Home Jogo Responsável Compulsão por jogo.
< Voltar

Compulsão por jogo.

06/10/2003

Compartilhe

Baralho, cavalos, caça-níqueis, apostas. No episódio de hoje da série "Quem é normal", o psiquiatra Jairo Bauer mostra pessoas para quem os jogos de azar são sinônimos de prazer. O desejo decorrer riscos é tão grande, tão incontrolável, que chega a arruinar a vida de muita gente."Eu trabalhava em função de arrumar dinheiro pra jogar e continuar jogando. Eu deixei de ser pai, de ser marido, de ser homem. Eu deixei de ser humano por causa do jogo", diz um ex-jogador que não quer se identicar. A compulsao deste empresário de São Paulo pelo jogo começou na época da faculdade. Foram 15 anos de dívidas, culpa e muitas mentiras! "Eu precisava justificar onde é que tava indo o dinheiro. Boletins de ocorrência eu fiz vários: boletins de coisas que não tinham acontecido, nunca tinham acontecido", relata.
"Jogava, jogava, jogava até ganhava mas nunca saia de lá com lucro. Sempre saía perdendo porque não sabia parar. Aí eu saia de lá, me autoflagelava, nunca mais volto aqui, eu sou isso, sou aquilo, me xingava, só faltava me bater. No dia seguinte, o primeiro pensamento: onde eu vou arrumar dinheiro pra jogar de novo?" Lá nos Estados Unidos, Theodore Míler levava uma vida comum, pacata. Era um bem-sucedido gerente de restaurante. Até que o jogo tomou conta de sua vida."É só eu entrar aqui que me sinto num mundo novo, um mundo de fantasia. Nem quero saber se é dia ou noite. Só sei que me sinto em casa.”, confessa. "Se eu pudesse, ficaria no cassino 24 horas por dia, sete dias por semana. Eu tenho esta sensação relaxante, parece que finalmente estou no lugar certo".Theodore chegou a passar 36 horas seguidas num cassino. Na loucura da jogatina, perdeu milhares de dólares. Hoje, desempregado, passa o dia cuidando de um sobrinho."Se eu tivesse que optar entre ficar com as pessoas que eu amo e ficar num cassino, eu escolheria o cassino. E me sinto culpado por isso.”Na Universidade de Minessota, no norte dos Estados Unidos, os cientistas estudam o cérebro de viciados em jogo como Theodore. Segundo o psiquiatra americano John Grant, existem semelhanças, nos circuitos cerebrais, entre pessoas compulsivas – seja por jogo, por compras … E até por esportes.
Só de pensar num cassino, o sistema nervoso dos jogadores libera substâncias químicas que estimulam as áreas que das sensações de prazer e recompensa. Nos jogadores patológicos, esse processo parece mudar fisicamente o cérebro. O caminho da prazer começa a dominar de tal forma que, cada vez que a pessoa se lembra de um cassino, aparece um desejo incontrolável, uma urgência de jogar. São essas mudanças anormais que, segundo os cientistas, podem levar às obsessões."Vou ser 100% honesto: não quero parar de jogar nunca! E sei que isso está destruindo minha vida.”, diz Theodore. Desesperado para controlar seu comportamento, Theodore apelou para um tratamento experimental. São remédios que bloqueiam circuitos cerebrais ligados ao prazer.Existe um tratamento para controlar o impulso do jogo compulsivo. Segundo um estudo da Universidade de Minessota, nos Estados Unidos, 75% dos jogadores doentios melhoram depois que usam uma substância chamada naltrexone. Mas esse é um resultado preliminar que ainda precisa ser verificado por outros centros de pesquisa."A medicação que a gente usa afeta a química do seu cérebro. Ela vai reduzir sua necessidade, seu desejo de jogar. Ela também vai afetar o prazer que você sente quando joga.", explica John Grant para Theodore. "Você não vai se tornar um zumbi, que não pode sentir prazer. O que o remédio faz é reduzir o prazer associado a um comportamento patológico, no seu caso, o jogo".Esses remédios também são usados para tratar dependentes de drogas. Mas a dificuldade que Theodore tem de controlar o impulso de jogar é tão grande, que ele vai receber doses mais altas do que os médicos usariam com um dependente de heroína!!
Agora, tomando a dose máxima de remédio contra obsessão, Theodore resolveu testar o efeito indo a um cassino."Minhas mãos costumavam tremer. Eu não estou transpirando. Antes, quando entrava num cassino, eu me sentia em casa, confortável. Mas agora não senti nada disso. É sensacional. Como uma simples pílula pode fazer tanto? Estou surpreso."Outras drogas estão sendo testadas para controlar a fissura pelo jogo mas não dá pra esquecer que os remédios sozinhos não resolvem nada. Eles são apenas parte de um tratamento.O paciente precisa fazer psicoterapia e se conscientizar que a chance de ganhar o jogo é mínima e que só muito, muito dificilmente vai recuperar o dinheiro que gastou. No Brasil, o empresário paulistano só dominou o vicio do bingo depois que entrou no JA, os jogadores anônimos, há quatro anos."É um grupo de auto-ajuda que nada mais é que nosso remédio, pelo ouvido. Através do depoimento das pessoas que estão lá há mais tempo e daquelas que estão chegando:, explica o empresário.  Os jogadores anônimos têm o apoio gratuito do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas em São Paulo. O JA não só tem centros espalhados pelo país como faz reuniões até pela internet.Às vezes na dor do companheiro você sente, é o seu remédio para evitar a primeira aposta.
Preste atenção em alguns sinais de que você pode ter problemas com o jogo. Perder horas do trabalho ou estudo para jogar. Jogar mais do que pretendia.  Sentir culpa ou remorso depois de jogar. Jogar para fugir de problemas ou preocupações ou ainda relutar em gastar o dinheiro reservado para o jogo para as despesas normais.Muitas pessoas não conseguem manter esse controle. Fantástico – Rede Globo