Home Jockey Corrida de cavalos nos EUA tira dólares do país
< Voltar

Corrida de cavalos nos EUA tira dólares do país

05/11/2001

Compartilhe

Na fachada, o conjunto de salas que ocupa o lado direito do quinto andar do Edifício Formac se parece com qualquer escritório da Rua Leonardo Truda, centro comercial de Porto Alegre. No interior, oito monitores de vídeo transmitem ao vivo, em intervalos de dez minutos, corridas de cavalos que se realizam em cidades dos Estados Unidos. No canto direito, a máquina conectada com o México emite, via on-line, bilhetes em dólares. No canto esquerdo, um quadro fornece a cotação diária da moeda americana.
Nesse cenário, funciona a Carnegie Cooke do Brasil ou Jockey Clube Eldorado do Sul – os dois nomes do conjunto de salas -, única casa de jogos do país que aceita apostas em dólar, o que é ilegal. ”O valor mínimo é de dois dólares. Aqui é o único local do país onde se pode apostar simultaneamente com os americanos e jogadores de todo o mundo”, orgulha-se o funcionário Milton Soares, com sorriso constante que exibe o único dente.
México – ”Somos representantes da Carnegie Cooke Company, de Las Vegas, mas o dinheiro para pagar o prêmio aos apostadores vem do México por intermédio da empresa Águas Calientes, que nos transmite as imagens via satélite”, conta Milton. Ele acrescenta que o dinheiro para bancar as apostas é depositado numa agência do BankBoston, americano, de Porto Alegre”.
Milton é interrompido pelo patrão, o coronel reformado da Polícia Militar Valdo Marques da Silva, que se apresenta como representante da Carnegie Cook para a América Latina. O oficial tenta mostrar que nada no negócio fere as leis, o que não pode ser dito de seu passado. De acordo com documentos obtidos pelo Jornal do Brasil, em 1997 ele foi condenado pelo desvio de R$ 20 mil destinados à compra de cavalos para a PM gaúcha.
Parecer – ”Podem fotografar, porque estamos legalizados. Só poupem os clientes”, diz o coronel Valdo. Mas, se as leis fossem cumpridas, a filial da Carnegie Cook não poderia funcionar. Segundo parecer do Ministério da Agricultura enviado em 4 de setembro passado à Assembléia Legislativa, a empresa não tem autorização para explorar corridas de cavalos. ”Tampouco para operar em máquinas em tempo real” (que transmitem as corridas dos Estados Unidos).
Em 28 de setembro, portaria do Ministério da Justiça determinou a apuração dos fatos. Além do Jockey Clube Eldorado do Sul, estão sendo investigados os de Alegrete e Carazinho, no interior do Estado, que teriam se transformado em casas de caça-níqueis. A situação irregular da Carnegie Cooke foi confirmada em 23 de outubro pelo ministro Carlos Veloso, relator do Supremo Tribunal Federal (STF), ao negar habeas corpus preventivo que Valdo pediu para permitir o funcionamento da casa. O coronel conseguiu a autorização de um funcionário do Ministério da Justiça lotado em Porto Alegre, que acabou afastado.
Arrecadação – A filial brasileira, diz o oficial, fica só com 8% do montante de apostas arrecadadas pela matriz americana. Logo em seguida, ele entra em contradição, ao negar que a receita do jogo seja remetida ao exterior. A segunda versão é desmentida pelos monitores de vídeo, que exibem os valores dos prêmios apurados nos Estados Unidos.
”Isso aí está cheirando irregularidade. Às vezes, o Jockey Club de São Paulo compra a imagem de um grande prêmio dos Estados Unidos, depois de pagar uma fortuna em direitos autorais. Mas as apostas não são feitas de modo on-line”, afirma o gerente de vendas do Jockey Clube de Belo Horizonte, Ivo Lima.
Mais lenha – A Carnegie Cooke também traz mais lenha à fogueira de denúncias que ligam assessores do governador Olívio Dutra a banqueiros do jogo do bicho. O que antes restringia-se a troca de acusações entre o presidente do Movimento Justiça e Direitos Humanos, Jair Krischke, transformou-se em petardo, no dia 17 de maio. Em depoimento à CPI da Segurança Pública, na Assembléia Legislativa, delegados disseram que que bicheiros doavam dinheiro para o PT e obras da governo.
Um dia depois, em conversa gravada pelos jornalistas do Diário Gaúcho, Carlos Nunes e Cleiton Magalhães, o ex-tesoureiro do PT, Jairo Carneiro dos Santos, revelou que os bicheiros haviam doado R$ 600 mil para a campanha de Olívio, em 1998. O dinheiro teria sido entregue ao Clube de Seguros da Cidadania, formado por petistas e presidido pelo economista Diógenes Oliveira.
Fita – Em depoimento à CPI, Jairo voltou atrás. Mas o assunto esquentou no dia 25 passado, quando o advogado Wilson Muller entregou à CPI fita com a gravação de conversa que Diógenes teve, em março de 1999, o delegado Fernando Tubino, ex-diretor da Polícia Civil. Na conversa, o petista usa o nome do governador para pressionar o delegado a não reprimir o jogo do bicho.
”O governo não tem conhecimento do funcionamento da desta Carnegie Cook, e muito menos que estejam sendo bancadas apostas em dólar. Essa denúncias são motivadas por esses policiais corruptos que estão sendo afastados do governo em associação com a bancada oposicionista que querem conter o avanço do PT”, disse o chefe da Casa Civil, Flávio Koutzi.
Contravenção abala aliança
Os efeitos das denúncias que acusam o governo de Olívio Dutra de complacência com banqueiros do jogo do bicho não se limitam aos estragos que criaram uma área de atrito com o aparelho policial do Estado. Podem atingir a imagem do pré-candidato do PT à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no eleitorado de esquerda, tradicionalmente um celeiro de votos petistas.
Durante quase três décadas, o presidente do Movimento Justiça e Direitos Humanos, Jair Krischke, esteve ao lado dos petistas do Rio Grande do Sul na investigação sobre a Operação Condor – a ação conjunta dos governos militares, na década de 70, para reprimir os movimentos de esquerda na América Latina. Essa longa convivência acabou no início do ano, quando a entidade presidida por Kischke passou a ser um dos principais opositores da cúpula petista do estado.
Las Vegas – ”Sem respaldo da lei, a Carnegie Cook só continua funcionando porque Porto Alegre se transformou numa espécie de Las Vegas depois que o governo Dutra passou a respaldar os interesses do Grupo da Sorte, o grupo de bicheiros que controla a jogatina no Estado”, acusa Jair Krischke.
O motivo do rompimento entre o militante e os petistas foi uma crítica de Krischke ao decreto que o governador Olívio Dutra assinou, legalizando o funcionamento dos caças-níqueis e das máquinas eletrônicas de apostas do Estado. A proliferação da jogatina foi regularizada ainda por um outro projeto de lei, aprovado pela Assembléia Legislativa, que estabeleceu as taxas recolhida pelo governo das casas de apostas.
O chefe da Casa Civil do governo gaúcho, Flávio Koutzii, atribui a onda de denúncias de ligação do governo com a contravenção a interesses escusos localizados no aparelho policial do Estado. ”Os autores das denúncias simulam que estão combatendo a contravenção, mas o objetivo deles é extorquir dinheiro dos bicheiros”, afirmou. Segundo o assessor de Olívio Dutra, o governo gaúcho só obterá sucesso no combate à contravenção ”quando a polícia estiver totalmente saneada”.
Sinal aberto – Para Krischke, entretanto, o decreto do governador e a lei aprovada na Assembléia Legislativa foram o sinal aberto para que a contravenção se alastrasse por todos os municípios gaúchos. ”As medidas favoreceram os bicheiros, que se uniram numa associação e padronizaram os jogos, como forma de lotear as bancas. Hoje, a contravenção e a jogatina constituem a principal paisagem da cidade”, ataca o militante gaúcho.
O cenário ao qual o militante de direitos humanos se refere em nada difere, entretanto, do que se vê nas ruas do Rio e de São Paulo, cidades em que febre dos jogos de apostas também é visível nas máquinas caça-níqueis que funcionam em estabelecimentos comerciais. Na capital gaúcha, isso pode ser verificado principalmente no centro e na Avenida Azenha, importante zona comercial.
Jóqueis – Em outras ruas centrais de Porto Alegre, como Voluntários da Pátria, Doutor Flores e Marcílio Dias, há engenhocas eletrônicas instaladas em tabacarias, bares, lanchonetes, casas de loteria, cafés e representações dos jóqueis de São Paulo e do Rio.
Até mesmo as casas de loteria credenciadas pela Caixa Econômica Federal entraram no esquema da contravenção. A loja Periquita da Sorte incluiu os jogos padronizados pelo Grupo da Sorte, como é conhecido o grupo de bicheiros, em seu cardápio de apostas.
”Obviamente existem casas de loteria que operam com esses jogos. Mas procuramos conscientizá-los de que estão correndo o risco de ser descredenciados pela Caixa Econômica Federal”, disse Paulo Michelon, presidente do Sindicato dos Lotéricos do Rio Grande do Sul. Nos cálculos de Michelon, os jogos controlados pelos bicheiros, entre eles os das máquinas caça-níqueis, são responsáveis por 57% do faturamento das apostas no Estado.
Bingos – Outra estatística elaborada pela Caixa Econômica Federal aponta que os bingos também estão em alta no Rio Grande do Sul. São 78 casas, que correspondem a mais de um terço do total de bingos em funcionamento no país.
Enquanto o governo do Estado e a polícia não entram num acordo, a contravenção em Porto Alegre começa a atrair apostadores de várias partes do país. Ex-narrador de corridas, Ramão Dias ganha a vida atualmente no Carnegie Cooke do Brasil, fazendo apostas para empresários paulistas e de outras partes do país, que o acionam por telefone. Segundo Dias, seus clientes chegam a apostar U$ 100 mil num único páreo das corridas americanas.

PF investiga apostas em dólar
Inquérito é aberto para investigar denúncia do Jornal do Brasil sobre corridas de cavalo transmitidas on line para o país
– A Polícia Federal do Rio Grande do Sul começou a investigar ontem as atividades da Carnegie Cooke do Brasil, empresa de Porto Alegre que opera as apostas de corridas de cavalo, em dólares, on line, diretamente de vários jóqueis dos EUA. O inquérito foi instaurado por determinação do superintendente da PF no Rio Grande do Sul, delegado Rubem Albino Sockink, que disse ter ficado chocado ao tomar conhecimento ontem, por intermédio do Jornal do Brasil, de que os recursos das apostas da Carnegie Cooke do Brasil são enviados para o exterior. A empresa de apostas atua também como o nome de Jockey Clube Eldorado do Sul.
”Isso é uma barbaridade, estão querendo, no mínimo, fazer uma brincadeira com a gente. Esse cassino abre uma brecha pra que dinheiro de outros crimes possa ser lavado e remetido para o exterior por meio da jogatina”, disse Sockink.
Conhecido por ter decifrado operações de lavagem de dinheiro por meio das contas CC-5 ( de domiciliados estrangeiros no Brasil), o procurador da República no Rio Grande do Sul, Celso Três, enumerou uma série de crimes a serem investigados: lavagem de dinheiro, remessa irregular de recursos para o exterior, formação de quadrilha e organização criminosa. Para Celso Três, o funcionamento de uma filial da Carnegie Cooke no Brasil demonstra que por trás da contravenção se escondem inúmeros outros crimes.
”Essa história é assustadora. Mostra que o dinheiro obtido com o crime organizado pode estar sendo lavado e enviado pelo exterior por meio das apostas. É um prova clara de que o governo do estado comete um erro ao fazer vista grossa para a contravenção no Estado”
Valdo Marques Jr, advogado da Carnegie Cooke do Brasil, disse ontem que o funcionamento da casa tem respaldo num despacho do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Segundo ele, não cabem mais recursos e a medida garante o funcionamento da casa de apostas até o julgamento do mérito. A informação, no entanto, foi negada ontem pela assessoria de imprensa do Tribunal: não há registro de decisão judicial garantindo o funcionamento da casa. Tramita apenas no Tribunal o processo criminal sobre a legalidade das apostas on line. Em 23 de outubro, o ministro do STF Carlos Veloso negou habeas-corpus aos advogados da Carnegie Cooke por considerar que as apostas on-line da casa devem ser enquadradas no crime de contravenção penal.
O advogado disse ainda que a empresa tem autorização do Banco Central para enviar o dinheiro das apostas para o exterior. Esse versão é contraditada pelo próprio proprietário da casa, o coronel reformado Valdo Marques, pai do advogado. Segundo o coronel Marques informou ao Jornal do Brasil, o dinheiro das apostas não sai do Brasil.
”O Banco Central pode ter dado autorização para enviar dinheiro para o exterior para outros fins, nunca para a jogatina, já que não tem competência para isso”, afirmou o procurador Celso Três.
Jornal do Brasil – AMAURY RIBEIRO JR.