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Dependência do mercado chinês provoca grandes perdas no jogo em Macau

31/01/2020

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Esta diminuição de turistas em Macau poderá ter um impacto ainda maior sobre o jogo se considerarmos a tendência verificada no ano passado

O primeiro caso do novo coronavírus chegou a Macau na semana passada, dias antes da semana de celebrações do Ano Novo Lunar, altura em que os cassinos normalmente registram enchentes e avultados ganhos provenientes das apostas dos milhares de turistas da China continental.

“As receitas irão sofrer e muito. Penso que (…) 80-90% menos do que no ano anterior no jogo”, disse à Lusa o advogado português especialista na área do jogo Pedro Cortés.

“Estamos falando de receitas brutas iguais às dos tempos iniciais pós liberalização”, no início do milênio, sustentou.

As chegadas de visitantes a Macau durante a chamada “semana dourada” do Ano Novo Lunar, entre 24 de janeiro e hoje, caíram 76,5% comparativamente a igual período de 2019, indicou o ‘site’ dos Serviços de Turismo. A situação agrava-se com o número de visitantes provenientes da China continental: apenas 139.580 visitaram Macau, menos 81,7% comparando com o período das celebrações da entrada do ano do porco, no ano passado.

A China suspendeu, esta semana, a emissão de vistos individuais para fora do país.

“O coronavírus vai ter um impacto significativo, o mercado do jogo costuma ter um grande impulso na altura no Ano Novo chinês”, com vários eventos e espetáculos de entretenimento que foram cancelados, explicou à Lusa o professor em Gestão Internacional de `Resorts` Integrados da Universidade de Macau Glenn McCartney.

“Todas estas oportunidades para [os jogadores] gastarem dinheiro foram canceladas”, reforçou o professor.

Também o fundador da consultora especializada em regulação de jogos em Macau Newpage Consulting, David Green, corroborou com estas opiniões.

“O fato desta emergência ter ocorrido antes do Ano Novo chinês agrava o impacto. O incógnito agora é quanto tempo essa situação continuará. Um surto prolongado pode ser extremamente prejudicial para a indústria de casinos em Macau”, frisou David Green.

O fato de a economia de Macau ser, por um lado, altamente dependente da indústria do jogo e, por outro, a esmagadora maioria dos turistas serem da China continental (mais de 27 milhões em 2019) faz com qualquer fator adverso prejudique gravemente a economia da capital mundial do jogo, criticaram os analistas.

“Isto é o que acontece quando apenas se confia numa fonte”, criticou Glenn McCartney, esperando que este acontecimento “possa ser uma lição para o futuro”.

Na mesma linha de raciocínio, Pedro Cortés afirmou que “o essencial é perceber se é desta que, de uma vez por todas, o Governo de Macau toma a questão da diversificação muito a sério”.

“Não podemos estar dependentes apenas do jogo. Temos de diversificar”, frisou.

A China elevou para 170 mortos e mais de 7.700 infectados o balanço de vítimas do novo coronavírus detetado no final do ano em Wuhan, capital da província de Hubei (centro).

O Governo de Macau anunciou o prolongamento até esta sexta-feira dos feriados do ano novo chinês para a função pública, medida que foi adotada por várias empresas privadas, para diminuir o risco de contágio do novo coronavírus chinês, depois de ter sido registrado no território o sétimo caso importado de infecção.

Esta diminuição de turistas poderá ter um impacto ainda maior sobre o jogo se considerarmos a tendência verificada no ano passado. As receitas provenientes das grandes apostas em Macau atingiram 135,228 milhões de patacas (15,152 milhões de euros) em 2019, menos 18,6% face a 2018, com o jogo VIP a perder o estatuto de segmento mais preponderante nas receitas globais, dando lugar ao jogo de massa.

De acordo com dados divulgados pela Direção de Inspeção e Coordenação de Jogos (DICJ), este valor, arrecadado nas salas de grandes apostas dos cassinos, representou menos 30,869 bilhões de patacas (3,459 bilhões de euros) do que no ano anterior.

A acrescentar a esta perda junta-se o fato de o jogo VIP ter perdido para o segmento de massas a posição mais dominante na capital mundial do jogo: pelo menos nos últimos cinco anos, as grandes apostas representaram mais de 50% das receitas globais. Em 2019, o jogo VIP representou apenas 46,2% do total das apostas angariadas. (RTP com Lusa)