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Como me tornei alguém que, sim, aposta na loteria

23/07/2018

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Claudia Tajes*

Não faz muito, eu passava pelas filas das lotéricas em dia de Mega-Sena e pensava: coitados. Não vão ganhar nunca. Sabe-se lá para onde vai o suado dinheirinho deles. Se o pessoal desvia merenda escolar e remédio, difícil acreditar que não roubem de uma bolada anônima entrando por todos os cantos do país. Calma, essa acusação não existe, não tem CPI da Mega-Sena, as loterias nunca estiveram sob suspeita. Era só o meu pensamento de cidadã paranoica. Gato escaldado tem medo até de linguiça – ou alguma variação disso.

Não sei quando foi que mudei de ideia, mas agora, sempre que calha, jogo na Mega-Sena. Meu suado dinheirinho indo sabe-se lá para onde. Certo que o que me levou foi o mesmo que move o brasileiro comum: a certeza de que, apenas trabalhando, vai ser difícil dar um jeito nas finanças. Ainda não entro nas filas da lotérica, jogo apenas quando ela está às moscas. Esqueci de dizer que O Milhão do Leme fica a poucos passos do meu prédio, na mesma calçada, o que facilitou a entrada da Mega-Sena na minha vida. E sobre não entrar na fila, é uma questão de tempo. Deixa só a coisa apertar mais que lá estarei, tomando chuva ou torrando ao sol.

Meu pai sempre jogou na Loteria Federal. Ele tinha um número da sorte e, sempre que o encontrava em algum bilhete, comprava a tripa inteira. Muitos anos depois, viu seus três números preferidos alinhados na fachada de uma casa à venda. Acho que meus pais compraram a nossa casa em Ipanema e se transferiram com os filhos para a zona sul de Porto Alegre só por causa daquele número. Mas não me consta que os algarismos mágicos tenham sido sorteados na loteria. Aliás, eu sou a prova viva de que não foram.

De toda forma, a loteria sempre esteve presente na vida da gente. Uma das lembranças que mais me atinge em um lugar não identificado entre o estômago e o coração, misterioso órgão imaginário onde se dá a sensação de aperto que acompanha as recordações tristes, são os primeiros acordes da música do Fantástico. Aquela música era a sentença definitiva de que o fim de semana tinha acabado. Logo eu estaria fazendo força para dormir sem vontade até que, antes das sete, a mãe surgisse para puxar a minha coberta, estratégia pouco pedagógica, mas a única capaz de despertar os quatro filhos dela. Antes desse momento escabroso, vinha a parte de conferir o resultado da loteria esportiva com a zebra do Fantástico. Cada vez que o bicho dizia “Ih, deu zebra”, meu pai se despedia da possibilidade de riqueza nos domingos de noite.

Bem mais delicada foi a situação de um amigo da família, cujo nome declinarei para evitar um processo. Em seu sonho, o homem foi o único ganhador da loteria. E tratou de gastar sua nova fortuna com generosidade: comprou uma mansão, levou a mulher para o topo da torre Eiffel, escolheu um carro para cada filho, quitou a faculdade de todos eles de uma vez só. Ao ouvir o relato, a esposa perguntou quanto ele havia dado para os pais dela. Nada, respondeu o marido, os dois nem apareceram no meu sonho.

Naquele mesmo dia, na saída do trabalho, o homem tomou uma surra do sogro e do cunhado. Ao chegar em casa todo estropiado, ouviu da mulher: isso é para aprender a não deixar os meus parentes à míngua.

Só sei que tenho prestado atenção aos sinais. Placas de carro me fascinam, as combinações de números, um verdadeiro convite para enricar. Nada que se compare ao que aconteceu na outra semana. Uma compra no supermercado somou inacreditáveis R$ 88,88. Como a lotérica que agora frequento estava no caminho, entrei e vi, exposto no guichê, um bilhete de final 888. Nenhuma dúvida: é hoje. Comprei os oito pedaços disponíveis (oito!), minha estreia na Loteria Federal. Dormi com a certeza de que, em breve, todas as dificuldades seriam passado. Saiu o 856.

(*) Claudia Tajes é escritora, trabalha em criação publicitária, é colunista do jornal Zero Hora desde julho de 2010, escreveu roteiros para televisão, além de nove livros já publicados, entre eles: Dez Amores. O artigo acime foi veiculado na Revista Donna do Zero Hora (RS).