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ENTREVISTA ISTO É DINHEIRO: Carlos Eduardo Canto: “Assim vamos cair na ilegalidade”

17/07/2006

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O empresário Carlos Eduardo Canto tem uma missão espinhosa: ele defende, junto ao governo, ao Congresso e à sociedade, um setor empresarial que é, no mínimo, polêmico. Os bingos, claro. Canto está na função há três anos, como presidente da FebraBingo, e até agora não viu a luz. Entre 1993 e 2000 as casas de bingo funcionaram amparadas na chamada Lei Zico. Era o céu.
Depois disso, por falta de regulamentação, entraram em uma espécie de purgatório, que durou até o ano passado. Em 2005, assustado com o escândalo Waldomiro Diniz, o governo, antes simpático à atividade, editou a Medida Provisória 168, que suspendeu o jogo no País. Com ela os donos do bingo desceram ao inferno.
De 1.200 casas, sobram hoje cerca de 600, que em sua maioria funcionam com base em liminares. Pior, para esse paranaense de 50 anos, oriundo do setor imobiliário, é que o País ainda não sabe se gosta ou quer essa atividade. Ele a tolera há 13 anos – recolhendo impostos e gerando empregos –, mas Canto diz que isso não é suficiente.
“O jogo ilegal está crescendo e o governo perde a oportunidade de recolher uma fortuna em impostos”, afirma ele.
Na semana passada, saiu em campanha para lembrar que o relatório final da CPI dos Bingos nada encontrou contra eles – e recomendou a regularização da atividade.
 
DINHEIRO – Qual é a situação do jogo no Brasil depois da CPI dos Bingos?
CARLOS EDUARDO CANTO
– Com a CPI eu acredito que conseguimos mostrar aos parlamentares e à sociedade que os bingos precisam e deveriam ser regulamentados. Hoje os bingos continuam funcionando com base na legislação local, em alguns Estados, e com apoio de liminares em outros, como São Paulo, onde não há essa legislação. É uma situação precária. Mas vemos a possibilidade de regulamentação como uma coisa muito forte depois do relatório final da CPI. Ali se faz explicitamente essa recomendação.
 
DINHEIRO – Por que se deveria regulamentar um negócio sobre o qual pesam suspeitas como a de lavagem de dinheiro?
CANTO
– Porque os negócios são legítimos. Esse negócio de lavagem de dinheiro não existe. Os bingos foram montados com base em uma lei federal de 1993, à luz do dia, e depois atirados à ilegalidade em 2004, com a MP 168. De repente vem uma legislação e diz que não pode mais. Isso aconteceu no Paraná, onde o governo estadual proibiu os bingos da noite para o dia.
 
DINHEIRO – Por que os bingos têm esses problemas? Governo algum sai por aí tentando fechar bancos e padarias. Por que o senhor acha que os bingos são visados?
CANTO
– Acredito que seja a má informação. Nós temos um movimento para mostrar quais são os benefícios do setor. Mas depois de um ano de CPI, com a palavra “bingo” todos os dias nos jornais e na televisão, as pessoas ficam com a impressão de que nesse setor se faz lavagem de dinheiro e evasão fiscal. Mas esses problemas existem em todos os setores. O bingo é um setor como outro qualquer.
 
DINHEIRO – Mas as pessoas estão acostumadas a associar bingo com ilegalidade. Até os filmes sobre a máfia sugerem que ela controla o jogo em Las Vegas.
CANTO
– Isso é uma desinformação. Hoje em Las Vegas a máfia não controla mais nada. Nem nos outros mais de 180 países onde existe o jogo. Aliás, se a máfia controlasse o jogo ele não teria a transparência fiscal que tem em toda parte. Essa é uma idéia velha.
 
DINHEIRO – As pessoas também têm a impressão de que os bingos são usados para lavagem de dinheiro…
CANTO
– Não existe como fazer essa lavagem. Eu estou há três anos à frente do setor e não conheço um só empresário que esteja indiciado ou sendo julgado por lavagem de dinheiro. As pessoas dizem isso, mas quero que me mostrem onde tem lavagem de dinheiro. A CPI investigou esse assunto e não achou nada.
 
DINHEIRO – O empresário do jogo é um empresário como qualquer outro?
CANTO
– Como qualquer outro. Eles são empresários normais. Eu vim da corretagem de imóveis no Paraná. Outros têm outra origem.
 
DINHEIRO – Já há nesse ramo algum empresário conhecido, um grande nome?
CANTO
– Ainda não, mas já existem alguns que têm vários bingos. Um deles é o Jair de Paula. Com o fechamento de vários bingos ele foi vendo oportunidades e decidiu comprar. Como tem uma empresa muito sadia, que opera muito bem, transformou-se num grande empresário. Como ele há outros em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul…
 
DINHEIRO – Existe alguma legislação que controle a operação dos bingos?
CANTO
– Nenhuma. É isso que a gente quer. O governo tem de fazer a fiscalização, definir regras de funcionamento do jogo e até locais de operação. Aliás, a CPI sugere que os Estados façam isso, porque estão mais perto e podem atuar com mais força e rapidez.
 
DINHEIRO – Vocês sabem quem freqüenta os bingos?
CANTO
– A maior parte é de pessoas da terceira idade. O Estado não oferece atrações e investimentos. Nas casas de bingo as pessoas se encontram, comemoram aniversários e, o principal, têm segurança.
 
DINHEIRO – Um argumento muito comum contra os bingos é que eles viciam as pessoas, arruinam as vidas de muitas delas…
CANTO
– Os viciados existem, os compulsivos. Mas eles não são compulsivos apenas no bingo. São compulsivos com o jogo de um modo geral. Veja essa moda das programações por internet e telefone: a pessoa disca, paga R$ 4 mais impostos e concorre a um carro. Isso é uma compulsão. Quantas pessoas jogam? Devem ser milhões. E, enquanto uma cartela de bingo custa R$ 1, o telefonema custa R$ 4.
 
DINHEIRO – Mas a multiplicação de bingos, a regulamentação não aumentariam a possibilidade de haver mais jogadores compulsivos?
CANTO
– Essas pessoas jogam em qualquer lugar se não houver o bingo. A oferta de jogos com máquinas ilegais já é muito maior que nos bingos. As autoridades podem ter boa vontade ao tentar impedir o jogo, mas não conseguem. Nosso princípio é que ao regulamentar, ao passar para os Estados, pode-se ter algum controle. Agora estamos indo cada vez mais para a ilegalidade. Cada vez mais os empresários sérios estão saindo e a ilegalidade está tomando conta do setor. Entre 1993 e 2000, quando a atividade era regulamentada, o jogo ilegal, que não paga imposto, era muito menor. No Brasil hoje há muitos jogos de telefone e de internet sobre os quais o governo não arrecada nada. Os bingos apenas têm um potencial de arrecadação de R$ 2 bilhões por ano.
 
DINHEIRO – E vocês pagam impostos?
CANTO
– Pagamos como qualquer empresa, mesmo sendo irregulares. Recolhemos impostos para a Receita Federal, recolhemos o INSS do Ministério do Trabalho. É uma contradição, não é? A maioria dos bingos tem contas regulares no banco, mas se eu for ao banco pedir um empréstimo o gerente pode dizer que a minha atividade é ilegal…
 
DINHEIRO – Como é esse negócio de funcionar com base em liminares? Tem gente vendendo facilidades?
CANTO
– As liminares hoje são baseadas em convicções dos juízes. O setor é muito investigado, está na mídia todos os dias, nos vasculham com cotonete. Só falta o IML nos investigar. Com toda essa fiscalização, não imagino que um juiz pense em trocar decisões por benefícios.
 
DINHEIRO – Ao funcionar precariamente vocês não são alvos fáceis dos achaques de fiscais?
CANTO
– Os empresários que estão no setor são tão sérios que dão uma banana para os fiscais desonestos. Se tem uma liminar, está dentro da lei e paga impostos, por que vai pagar propina a um fiscal malandro? E, se fosse nessa base, não haveria mais bons empresários nesse negócio. Mas isso pode virar se o governo demorar demais a regulamentar esse setor.
 

DINHEIRO – Mas o que aconteceu nas relações com o governo? Em 2003 o Lula parecia preparado para legalizar o jogo…
CANTO
– O Lula sempre teve interesse em regulamentar. Participei no Palácio do Planalto de uma reunião interministerial para discutir esse assunto. Criou-se um grupo de trabalho em 2003. Com o caso do Waldomiro Diniz – que nada tem a ver com o bingo, assim como o Carlinhos Cachoeira – o setor foi penalizado pelo que não fez. Seria como fechar todas as lotéricas do Brasil por causa do que aconteceu com a Gtech. Mas foi isso que fizeram com a Medida Provisória 168. Em vez de mandar um projeto para regulamentar, mandou uma MP fechando tudo. Foi um erro de avaliação do presidente.

DINHEIRO – Mas vocês têm uma bancada pró-jogo no Congresso para defender seus interesses, não têm?
CANTO
– De jeito nenhum. Se nós tivéssemos essa bancada, como se alega, não estaríamos nessa situação. Não houve tempo para montar bancada porque os bingos começaram protegidos pela lei. Fazer bancada pra quê?
 
DINHEIRO – Mas na campanha de 2002 vocês entraram firmes no financiamento. Foram grandes contribuintes da campanha do Lula, não foram?
CANTO
– Não foi dado dinheiro ao PT. Se tivéssemos dado, hoje em dia já estaríamos regulamentados.
 

DINHEIRO – Mas o governo tentou cumprir a promessa tão logo assumiu.
CANTO
– Não foi assim. Muito pelo contrário. Se houvesse o dinheiro que o tal (Rogério) Buratti (assessor do ex-ministro Antonio Palocci) mencionou, teríamos cobrado. Ele disse que o setor teria dado R$ 1 milhão em São Paulo e R$ 1 milhão no Rio para a campanha do Lula. Mas isso é mentira. Ninguém de nós conhece esse Buratti ou conversou com ele. É mentira. Não aconteceu. Ele não tem qualquer evidência dessa afirmação.

DINHEIRO – E agora, na campanha eleitoral que se aproxima, vocês vão doar?
CANTO
– Hoje, no momento, não. Mas vamos ver o que fazer a partir de agosto. O setor está acabado, totalmente esfacelado, cansado de promessas que nunca viraram realidade. E o setor vê que o Lula, sendo reeleito, vai fechar os bingos no dia seguinte. Ele não conseguiu fechar os bingos lá atrás. Eu penso que ele edita uma medida em janeiro. Nossa esperança é o Congresso, que tem sensibilidade social para perceber que há muito mais benefícios do que malefícios no jogo. (Isto É Dinheiro – Ivan Martins)