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Espanhola já está de olho no negócio do jogo em Minas

06/10/2015

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A legalização dos jogos de azar no país, embora seja um tema polêmico, voltou ao centro do debate político depois de ser cogitada como uma das alternativas do governo federal para aumentar a arrecadação e cobrir o rombo de R$ 30,5 bilhões previsto no Orçamento para 2016. De olho nessa possibilidade, a Cirsa, empresa espanhola que opera jogos de azar em diversos países, já está no Brasil, mais especificamente em Minas Gerais, pronta para iniciar suas atividades.

Já contando que a legalização pode ser aprovada ainda neste ano, o diretor geral da empresa no Brasil, Miguel Zorrilla Santesteban, garante que, se isso acontecer, a Cirsa está pronta para iniciar os negócios a partir do ano que vem. “Tudo vai depender da lei aprovada. Se me permitirem atuar em todo o país, tenho Rio de Janeiro, São Paulo e Minas. Eu, particularmente, gosto muito de Minas e gostaria de começar por aqui”, afirmou ele, que acompanha a discussão do tema.
Por enquanto, o que existe é apenas uma sinalização do governo federal. Em reunião com líderes de partidos da base, no mês passado, a presidente Dilma discutiu o assunto. A própria presidente teria se mostrado favorável, com a alegação de que brasileiros já jogam em sites estrangeiros, sem que o Brasil arrecade nada com isso. Contas preliminares indicam que a legalização traria um reforço no caixa de cerca de R$ 20 bilhões.
Casado com uma brasileira e morando há alguns anos em Paineiras, na região Central de Minas, o executivo busca apoio de políticos e entidades para mostrar os benefícios da liberação dos jogos, inclusive as máquinas caça-níqueis e as apostas esportivas, para alavancar o turismo e a economia do país.
O plano de investimentos da Cirsa no Brasil não foi revelado pelo espanhol, mas os valores são altos, já que, para a implantação de um cassino, segundo ele, são necessários US$ 4 milhões. Cada máquina de aposta custa em média US$ 20 mil.
Santesteban prevê investir em lojas físicas nos grandes centros e também reativar antigos cassinos do país, que atingiram seu ápice nos anos 30 e 40, até a proibição em 1946. Nesse cenário, Minas se destaca porque, historicamente, tem várias estâncias hidrominerais como Araxá, São Lourenço, Caxambu, Cambuquira e Poços de Caldas, que viveram o auge dos cassinos. Daí, o interesse da Cirsa em retomar o jogo nesses locais.
Segundo o executivo, 70% do público dos cassinos no Paraguai e em Dubai, nos Emirados Árabes, é de brasileiros. “Em todos os lados você encontra brasileiros. Há voos diretos do Brasil também para Las Vegas. Todas essas pessoas não vão deixar de jogar, ou jogar mais, por ter os jogos legalizados. O Brasil tem a oportunidade de que todo o dinheiro que essa gente gasta em cassinos de fora fique no Brasil”, defende.
O representante da Cirsa critica a lógica de proibição dos jogos de azar no Brasil, pois não impede a clandestinidade. Para ele, a legislação brasileira é uma “coisa curiosa”, pois o jogador pode depositar dinheiro para empresas que operam jogos online, com servidores fora do país. “A ilegalidade é permitida de alguma maneira”, criticou.
Questionado sobre um possível aumento de casos de vício entre apostadores com a legalização, o empresário disse não acreditar que isso vá acontecer. Santesteban apresenta números que interessam ao setor. Segundo ele, apenas 1% dos jogadores não conseguem se conter diante do jogo. “A ideia não é promover o jogo, porque o jogo no Brasil já existe”, afirma.
Fabricação
Máquinas. A Cirsa estuda também fabricar no Brasil máquinas de apostas, como as de caça-níqueis, para exportação. Para a empresa, seria mais uma fonte de receita e emprego. 


Propostas são ‘desenterradas’
Discussão sobre volta dos jogos de azar no país faz Câmara retomar proposições paradas há décadas
A discussão sobre a legalização dos jogos de azar no país, apresentada agora pelo governo como alternativa para engordar a arrecadação, deu fôlego a propostas que estavam praticamente enterradas havia várias décadas. Na Câmara, o presidente Eduardo Cunha (PMDB) assinou no último dia 23 o ato de instalação da Comissão Especial do Marco Regulatório dos Jogos no Brasil. O projeto que encabeça o marco é o PL 442, de 1991, de autoria do agora ex-deputado Renato Vianna (PMDB-SC). No Senado, as discussões também começaram a pedido do governo.
Em Minas, quem lidera a bandeira pela legalização dos jogos de azar é o deputado Alencar da Silveira Jr. (PDT). Há pelos menos 27 anos, ele defende a regulamentação do jogo do bicho, dos cassinos e dos bingos. “O jogo ilegal atende poucos e deixa de gerar receita e empregos no Brasil”, justifica o parlamentar.
Alencar da Silveira afirma que a legalização daria um reforço no caixa da União de R$ 22 bilhões por ano. Somente em Minas, segundo ele, seriam 50 mil novos postos de trabalho.
É com esses argumentos que o deputado organiza para o próximo dia 13 uma audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) para debater o tema. Alencar pretende reunir na mesma mesa representantes do governo de Minas, do Ministério Público, entidades ligadas à hotelaria e ao turismo e empresas interessadas na exploração da atividade. “O jogo está aí, ele existe, e nós perdemos muita receita. Vamos levar o cassino para Araxá, para São Lourenço, para as estâncias que têm atrativo natural e estrutura”.
Autor da lei que permite a volta da venda de bebida alcoólica nos estádios, Alencar da Silveira Jr. fala em ampliar a utilização dos campos de futebol, que poderiam passar a oferecer bingos e máquinas de apostas ao torcedor no intervalo das partidas. “Antigamente acontecia isso e pode acontecer de novo no futuro, perfeitamente”, garante.
Já o executivo Miguel Zorrilla Santesteban afirma que a Cirsa, empresa espanhola que explora cassinos, quer participar do processo oferecendo a deputados estaduais e federais informações sobre a experiência em outros países. “É uma pena que a legalização venha como consequência da situação econômica grave no Brasil. Deveriam ter pensando em legalizar muito antes”.
O jogo no Brasil
Proibidos. A proibição dos jogos de azar no Brasil foi estabelecida por força do Decreto 9.215, de 30 de abril de 1946, assinado pelo então presidente Eurico Gaspar Dutra, sob o argumento de que o jogo é degradante ao ser humano.
Influência. Ao longo da história, muitos sustentam que a forte influência exercida pela mulher de Dutra, Carmela Teles Leite Dutra, que tinha grande ligação com a Igreja Católica, teria sido crucial nessa decisão do presidente.
Turismo. A história dos cassinos no Brasil se confunde com o desenvolvimento turístico e econômico de cidades do Sul de Minas, como São Lourenço, Lambari, Cambuquira, Poços de Caldas, Caxambu, e de Araxá, no Alto Paranaíba. (O Tempo – Angélica Diniz – Belo Horizonte – MG)


‘A ineficiência na fiscalização impede a legalização do jogo’
André Ubaldino Chefe da Promotoria de Combate ao Crime Organizado
O senhor é contra ou a favor da legalização dos jogos no Brasil?
Sou totalmente contra esse projeto que muitos defendem apenas pensando na arrecadação.
O senhor acredita que a liberação dos jogos acabaria com a contravenção no país?
Não acho que acabaria com o jogo ilegal. O governo federal não tem expertise para administrar os jogos de azar no país. O governo não tem eficiência para fiscalizar as empresas de cassinos, os bingos e outros jogos que surgiriam com esse aval.
Como o senhor acha que deveria ser o processo em relação aos jogos?
Acredito que o correto é o poder público capacitar-se para explorar com eficiência e profissionalismo essa importante fonte de custeio, em vez de entregá-la à exploração de particulares, ou permitir que particulares concorram com as loterias estatais, ao mesmo tempo em que enfiam a mão no bolso das vítimas de sempre, trabalhador e empresários, para tapar os rombos do sistema.
Há suspeitas de que a polícia é conivente com a exploração de jogos de azar. A promotoria tem conhecimento disso? Como atua?
Não tenho conhecimento. A polícia, enquanto instituição, atua para combater o jogo ilegal. Isso deve ser caso isolado de um ou outro agente da corporação. (O Tempo – Angélica Diniz – Belo Horizonte – MG)