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Doença do jogo tem tratamento.

24/09/2001

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Não passar na porta do bingo sem entrar e abandonar a máquina de pôquer só quando o bolso esvaziou podem ser sinais de doença. O jogo patológico, transtorno psiquiátrico que leva a comportamento recorrente, tem tratamento.
O jogo que não é brincadeira
A imagem cabe como metáfora. Um homem tendo como vestimenta apenas um barril ganha a rua com ar desolado. Marcelo, 53 anos, administrador de empresas aposentado, não chegou a tanto. Mas perdeu, além de cerca de R$ 60 mil, o respeito dos filhos e da mulher, passou por situações vexatórias e degradação moral. Tudo isso aconteceu em pouco mais de dois anos por conta de uma supostamente inofensiva atividade de lazer. Com tempo ocioso em virtude da aposentadoria precoce, Marcelo passou a freqüentar os salões de bingo da cidade.
A necessidade de passar horas nas mesas ou junto dos computadores conferindo seqüências de números em busca de episódicas sensações de sucesso se tornou cada vez mais premente. Marcelo deixou de cumprir compromissos familiares e financeiros, pedia dinheiro emprestado a quem pudesse, arranjou um emprego como agente de segurança, tudo para bancar a atividade que, ao mesmo tempo em que lhe proporcionava um misto de sensações, estava acabando com toda a sua vida.
Marcelo tinha se transformado em jogador compulsivo. O que ele então não sabia é que estava vivendo uma situação patológica, uma doença cujo controle estava fora de seu alcance e que só poderia ser administrada com uma intervenção terapêutica.
Não apenas pessoas com o mesmo problema de Marcelo, mas a população em geral, e mesmo profissionais da saúde, avaliam erroneamente ou desconhecem a existência do jogo patológico. Mais do que uma fraqueza moral, ou simplesmente um vício, como costumava ser encarado, se trata de um transtorno psiquiátrico que, como no alcoolismo, gera comportamentos recorrentes, responsáveis por perdas de ordem financeira, familiar e emocional. Como no caso dos alcoólatras, os jogadores dependentes têm dificuldades em reconhecer seus problemas com o jogo e grande parte deles mente para esconder suas dificuldades de familiares e amigos. ‘Além disso, enfrentam sentimentos de culpa, sintomas depressivos e de ansiedade, comprometimento profissional e podem enveredar pela delinqüência’, explica o psicanalista e psiquiatra David Wilson, coordenador assistencial do Ambulatório do Jogo Patológico (Amjo) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.
A história do jogo compulsivo não é recente. Ele sempre esteve relacionado à existência dos jogos de azar, em que são feitas apostas de bens de valor sobre um resultado determinado por fatores aleatórios. Um exemplo célebre de jogador compulsivo é o escritor russo Dostoievsky. Seu romance de 1886 ‘O Jogador’, contendo elementos autobiográficos, foi escrito para saldar suas dívidas de jogo. A obra deu origem ao ensaio de Freud, de 1928, ‘Dostoievsky e o Parricídio’, no qual analisa aspectos da paixão do escritor pelas apostas. ‘Também a tradicional medicina chinesa identifica o jogo como uma das cinco paixões destrutivas para o homem, junto com o álcool, o sexo, o apetite e o ócio’, lembra Wilson.
Mas foi apenas a partir dos anos 60 que o problema passou a ser estudado com mais profundidade pela psiquiatria. Nos anos seguintes, ganhou maior atenção por setores da saúde pública e, no início dos anos 80, o jogo patológico foi classificado como transtorno psiquiátrico no ‘Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais’, da Associação Americana de Psiquiatria.
Apesar do avanço verificado nas pesquisas sobre o assunto na última década, principalmente em países como Estados Unidos, Canadá, Espanha e Austrália, os dados estatísticos ainda estão longe de acompanhar a expansão dos jogos de azar, principalmente em função do desenvolvimento de novas tecnologias e dos crescentes índices de urbanização. ‘De acordo com avaliações internacionais, o índice de jogadores patológicos se situa entre 1% a 4% da população mundial’, diz o médico Daniel Fuentes, pesquisador e coordenador de ensino e pesquisa do Amjo do Hospital das Clínicas. ‘Ainda segundo esses estudos, foi detectado que 10% das pessoas que freqüentam casas de jogos de azar são responsáveis por 50% do valor total das apostas, demonstrando assim um grande e importante envolvimento com a atividade.’
No Brasil, um país que não deixa de ter uma queda para o jogo – basta lembrar a presença das loterias legalizadas e do ilegalmente institucionalizado ‘jogo do bicho’ -, os números são inexistentes e os pesquisadores da área de saúde iniciam suas investigações. O que se nota é um aumento no número de casas de jogos nas áreas urbanas e, além dos jogos de azar tradicionais, como o carteado e as corridas de cavalo, o surgimento de novas modalidades, legais ou ilegais, como o bingo e o videopôquer. Segundo os pesquisadores, não é possível afirmar que algum deles tenha maior poder em levar a um comportamento compulsivo, mas a presença de práticas socialmente aceitas, como o bingo, facilita bastante o envolvimento de futuros dependentes.
O aspecto patológico do fenômeno tem impacto negativo sobre as mais diversas esferas da vida, seja do ponto de vista econômico ou social. E ainda pode ser mais constrangedor para o dependente por não ocorrer em função de uma substância química exógena. As conseqüências de seus atos não contam com nenhuma circunstância atenuante.
A maior parte dos jogadores tem na atividade uma finalidade recreativa, sem maiores danos para o seu cotidiano. Mas qual seria a linha divisória a distinguir a atividade voltada para a diversão daquela que, progressivamente, leva a pessoa a perder o controle de sua própria vida? ‘Como acontece com outros comportamentos inofensivos de lazer, o jogo apresenta um caráter lúdico e um uso danoso’, explica Wilson. Entre essas duas áreas, existe uma zona cinzenta, uma região de passagem, que não é percorrida pela maioria das pessoas e é de difícil percepção social. Mais uma vez, como na dependência alcoólica, a pessoa acredita que vai se safar, que conseguirá o controle sobre os eventos. ‘O diagnóstico dessa transição depende de uma série de critérios, por vezes não muito simples de identificar’, completa o psiquiatra.
Isso não significa que o diagnóstico não possa ser feito e medidas de tratamento, tomadas. Entre os pesquisadores existe um consenso de que o nível patológico é atingido quando o grau de envolvimento social com o jogo se torna muito alto. Quer dizer, todas as atividades e disponibilidades da pessoa ficam concentradas no jogo, colocando em risco outras áreas de sua vida. Por exemplo, um indicador dessa situação é a necessidade cada vez maior de jogar, sob qualquer pretexto, e especialmente para recuperar o dinheiro perdido.
Também foram encontrados pontos comuns no perfil do jogador patológico: independentemente de sexo e idade, são pessoas empreendedoras, muito dinâmicas, com características de liderança e com bom nível escolar e cultural. Em sua tese de dissertação de mestrado, apresentada ao Instituto de Psicologia da USP em 1997, ‘Jogo Patológico: um Estudo sobre Jogadores de Bingo, Videopôquer e Jóquei Club’, Maria Paula Oliveira identificou entre 171 pesquisados que a maioria tinha completado o curso médio ou superior e dispunha de uma renda média de R$ 4 mil.
Muitos desses dados vêm sendo confirmados e estudados no trabalho de atendimento aos dependentes de jogo oferecido pelo Amjo. O ambulatório foi criado no Instituto de Psiquiatria do HC em 1997, por iniciativa do psiquiatra Hermano Tavares, um dos pioneiros da pesquisa sobre o assunto no Brasil. Ele estava trabalhando em sua tese de doutorado sobre a relação entre jogo, neurose obsessiva e personalidade e precisava oferecer um atendimento de apoio aos jogadores que participavam do estudo. ‘Depois de trabalhar algum tempo sozinho, reunimos um pequeno grupo composto de psiquiatras residentes e psicólogos recém-formados’, conta Tavares, que hoje se encontra em Calgary, no Canadá, dando andamento às suas pesquisas.
O Amjo cresceu e passou a atender as pessoas em busca de um tratamento para suas dificuldades com o jogo. Hoje, são atendidas 40 pessoas, das mais diferentes idades. O atendimento, feito após uma triagem inicial, é baseado em psicoterapia individual no total de 40 sessões, realizadas com o mesmo terapeuta. Na ocorrência de outros transtornos conjugados é feito ainda um acompanhamento específico por psiquiatras, que pode incluir medicação. ‘Nossa linha de trabalho tem uma abordagem ampla e inclui uma vertente de referencial psicanalítica’, diz Fuentes. ‘Mas não exclui outras possibilidades, sempre considerando que nossa proposta é de abstinência total do jogo.’
Mais do que o atendimento gratuito à população, o Amjo oferece treinamento a profissionais de saúde mental e desenvolve diferentes frentes de pesquisas desta condição clínica pouco estudada, como a da ligação entre o jogo e o uso da nicotina; a das diferenças de compor-tamento entre homens e mulheres na patologia; a avaliação das funções neuropsicológicas dos jogadores e a identificação de uma contribuição genética com bases biológicas. ‘Embora as pesquisas não estejam concluídas, a literatura e a observação revelam alguns pontos que podem nos ajudar nos tratamentos de recuperação’, revela a psiquiatra Daniela Lobo, que atua no Amjo e prepara tese sobre correlação genética no jogo patológico. O fato de as mulheres se tornarem dependentes cerca de 2,5 a 4 vezes mais rápido do que os homens ou de que quanto menor o poder de intervenção sobre o resultado do jogo, maior o poder de se estabelecer a dependência são dados que sempre aparecem. A esse respeito, um dos casos que despertou a atenção dos pesquisadores do Amjo foi o de um experiente jogador de sinuca, que só apresentou um quadro compulsivo quando trocou o pano verde pelos jogos de máquinas.
Após mais de dois anos de atividades, o tratamento proporcionado pelo ambulatório do HC apresenta resultados bastante satisfatórios. Segundo os coordenadores, a maioria das pessoas conclui o tratamento e foi observada uma redução sintomática do comportamento do jogo, o que significa que é possível obter uma recuperação nesse tipo de patologia.
No Brasil, mais dois centros ligados a universidades oferecem opções de tratamento: a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, e a Universidade Federal de São Paulo. A última mantém na capital paulista um ambulatório de jogo patológico como parte do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes, com sessões semanais de terapia de grupo e acompanhamento psiquiátrico quando necessário, com cerca de 30 pessoas em tratamento.
Mas um dos recursos com grande índice de eficiência – indicado pelos profissionais do Amjo como complemento às suas ações – e que começa a se espalhar pelas maiores cidades do Brasil são os grupos dos Jogadores Anônimos, o J.A. Criada em Los Angeles, nos Estados Unidos, em 1957, a associação foi inspirada no trabalho dos Alcoólicos Anônimos, mundialmente reconhecido como uma das terapêuticas mais eficazes no controle do alcoolismo.
Trata-se de um grupo de auto-ajuda, sem nenhum vínculo com organizações religiosas, políticas ou particulares, auto-sustentado pela contribuição voluntária de seus participantes. A exemplo dos A.A., o propósito básico é manter a abstinência e ajudar outros dependentes a alcançá-la por meio de um programa de 12 pontos, debatidos em reuniões semanais e testemunhados pelos depoimentos dos participantes. O único requisito para participar é ‘o desejo de parar de jogar’. A associação também proporciona reuniões de acompanhamento familiar e o Grupo de Alívio de Pressão, composto por participantes mais experientes que oferecem aconselhamento para os problemas financeiros e legais dos dependentes.
O primeiro grupo brasileiro surgiu no Rio de Janeiro em 1994. Hoje, alem do Rio, eles estão presentes em Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, São Caetano, Niterói, Belo Horizonte, Brasília e Vitória. São Paulo tem o maior número de grupos, oito, com reuniões em diferentes pontos da cidade. Como observado nas diferentes pesquisas sobre o jogo patológico, o público afetado pelo problema, e que procura os J.A., é composto por diferentes categorias profissionais e diversas classes sociais. Embora haja uma parcela representativa de profissionais liberais e com formação superior, como advogados, administradores, médicos, comerciantes. O mais surpreendente desses casos foi a presença de um proprietário de bingo, que conseguiu dilapidar seu patrimônio jogando na concorrência.
Foi no grupo pioneiro paulista, criado em 1996, que Marcelo foi buscar ajuda quando ouviu de seu filho que não seria mais possível conviver com ele por conta de seu envolvimento com o jogo. ‘Voltei a morar com minha mãe e parti para minha recuperação. Em 1997, comecei a freqüentar os J.A. O fundamental foi reconhecer minha impotência perante o jogo’, conta Marcelo. Nos primeiros seis meses teve duas recaídas, mas não deixou de ir às reuniões.
O mesmo não aconteceu com a tradutora e consultora Débora, de 50 anos. Em 1996, depois de perder um apartamento, carros, poupança e empréstimos nas máquinas de videopôquer, ela procurou tratamento e acabou participando de um grupo de J.A. Depois de algum tempo de abstinência, teve uma recaída, parou de ir às reuniões e as conseqüências foram muito mais danosas. Débora passava as noites jogando, às vezes emendando dias seguidos. ‘Nessa fase final, você já não pensa em perder ou ganhar; tudo que se quer é estar lá, jogando’, conta. Débora deu um desfalque na empresa que trabalhava, perdeu todo o dinheiro numa única noite e tentou o suicídio. Foi salva por uma amiga que passou a controlar a sua situação financeira, ajudando-a a se recuperar de uma depressão profunda. ‘Procurei um tratamento psiquiátrico específico para o meu problema e voltei a participar dos J.A.’, diz ela, que comemora 14 meses sem recaídas. ‘Agora me sinto mais serena, com mais paciência e consciente do que devo fazer para evitar a volta da doença.’ Marcelo também se recupera dos prejuízos e se esforça por voltar a ter a confiança da família. Considera-se em crescimento contínuo e se preocupa em ajudar os companheiros na dinâmica do grupo pela recuperação. ‘Cada depoimento tem o poder de emocionar e sempre me faz lembrar o estado em que cheguei aqui.’
Para o psiquiatra Hermano Tavares, experiências como essas, mais as novidades em pesquisas no campo do jogo patológico, reforçam a percepção de que o jogo pode causar dependência. As medidas profiláticas nesses casos são paliativas. ‘Quanto maior for a oferta de jogos, maior será o número de pessoas vulneráveis expostas ao risco’, observa. ‘O importante é saber que, assim como o álcool, os jogos de azar requerem sempre muita moderação.’
Serviço: Ambulatório do Jogo Patológico/Hospital das Clínicas – tel.: (0xx11) 3083-7816; Ambulatório do Jogo Patológico/Unifesp – tel.: (0xx11) 5579-1543; Jogadores Anônimos – tel.: (0xx11) 6168-8202 – www.jogadoresanonimoscopa.homestad.com
Gazeta Mercantil – Liana Amaral – Caderno Fim de Semana