumentaram enormemente e Nunca houve rentabilidade tão baixa quanto em 2002. Pode-se dizer que houve gestão temerária”.
Na posição oposta, estava o líder do governo na Casa, Noel de Carvalho (PMDB). Segundo ele, Waldomiro “foi uma das pessoas mais próximas nessa Casa”.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez na manhã de ontem uma das mais fortes defesas do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, desde da divulgação do escândalo Waldomiro. Na mesma hora em que Diniz prestava depoimento na CPI da Alerj, Lula afirmava, segundo participantes de um encontro com empresários, que Dirceu “está mais ministro do que nunca” e que é “capitão do time”.
Para marcar os dois meses da divulgação do caso Waldomiro, o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), recitou da tribuna uma versão própria da música Parabéns para você, com a seguinte letra: ‘Parabéns para Waldomiro/ Nesta data não-feliz/ Muitas infelicidades…
O candidato petista derrotado ao governo do Distrito Federal, Geraldo Magela e seu tesoureiro de campanha, Paulo Waisros Pereira, negou ter recebido dinheiro de Waldomiro. “Essa afirmação é de um profundo mau-caratismo e de uma desonestidade a toda prova”.
O jornalista Mino Pedrosa, ex-assessor de Cachoeira e também acusado por Waldomiro de tê-lo chantageado num encontro entre os dois, em janeiro de 2003, disse que jamais tratou desse assunto com o ex-assessor do Planalto. O encontro, do qual Mino disse ter participado apenas como observador, foi com outro jornalista, Mário Simas, editor da revista Isto É.
Em depoimento à CPI da Assembléia do Rio, ex-assessor do Planalto isenta o ministro José Dirceu de responsabilidade no caso.
Waldomiro afirma ter sido chantageado.
FABIANA CIMIERI – DA SUCURSAL DO RIO – VINICIUS QUEIROZ – DA FOLHA ONLINE, NO RIO
Exatos dois meses depois da divulgação da gravação que o implica suposta corrupção e crime eleitoral, o ex-subchefe de Assuntos Parlamentares da Casa Civil Waldomiro Diniz apresentou ontem sua defesa publicamente.
Em depoimento de cinco horas à Comissão Parlamentar de Inquérito da Assembléia do Rio que investiga a Loteria do Estado do Rio de Janeiro, Waldomiro disse ter sido chantageado pelo empresário de jogos Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, por meio do jornalista Mino Pedrosa.
O ex-assessor disse, sem precisar a data, ter sido procurado recentemente por Cachoeira para que interferisse na discussão sobre regulamentação dos bingos que transitava na Casa Civil.
"Essa fita foi gravada com o intuito de me causar constrangimento. Guardada durante todo esse tempo, só poderia servir para aquele momento adequado, quando eu me recusasse a cumprir algum de seus apelos. Quero dizer ao Brasil que eu fui, estou sendo, chantageado", disse, com olhos marejados.
Waldomiro entregou cópias de ofícios que teriam sido enviados à Procuradoria Geral da República, ao Ministério da Justiça e à Controladoria Geral da União relatando a suposta chantagem. Atribuiu à "timidez" o fato de não ter tomado medida dura. Disse que, se tivesse sido mais enfático, poderia ser considerado "herói nacional".
Waldomiro pediu desculpas "àqueles que depositaram total confiança em mim e que hoje são cobrados como se fossem beneficiários dos meus atos". Ele isentou o ministro José Dirceu, de quem era subordinado na Casa Civil, de ter feito indicação a seu favor. Também isentou os ex-governadores do Rio Anthony Garotinho (PMDB), que o nomeou para o cargo, e Benedita da Silva (PT), que o manteve na posição.
Foi a primeira vez que Waldomiro expôs sua versão do caso. A CPI apura supostas fraudes na sua gestão à frente da Loterj, de fevereiro de 2001 a dezembro de 2002. A comissão decidiu promover uma acareação entre Waldomiro e Cachoeira, sem data definida. Veja trechos do depoimento.
PECADO E VERGONHA "Cometi um pecado. Cometi um pecado ao tentar ajudar um amigo, Armando Dile. Ao tentar ajudá-lo, tornei-me refém de uma engenharia criminosa, uma gravação premeditada, feita por uma pessoa inescrupulosa [Cachoeira], que a fez para aferir benefícios financeiros a seus negócios. O homem que aqui comparece é uma pessoa envergonhada, de alma quebrada. Não tenho medo de ser investigado. Preciso disso para que eu possa voltar a andar de cabeça erguida e olhar aos que depositaram em mim total confiança e que hoje são cobrados como se beneficiários fossem de meus atos. Quero dizer que a essas pessoas peço desculpas pelo constrangimento que as causei. Estou pronto [para ser investigado]. Não usarei subterfúgios. O medo não protege ninguém. Estou à disposição para falar a verdade."
Ao ser questionado pelo deputado Paulo Melo (PMDB) sobre sua amizade com Dile, Waldomiro disse: "Era uma relação cordial, profissional, mas não freqüentava a casa dele nem nos encontrávamos nos fins de semanas".
CHANTAGEM "No início de 2003, recebo em meu gabinete uma ligação do Mino Pedrosa. Ele me disse: "Waldomiro, queria me certificar sobre uma fita em que você está pedindo dinheiro para o bicheiro de Goiás, Carlos Cachoeira, para campanha". Eu disse: "Olha, eu desconheço esse assunto, vamos apurar"." Waldomiro disse ter ligado para Cachoeira para saber sobre a fita. Teriam se encontrado em Brasília.
Segundo o ex-assessor, por não ter aceito "propostas escusas" de Cachoeira, Pedrosa publicou reportagem contra ele, em junho de 2003, na revista "Isto É", que aponta o seu suposto envolvimento com mafiosos internacionais ligados ao bingo. "Cachoeira queria que eu, no governo federal, facilitasse negócios para ele. Eu disse não, não e não." Waldomiro disse ter sido procurado de novo, por Cachoeira, que propôs interferência na discussão sobre regulamentação dos bingos que transitava na Casa Civil. "Eu não fui."
ARMANDO DILE "Carlos Ramos me disse que gostaria de ter Armando o assessorando. Dile trabalhava comigo com contrato firmado via agência de publicidade [Giovanni FCB, no Rio]. Descontados os impostos e a comissão da agência, Armando deveria receber algo em torno de R$ 5.000. Carlos Ramos fez uma proposta para ele que era, no mínimo, o triplo disso."
"Ele foi trabalhar a convite de Carlos Ramos e não por imposição do presidente da Loterj [na época, Waldomiro]. Eu estava ali [na gravação divulgada pela revista "Época’] para ajudar um amigo em dificuldade. Carlos Cachoeira contratou Armando Dile e não mantinha a regularidade de seus pagamentos." Em depoimento ao Ministério Público Federal, Cachoeira disse que contratou Dile pois Waldomiro o "coagiu". Dile morreu em dezembro de 2002.
A COMISSÃO DE 1% "A partir daquele momento, Carlos Ramos ofereceu a ele [Dile] não mais um salário, e sim uma participação no projeto dele, 1%. Mas com uma condição: que eu acertasse, que eu pedisse. O roteiro da conversa foi premeditado."
A PRIMEIRA FITA "Armando Dile já era assessor de Cachoeira quando me ligou e pediu uma reunião, às 19h. Disse para fazermos na Loterj, mas Dile disse que ele [Cachoeira] queria me mostrar as instalações [do consórcio Combralog, que acabara de vencer licitação para loteria online] num escritório em Botafogo [zona sul do Rio]." Segundo Waldomiro, Dile disse que Cachoeira gostaria de contribuir com as campanhas eleitorais.
A FITA NO AEROPORTO "Não me lembro dos detalhes dessa conversa." Para Waldomiro, o áudio da conversa só seria divulgado se beneficiasse o autor das gravações. Disse que as conversas que teve com Cachoeira na época foram para que ele cumprisse o contrato entre Combralog e Loterj. A fita mostra Waldomiro recebendo uma sacola, que era de uma livraria e, dentro dela, havia jornais, disse o ex-assessor.
INTERESSES DE CACHOEIRA "Por que esse senhor [Cachoeira] nutre por mim tanto ódio, usou expediente criminoso de gravar uma fita há dois anos e divulgá-la agora? Foi porque eu não cedi naquilo a que ele não tinha direito. Ele se sentiu prejudicado e, por isso, usou outros subterfúgios. Virei refém dessa situação."
EDITAL DA LOTERJ Negou ter modificado o edital de loterias de múltiplas chances, vencido pela empresa Hebara, conforme concluiu sindicância da Loterj. Na fita, ele diz para Cachoeira redigir com Dile as alterações que gostaria de fazer. "O pedido de alteração do edital foi feito em março, muito antes da conversa com Cachoeira."
GTECH "Estive com profissionais da GTech depois da ligação desse senhor [Cachoeira], que me chantageava e dizia que eu só precisava encontrar os empresários, dizer que nós tínhamos um contrato no Rio e que estava tudo bem."
O primeiro encontro de Waldomiro com funcionários da GTech aconteceu num hotel em Brasília, em 6 de janeiro de 2003, quando já era subsecretário de Assuntos Parlamentares, com a participação de Cachoeira.
SONEGAÇÃO FISCAL Os rendimentos de Waldomiro na Loterj chegavam a R$ 12.500, apesar de seu salário ser de R$ 4.500. O restante era complementado pela Fundação Parque Alta Tecnologia de Petrópolis (RJ), como ajuda de custo. Waldomiro admitiu ter sonegado essa complementação à Receita Federal.
Magela e jornalista negam acusações de ex-assessor. DA SUCURSAL DE BRASÍLIA – DA AGÊNCIA FOLHA
O candidato petista derrotado ao governo do Distrito Federal nas eleições de 2002, Geraldo Magela, e o seu tesoureiro de campanha, Paulo Waisros Pereira, negaram ontem ter recebido dinheiro de Waldomiro Diniz.
"Essa afirmação é de um profundo mau-caratismo e de uma desonestidade a toda prova. Em nenhum momento entrou na minha campanha um centavo que fosse do Waldomiro ou de algum representado dele", disse Magela, que deu entrevista após o depoimento do ex-assessor na Assembléia do Rio.
Pereira, que teria recebido o dinheiro, estava ao seu lado na entrevista e também negou a história, confirmando, porém, ter se encontrado com Waldomiro duas vezes no Rio e outras em Brasília.
"Eu, em nenhum momento, recebi recursos das mãos de Waldomiro." Pereira disse ainda que os encontros foram feitos a pedido do ex-assessor, que queria ajudar na campanha. Segundo o ex-tesoureiro, a ajuda sugerida, mas que não foi dada, foi no sentido de Waldomiro conversar com empresários de Brasília para que recebessem integrantes do PT e colaborassem com a campanha.
Pereira trabalhou de julho de 2003 até há dois meses no gabinete de Aloizio Mercadante (PT-SP), líder do governo no Senado. Ele disse ter deixado de trabalhar com o senador dias após a divulgação do caso Waldomiro. Assessores do senador afirmaram que o ex-tesoureiro alegou motivos pessoais.
Magela disse ainda ter sabido só ontem de encontros entre Pereira e Waldomiro, a quem disse que vai processar. O petista também divulgou nota em que classifica as declarações do ex-assessor de "irresponsáveis e infundadas" e insinua que Waldomiro poderia ter embolsado o dinheiro pedido ao empresário de jogos Carlos Ramos, o Carlinhos Cachoeira.
O jornalista Mino Pedrosa, que hoje presta assessoria a Cachoeira, também negou ter chantageado Waldomiro para que ele facilitasse o seu acesso ao governo federal: "Isso que ele diz no depoimento é mentira. Ele só foi ao meu escritório para tratar de fita uma vez, a pedido dele próprio. Mesmo assim, não quis ver a fita, levantou chorando e foi embora".
Em depoimento prestado em Goiânia à CPI da Assembléia do Rio, no último dia 5, Cachoeira, afirmou que contratou Armando Dile a pedido de Waldomiro e que pagava a ele um salário de R$ 15 mil a R$ 18 mil por mês.
Tucano recita "Parabéns a Você". DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Para marcar os dois meses da divulgação do caso Waldomiro Diniz, o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), chegou a recitar da tribuna uma versão própria da música "Parabéns a você", com a seguinte letra: "Parabéns a Waldomiro/ Nesta data não-feliz/ Muitas infelicidades/ Para esta nação vilipendiada/ Onde desempregados/ Ateiam fogo às vestes/ E onde corruptos/ Não vão para a cadeia".
O tucano se referia a José Antonio Andrade de Souza, desempregado que ateou fogo ao próprio corpo ontem em frente ao Palácio do Planalto. O líder afirmou que, por causa do drama desse homem, preferiu não cantar sua versão de "Parabéns a você" da tribuna, mas apenas recitar.
Para Virgílio, o dia 13 de abril marcou "o aniversário de dois meses da impunidade" do ex-assessor do Palácio do Planalto e do que existe "em torno dele".
"O governo que veio moralizar esta República convive muito à vontade com a impunidade e seus exemplos nefandos. Waldomiro Diniz passeava sua impunidade pela CPI da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, com um habeas corpus no bolso, e portava-se como se portam os meliantes, com o único objetivo de ficar fora da cadeia", disse Virgílio.
O depoimento de Waldomiro Diniz ontem no Rio também foi tratado pelo líder do PFL, José Agripino (RN). Ele considerou "curioso" o fato de o ex-assessor ter dito que comunicara ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que vinha sendo chantageado por pessoas ligadas ao empresário de jogos Carlos Ramos, o Carlinhos Cachoeira. O objeto da chantagem seria a fita em que o ex-assessor do Planalto aparece pedindo propina a Cachoeira.
"O curioso é que Waldomiro sustentou que comunicara essa chantagem a ministros, entre eles o da Justiça. No momento em que o assunto chegou ao ministro, o governo deveria ter se preocupado. Mas o que vimos? Vimos Waldomiro pedir dinheiro ao Carlos Cachoeira", disse Agripino.