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Editorial do JB – CPI dos Bingos: Sem inocentes

07/10/2005

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CPI dos Bingos: Sem inocentes
Editorial do Jornal do BrasilExemplo mais recente do teatro dos horrores escancarados em que imergiu a vida pública brasileira, a acareação de quarta-feira, na CPI dos Bingos, revelou-se uma desonrosa sessão de mentiras. Confrontaram-se ali as versões do ex-assessor do deputado José Dirceu, Waldomiro Diniz; do ex-bicheiro Carlos Cachoeira; do amigo e ex-assessor do ministro Antonio Palocci, Rogério Buratti; e de Marcelo Rovai, diretor da Gtech, empresa que tentou renovar um contrato de R$ 650 milhões com a Caixa Econômica Federal.
Dificilmente se verá até o fim dos trabalhos uma sessão tão pedagógica sobre o estado das artes da corrupção incrustada no Estado brasileiro. Embora o conflito de versões tenha persistido depois da acareação e apesar de a sessão não conseguir exibir inocentes, foi possível assistir, ao vivo em cadeia nacional, ao relato explícito das ações de corruptos e corruptores. Lições de alguns dos males mais perversos que afligem o país.
Das acusações e insultos mútuos promovidos pelos presentes ao picadeiro, evidenciou-se o que possivelmente se passa nos recônditos da administração pública. Todos chamaram todos de mentirosos. Todos caíram em contradição. Todos juraram inocência diante dos senadores. Alguns chegaram a ser classificados de ”bandidos”. Waldomiro empenhou-se em livrar de qualquer suspeita seu ex-chefe. Buratti faz defesa semelhante em relação ao amigo. Os diretores da Gtech preocuparam-se em eximir-se de culpa. Somados, os depoimentos estimularam a oposição a engrossar a voz nas acusações contra o governo do presidente Lula, mais uma vez conduzindo a crise para dentro do Palácio do Planalto.
Do episódio extraem-se lições relevantes. A primeira delas é a urgente necessidade de o país debater com profundidade o negócio das loterias, abalado pelas interrogações existentes em torno do contrato da Caixa com a Gtech. Trata-se de uma atividade responsável pela captação de bilhões de apostas, das quais parte da renda é destinada à rede social do governo federal. As lotéricas também prestam serviços no pagamento de contas, mas hoje integram uma rede conduzida por um contrato transformado numa caixa-preta.
Oito loterias federais arrecadam hoje R$ 4,2 bilhões, segundo informações do setor. Somam-se a uma rede extensa de jogos que se espalha pelo país, entre loterias estaduais, bingos, máquinas eletrônicas e turfe. Juntos, estima-se que arrecadaram, no ano passado, cerca de R$ 15 bilhões, segundo dados do BNL, um boletim de novidades lotéricas que circula entre representantes do setor. Se acrescentados o jogo do bicho e os cassinos online, cujos números não são precisos, o volume de apostas deve superar R$ 18 bilhões. Boa parte funciona sem regulamentação e controle. Outra poderia ser mais bem tributada e com melhor destinação.
Outra lição das teias de corrupção escancaradas na acareação de quarta-feira é a urgente missão de completar a privatização de estatais. As árvores da floresta federal, incluindo até os galhos menos exuberantes, não escapam do olhar guloso dos caçadores de dinheiro público. Empresas estatais servem quase sempre de combustível para fisiologismos, alimento para tráfico de influência e fonte inesgotável de corrupção. Podá-las é tarefa essencial para blindar o Estado da ação despudorada dos corruptos e dos incompetentes.