Home Jogo do Bicho Combate ao bicho no Rio de Janeiro não é prioridade
< Voltar

Combate ao bicho no Rio de Janeiro não é prioridade

12/11/2001

Compartilhe

Ao ar livre, sob a sombra de árvores urbanas e em cadeiras de design escolar, apontadores do jogo do bicho atuam nas calçadas do Rio com preocupação cada vez menor em disfarçar a atividade ilegal. Pudera! Para entender tanta tranqüilidade, basta ouvir o que diz o secretário de Segurança Pública, coronel Josias Quintal: ”O combate à contravenção não é nossa prioridade”. Quintal afirma ter mais com que se preocupar – narcotráfico e assaltos a mão armada, por exemplo – e se declara ”indiferente” ao recente pedido do deputado Hélio Luz (PT) de abertura de CPI para apurar se há conivência do governo com a máfia que controla o jogo clandestino no estado.
Enquanto mira – de uma janela do Palácio Tiradentes, no Centro, sede do Poder Legislativo – um ponto de apostas a 20 metros, na Travessa do Paço, o parlamentar e delegado de Polícia Civil Hélio Luz explica o porquê de ter pedido uma CPI da Contravenção no estado, proposta que será apreciada esta semana na Alerj: ”Sempre foram suspeitas as relações entre o poder público e a contravenção. No governo Garotinho, os indícios de conivência são fortes”. Se sempre foi assim, por que, Luz, o pedido de CPI só agora? ”Pela suspeita que recaiu sobre o governador Olívio Dutra, no Rio Grande do Sul, de dar proteção à atividade. A partir daí, o poder público está sob suspeita em todo o país e tem de ser investigado e provar inocência, se for o caso”, responde o parlamentar.
Depois do recente escândalo no governo petista do Sul, o presidente do partido, Luiz Inácio Lula da Silva, defendeu plano para legalização do jogo do bicho, com proposta de entregar à Caixa Econômica Federal à responsabilidade de explorar a rede de apostas. Pelo menos no Rio, as intenções de Lula não produzem eco algum entre militantes do PT. Para Luz, por exemplo, o jogo do bicho é o ”único crime organizado no país”, referindo-se ao poder dos banqueiros do Rio, 14 dos quais foram condenados em 1993 por formação de quadrilha, pela juíza Denise Frossard, e cumpriram, cada um deles, penas de seis anos de prisão.
O bicho pode hoje não mais demonstrar o vigor do passado – chegou a contratar 60 mil empregados na década de 80 para mais tarde perder espaço para concorrentes oficiais como bingos, loterias e raspadinhas – mas resiste firme. De acordo com fontes ligadas à contravenção, há pelo menos 12 bancas do jogo tradicional, com 9 mil pontos somente na capital. Estima-se que esse mercado clandestino ainda movimente por ano R$ 80 milhões e empregue, direta e indiretamente, mais de 20 mil pessoas. Mas o que avança a olhos vistos é uma face modernizada da contravenção: a máfia dos caça-níqueis, que explora no Rio 25 mil máquinas eletrônicas e que envolve disputa sangrenta por pontos no estado.
O governador Anthony Garotinho prefere, segundo assessores, calar, pelo menos por enquanto, sobre o pedido de CPI. A comissão depende, para existir, de aprovação da Assembléia Legislativa. O governador detém a maioria dos votos parlamentares.
Nos Juizados Especiais Criminais, caiu este ano em quase a metade o número de processos por contravenção, em relação ao ano passado, de 6.255 para 3.253. Sinal dos tempos? Em ano pré-eleitoral, há quem suspeite até de que tenha aumentado o número de pontos no Rio, na proporção da cada vez menor atuação repressiva da Polícia. Caso do ex-procurador-geral de Justiça Antonio Carlos Biscaia – outro petista que não concorda com o presidente nacional do partido. Ele deu entrada no Ministério Público em pedido de investigação, a que o Jornal do Brasil teve acesso, da máfia que explora o jogo do bicho e caça-níqueis no estado.
Biscaia contratou até um detetive particular, que montou dossiê, anexado à petição, com fotografias de 24 pontos de bicho a céu aberto, especialmente na Zona Sul, Centro e Tijuca. O ex-procurador se refere no documento a uma ”correlação entre ausência de repressão e acordo envolvendo o aparelho policial e interesses políticos”.
Quando Biscaia entregou sua petição ao MP, o procurador de Justiça Vicente da Costa Júnior já conduzia investigação – ainda em andamento – sobre o poder da contravenção no estado. A apuração se desenvolve sob sigilo, ”para que não ocorra qualquer prejuízo às atividades investigativas”. O Ministério Público, explica Costa Junior, ”não cadencia os passos das suas investigações segundo impulsos de natureza política”.
Enquanto o bicho prolifera livremente pelas ruas do Rio, Biscaia, quando de suas andanças pela cidade, conta que anda em zigue-zague. ”Mudo de calçada toda vez que esbarro em pontos de apostas. A coisa é tão ostensiva que me causa constrangimento”, revela. Tanto vexame se explica pelo passado de combatente da contravenção, desde 1985, quando pela primeira vez foi procurador-geral. Ele assinou a denúncia que resultou na condenação de 14 banqueiros, alguns hoje mortos, outros já em liberdade. Um ano depois, comandou investigação que tornou ao menos translúcida a relação entre o poder público e a contravenção no estado, após apreensão de lista com nomes de autoridades públicas corrompidas por bicheiros.Sete anos mais tarde, Biscaia conclui: ”Está mais do que comprovado que a contravenção não é um jogo inocente, mas crime organizado. A cidade do Rio está dividida em áreas, igual a Chicago dos anos 20, nos tempos de Al Capone”.
O Poder e a Contravenção
“O bicho será mais uma fonte de renda para o estado. Se o governo já tem raspadinha, loteria, por que não o jogo do bicho?” Garotinho, em 1998, depois de eleito governador, sobre plano para legalizar o jogo.
“A sociedade não vai ser hipócrita e, muito menos, o governo será. A legalização só não interessa aos bicheiros porque não pagam impostos. E também não interessa às pessoas ligadas ao poder que se beneficiam por tomar esse dinheiro”. Garotinho, em 1998.
“Eu sei e todo mundo sabe quem são os patronos das escolas de samba. Vou sempre cumprimenta-los aqui”. Prefeito César Maia, em 1993, sobre os abraços que deu em bicheiros no carnaval.
“Sou a favor (da legalização do bicho), afinal, é tradição carioca. Tem até freira e padre que apostam nesse tipo de loteria, além disso, tem o lado social: são mais de 50 mil apontadores que dependem do jogo para viver.” Governador Marcello Alencar, em 1997.
“Quando a Justiça age, todos nós nos sentimos confortados. Mas há um grande jogo do bicho no Brasil, que é o tráfico de influências, a injustiça social, e os dois devem ser combatidos”. Leonel Brizola, em 1993, sobre a prisão da cúpula do bicho em seu governo.
“Fiz isso para causar uma discussão, rasgar uma hipocrisia(…) Queriam o quê? Que eu convidasse os presidentes do Rotary, Lyons, OAB e do Country Club?”. Moreira Franco, em 1991, comentando visita ao Palácio Guanabara da cúpula do jogo do bicho, durante seu governo.

Atuação do jogo nem sempre foi livre
”Da corrupção do poder público depende a própria existência da contravenção”, explica a juíza aposentada Denise Frossard, em suas preleções sobre o crime organizado, mundo afora. Na quinta-feira, a magistrada preparava a palestra que fará esta semana, em Lisboa, sobre organizações criminosas no Brasil. Para ela, que condenou Castor de Andrade e mais 13 bicheiros por formação de quadrilha, em 1993, o jogo do bicho é a capa aparentemente inofensiva com a qual o crime organizado se disfarça.
Em 1994, Frossard foi procurada por um empregado arrependido da cúpula do jogo do bicho. A testemunha, que atualmente vive refugiada em outro país, revelou detalhes da estrutura criminosa e forneceu o endereço do escritório central da contravenção no estado: a fortaleza do Castor, na Rua Fonseca, em Bangu.
A juíza, que hoje dá aulas na Fundação Getúlio Vargas de Direito Penal Econômico (lavagem de dinheiro), repassou as informações da testemunha ao procurador-geral de Justiça, Antonio Carlos Biscaia, que conduzia investigação sobre a contravenção, já como titular do MP, em 1985.
Na época, o procurador mobilizou policiais do Serviço Reservado da Polícia Militar para uma operação na fortaleza. No local foi apreendida uma lista com mais de 100 nomes de políticos, autoridades públicas, juízes, promotores, policiais, artistas e desportistas Todos foram investigados por suspeita de terem recebido propina do bicho. Nem todos tiveram condenação.
A notícia de que constavam na lista os nomes de Herbert de Souza, o Betinho, e de Nilo Batista, então vice-governador do Rio, chocou a sociedade. Ambos confirmaram o recebimento de dinheiro, mas alegaram que a verba se destinara a causas beneficentes.
Passados sete anos, desde o estouro da fortaleza de Castor, a atividade do jogo de bicho ainda é livre nas ruas do Rio. Frossard estima que haja 45 mil pessoas empregadas na contravenção no estado. ”Mais que ver pontos de apostas nas ruas, tenho constrangimento quando vejo que a polícia não faz nada”, lamenta a magistrada, ciente do efeito limitado de sua atuação contra o jogo do bicho.
Origem inocente
A ligação dos cariocas com os animais às vezes beira a devoção. Prova disso é que a cidade tem entre suas mais enraizadas tradições o jogo do bicho. Esta loteria zoológica, reza a lenda, foi criada em 1888 por João Batista Viana Drummond, o Barão de Drummond, para atrair visitantes ao primeiro jardim zoológico da cidade, criado por ele em Vila Isabel.
Dizem os estudiosos que, originalmente, o jogo tinha 30 bichos, e não os 25 de hoje. Foram cortados rato, girafa, tucano, javali e a zebra, animal que acabou ligado à Loteria Esportiva.
De brincadeira inocente o jogo do bicho se transformou em contravenção. A disputa pelos pontos de aposta passou a ser feita no melhor estilo da Chicago da Lei Seca e dos gangsters. As páginas policiais eram freqüentadas por grandes banqueiros como Angelo Maria Longa, o Tio Patinhas; Raul Corrêa de Mello, o Raul Capitão; Castor de Andrade, Aniz Abrahão David e Carlos Teixeira Martins, o Carlinhos Maracanã – para citar apenas alguns.
Hoje os sorteios da loteria zoológica são feitos por computador, mas os resultados continuam sendo colados em postes e paredes da cidade. Por tudo isso, vale o escrito.
Jornal do Brasil – RJ/Paula Máiran. – Colaboraram Victor Abramo e Brunno Braga, da Agência JB