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É mais fácil virar santo ou ir ao espaço, mas apostadores insistem na loteria

31/12/2018

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Samy Dana*

Fim de ano é época de, junto com réveillon, apostar na Mega da Virada, o maior prêmio da Mega Sena no ano. Sozinhos ou em bolões, muitos enfrentam filas para fazer uma aposta na esperança de começar 2019 milionários. A animação se justifica pelo tamanho do prêmio, que, segundo a Caixa, deve atingir R$ 280 milhões. Mesmo em um investimento conservador, como a poupança, o dinheiro renderia quase R$ 24,7 mil por dia ou R$ 740 mil por mês.

Os números, lógico, animam muita gente, mas, quando entram as probabilidades, fica claro que ganhar esse dinheiro todo é quase impossível. A chance de ganhar na Mega Sena é de uma em 50 milhões. Para efeito de comparação, calcula-se que para alguém ser canonizado para virar santo é de uma em 20 milhões. Já a possibilidade de ser um astronauta é de 1 em 13,2 milhões. Ou seja, é 2,5 maior a chance de você virar santo e quatro vezes maior a de viajar ao espaço do que a de acertar as seis dezenas sorteadas nesta segunda-feira.

Mas por que tanta gente, mesmo com tantas probabilidades em contrário, continua acreditando? Para os não iniciados em probabilidades, a explicação de que alguém tem que ganhar é suficiente. Outra questão é que o bilhete custa apenas R$ 3,50, e quase todos que jogam brincam mentalmente sobre o que fariam com o dinheiro – ou seja, é uma diversão econômica para sonhar.

Muitas pessoas não jogariam sozinhas, mas apostam em bolões com familiares, amigos ou colegas de trabalho. Ninguém quer ficar de fora caso os outros ganhem. Temos problemas quando nos sentimos excluídos de algo, o que torna insuportável para quase todo mundo se as outras pessoas ganharem, mas você, não. Para não ser aquela pessoa que viu todos os amigos deixarem seus empregos, mas ela não…

Esse sentimento de exclusão, aliás, nos afeta de outras maneiras. Consumidores que se sentem isolados em algum grupo, por exemplo, tendem a gastar mais. Também são mais suscetíveis a marcas “humanizadas”, entre outros fatores.

Se a riqueza traz ou não felicidade, é uma outra discussão. Um estudo clássico dos anos 1970 deu uma força à crença de que a resposta é negativa. Entrevistados por três psicólogos — Philip Brickman, Dan Coates e Ronnie Janoff-Bulman —, 22 ganhadores de loteria dos Estados Unidos relataram que não estavam mais felizes do que os antigos vizinhos e até do que pessoas que ficaram paraplégicas depois de acidentes graves.

Mas um estudo mais recente, deste ano, sugere o contrário. Ganhadores de loteria suecos — 1.480 no total — se disseram muito mais satisfeitos com a vida do que não ganhadores. Quem recebeu um prêmio maior também relatava um nível de felicidade mais elevado do que quem recebeu um valor menor. Há um porém aí: na Suécia, os grandes prêmios não são pagos de uma vez, levam até 50 anos, na base de cerca de R$ 30 mil por ano. Como há menos chances de um dia perderem tudo, é menos provável que as pessoas venham a se arrepender de como usaram o dinheiro.

Em termos de sorte — ou de azar — poucas coisas são mais difíceis do que você ficar rico com a Mega Sena. Uma delas é que a sua casa ou prédio sejam atingidos por um meteoro, de uma em 182 trilhões. Mesmo assim, você provavelmente continuará apostando. Como diz aquele samba, afinal, sonhar não custa nada. Ou na versão Mega da Virada, custa apenas o bilhete e o tempo da fila na lotérica.

(*) Samy Dana é economista, professor da FGV e veiculou o artigo acima na editoria de Economia do O Globo