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Em defesa do futebol: uma crítica as apostas on-line

14/01/2019

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Albio Melchioretto (*)

“Não me lembro quando foi a última vez que assisti a um jogo como verdadeiro fã, sem ter uma aposta nele”. Esta foi a frase final de uma interessante reportagem apresentada pelo jornal inglês The Guardian na quarta-feira, 09 de janeiro. A reportagem traz apontamentos, alguns números e o relato de torcedores-apostadores a partir da realidade inglesa. Aqui no Brasil, não temos oficialmente, um mecanismo de apostas on-line regulamentado pelo governo, mas não é difícil para nenhum cidadão, envolver-se com apostas on-line de futebol. Uma dessas casas tem comerciais vinculados exaustivamente em todos os canais esportivos da televisão paga brasileira.

A reportagem do The Guardian, trata da ação na Inglaterra como uma febre. Segundo o levantamento do jornal, na atual temporada, 26 times entre os 44 que estão nas duas primeiras divisões do país tem estampado em suas camisas anúncios de casas virtuais de apostas. A SkyBet, uma dessas casas, nomeia o torneio da segunda, terceira e quarta divisão do país. Para além destes números, a reportagem traz um espaço significativo para o depoimento de pessoas que perderam dinheiro diante do fenômeno. Num total, estima-se que a perca de dinheiro entre os habitantes do Reino Unido em 2017 foi da casa de 14 bilhões de libras esterlinas.

Diante da leitura penso em dois questionamentos. Primeiro, o que o futebol representa? Os depoentes na reportagem falam da aposta como vício e o futebol como a porta para entrada do vício. O futebol oferece a possibilidade, as casas agenciam, mas a escolha é pessoal. Mesmo diante disso, entendo da problemática do envolvimento em massa. O envolvimento em massa passa necessariamente por ações de marketing. O torcedor, não apenas o inglês, é submetido a uma exposição exaustiva das casas de apostas por propagandas midiáticas, chamariz em mídias sociais, anúncio em camisas ou placas publicitárias nos estádios. Chamadas como “apostas grátis” são atrativas. Mas, não há almoço grátis! Se foi ofertado, alguém pagará a conta. Regulamentar as ações e o envolvimento dos clubes poderia ser um problema estatal e da própria liga. Mas há interesse nisso? No caso inglês, uma das casas de apostas está ligada a um grupo de mídia que transmite o certame, além do fato, da tradição local em apostas. Mas como regulamentar algo que está para além das próprias fronteiras? Vide a presença do mercado asiático no sistema de apostas. O problema não é inglês, mas acontece em escala global.

O segundo problema que vejo, nesta relação são os interesses em placares. Se há um mecanismo de apostas, há também interesse em placares e resultados parciais a favor destas apostas e trazer acertadores e formar perdedores. É uma questão de ética. Saindo um pouco do caso inglês, três situações foram fatos apurados, e duas delas no Brasil. Das três, duas são fatos bem conhecidos e largamente discutido na mídia. O escândalo que rebaixou a Juventus, de Turim, na Itália e puniu outros clubes no italiano, ainda na década passada e o segundo caso, o Brasileirão de 2005, onde diversas partidas foram remarcadas – ano de que a MSI investiu maciçamente no Corinthians, clube campeão, coincidência? O terceiro caso, pouco ventilado na imprensa brasileira foi o de jogadores do Blumenau Esporte Clube, na segunda divisão do campeonato catarinense, que entregavam o jogo a favor de resultados, mediados por empresas europeias de apostas. Segundo relatos dos jogadores, o prêmio por favorecer os placares era maior que o salário pago pelo clube. Os jogadores foram afastados e o clube não sofreu punição alguma.

Diante dos fatos apresentados pela coluna e da reportagem do jornal inglês me questiono como chegamos até aqui? Não há nada de errado no futebol, não há errado em apostas. O esporte bretão é um fenômeno mundial, as apostas acompanham a história da humanidade. O problema reside no excesso. O marketing exagerado, a exposição predatória, o controle sobre patrocínios, o comportamento lascivo dos apostadores, no exagero de todas as partes: por fim, o futebol visto apenas como mercadoria. O filósofo grego antigo Aristóteles, alertava que a virtude encontra-se no equilíbrio das ações, e que os extremos são perniciosos. A pintura que a coluna aponta são ações extremas que degradam a dignidade humana e desmontam o que há de belo no futebol. Quando a bola é apenas mercadoria, o gol torna-se cifrão e a torcida apenas marionete de grandes interesses.

(*) Albio Melchioretto é editor da Coluna do Professor #225 no portal Esporte e Mídia.