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Especialistas vêem aumento de viciados

03/02/2003

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Nos dois únicos ambulatórios públicos que cuidam do problema, maioria dos pacientes manifesta compulsão por bingo.
A multiplicação de bingos pelo país pode estar causando o recrudescimento de um mal tão danoso quanto a dependência química: o vício de jogar. O alerta é de profissionais que pesquisam a doença e a tratam clinicamente.
Ainda não existem levantamentos que mapeiem o transtorno com base em amostras extensas da população brasileira. Psicólogos e psiquiatras, entretanto, apontam pelo menos três indícios de que o distúrbio se alastra silenciosamente, à medida que as casas de apostas proliferam:
* Nos dois únicos ambulatórios públicos do Brasil que cuidam do problema, ambos em São Paulo, a maioria dos frequentadores manifesta compulsão por bingo, seja o tradicional, seja o eletrônico. Outros tipos de “diversão”, como o bicho, o videopôquer, os caça-níqueis, as corridas de cavalo e as cartas, seduzem uma quantidade bem menor de pacientes.
* Estudo realizado num daqueles ambulatórios -o da USP- demonstra que a procura por tratamento para o jogo patológico cresce no mesmo período em que ocorre o “boom” dos bingos.
* O Jogadores Anônimos, grupo que presta assistência a compulsivos, vivencia fenômeno idêntico.
Reúne sobretudo dependentes de bingo e se expande conforme as casas de apostas aumentam.
De acordo com os especialistas, tais dados, se não permitem tirar conclusões definitivas quanto à gravidade da situação, evidenciam que há algo de perigoso no ar. O país, advertem, corre o risco de presenciar uma explosão do vício exatamente como aconteceu em cidades norte-americanas onde os cassinos se disseminaram. Defendem, assim, que o governo encare o assunto com o rigor que reserva para o cigarro e deveria dedicar às bebidas alcoólicas.
“Várias pessoas simplesmente não sabem que o bingo pode provocar dependência. Ainda o relacionam às singelas quermesses de igreja”, afirma o psiquiatra Hermano Tavares, fundador do Amjo -o Ambulatório do Jogo Patológico e Outros Transtornos do Impulso, mantido pela USP. “Só que as coisas mudaram. Os bingos viraram um tremendo negócio. Preocupam-se com lucros, não com a saúde pública.”
“Prevenção”, resume a psicóloga Maria Paula de Magalhães Oliveira. Ela, que já coordenou o Ambulatório de Jogo Patológico da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), não reivindica o fechamento dos bingos. “A questão é legalizá-los levando em conta as ameaças que representam.”
A psicóloga sustenta que as casas deveriam informar aos clientes qual a probabilidade de perdas e ganhos ali. “Já o governo deveria promover campanhas educativas sobre o vício e limitar a abertura de bingos. É absurdo que uma mesma avenida concentre dois ou três pontos de jogo.”
O debate vem à tona justamente quando as casas se encontram sem regulamentação específica. No último dia 31 de dezembro, expiraram as licenças de funcionamento emitidas pela Caixa Econômica Federal. Como a legislação que abordava o tema também deixou de vigorar, o setor mergulhou em um “vácuo jurídico”. Espera, agora, a votação de uma nova lei no Congresso.
Promotores consideram que, devido ao “vácuo”, as casas se tornaram clandestinas e têm de cerrar as portas -inclusive em nome do combate à compulsão por jogo. Mas a Associação Brasileira de Bingos (Abrabin) pensa diferente. Argumenta que não há leis nem para normatizar nem para vetar a atividade. E classifica de descabida a discussão sobre vício. Graças a liminares, as casas continuam abertas.
O jogo patológico é uma doença reconhecida pela Organização Mundial de Saúde desde 1992. Quem sofre do mal não resiste à tentação de jogar -e, quando está jogando, não consegue parar, mesmo depois de perder muito. “A fissura do jogador compulsivo ultrapassa a do cocainômano por cocaína”, compara Daniel Fuentes, neuropsicólogo do Amjo.
Em razão da ruína financeira, uma parcela significativa dos dependentes pratica atos ilícitos na esperança de obter dinheiro. Outros cogitam o suicídio.
Pesquisas canadenses revelam que, quanto maior a oferta de jogos numa sociedade, maior a incidência do distúrbio. “É que a doença se desenvolve apenas em indivíduos propensos”, explica Hermano Tavares. “Se tais indivíduos não travarem contato com o jogo, podem nunca acusá-la”.
Nos EUA, na Inglaterra e na Austrália, estima-se que o vício atinja entre 1% e 4% da população -taxa superior às da esquizofrenia e psicose maníaco-depressiva. O diagnóstico do transtorno apóia-se, geralmente, em dez critérios definidos pela Associação Norte-Americana de Psiquiatria.
Hoje não se dispõe de remédios contra o problema. “O tratamento é psicoterápico, com resultados satisfatórios”, diz Tavares. “Os pacientes aprendem a se controlar e permanecem longe do jogo”.

Número de pacientes de ambulatório quase dobra.
Em 1998, quando surgiu, o Ambulatório do Jogo Patológico (Amjo) tratou 44 pessoas. No ano passado, o número de novos usuários saltou para 80.
A curva ascendente coincide com outro “boom”: o das casas de bingo. A Lei Zico as instituiu em julho de 1993. Dez meses depois (maio de 1994), inaugurou-se a primeira.
Em 1998, havia 150 no país. Em 2000, 980. Atualmente, já chegam a 1.100. Boa parte, 430, se localiza em São Paulo.
Pode-se associar o que ocorreu no ambulatório da USP com a explosão das casas de apostas? Um estudo realizado pela psiquiatra Silvia Sabóia Martins dá pistas de que sim.
Ela traçou o perfil de 156 pacientes que o Amjo atendeu entre janeiro de 1998 e janeiro de 2002. Eram, na maioria, brancos e católicos. Completaram o segundo grau e pertenciam à classe média.
A psiquiatra concluiu que 78,2% tinham o bingo como jogo de preferência. O videopôquer atraía apenas 8,3% dos compulsivos. Os caça-níqueis, outros 8,3%. O bicho seduzia 3,2%. As cartas, 1,3%. E as corridas de cavalo, 0,6%.
Dos 44 pacientes de 1998, 63,6% manifestavam problemas com “as bolinhas e cartelas”. Dos 71 novos frequentadores de 2001, 90% padeciam do mesmo mal. Quer dizer: à medida que a quantidade de casas aumentou, cresceu a proporção de viciados em bingo no ambulatório.
Embora trabalhasse com uma amostra pequena, Silvia a considera eloquente. “É, no mínimo, um sinal de que tais casas não devem permanecer sem controle.”
O estudo também aponta de que modo o vício se distribui entre os sexos. Em 1998, 29 homens e 15 mulheres passaram pelo Amjo. Em 2001, a relação se inverteu: 38 mulheres para 33 homens.
De novo, o bingo parece ter influência no fenômeno. “O público feminino o prefere”, argumenta a psiquiatra. “As casas do ramo revelam-se menos hostis à mulher do que o jóquei, os botecos, os clubes de carteado e outros locais de jogo.”
O levantamento demonstra, ainda, que 48% dos 156 pacientes analisados praticaram atos ilegais para financiar apostas (furtos, falsificações, fraudes contábeis etc). Uma fatia expressiva (14%) tentou o suicídio.
Versão eletrônica
No Ambulatório de Jogo Patológico da Unifesp, o quadro é similar. Pesquisa com 135 compulsivos que se trataram ali entre 1994 e 2001 indica que cerca de 90% frequentavam casas de bingo. Os demais apreciavam cavalos, cartas ou bicho.
No Jogadores Anônimos (JA), a situação se repete. “Seguramente 90% dos nossos afiliados acusam dependência de bingo”, informa Marcos, relações-públicas do grupo (ele usa pseudônimo).
A irmandade, de origem norte-americana, possuía aproximadamente cem membros no Brasil em 1998. Agora soma 500.
“A proliferação dos bingos contribuiu muito para que expandíssemos”, avalia o relações-públicas. O JA encontra-se hoje em 15 municípios: Porto Alegre, Novo Hamburgo, Florianópolis, Curitiba, São Paulo, São Caetano do Sul, Santos, Jacareí, Rio, Niterói, Vitória, Belo Horizonte, Juiz de Fora, Divinópolis e São João Del Rey.
Marcos ressalta que o grosso dos dependentes inicia-se no bingo tradicional (o “cantado”) e depois o troca pela versão eletrônica (o videobingo). “É quando de fato desenvolvem a compulsão.”
O psiquiatra Hermano Tavares, do Amjo, explica o motivo: “Um jogo revela-se tão mais viciante quanto menor o intervalo entre a aposta e o resultado”.
Cada rodada do bingo tradicional dura, em média, cinco minutos. A de videobingo, algo como dez segundos. Calcula-se que 100 mil máquinas do gênero operem no país. (AA)
CLARA, 37
“Sou gerente de uma loja e ganho R$ 2.500 por mês. Mas o patrão deposita o salário na conta de meu filho. Se der para mim, corro o risco de torrar tudo em bingo, como já fiz outras vezes. Estou tentando vencer o vício -que explodiu quando me decepcionei com meu casamento”.
SANDRO, 23
“Para jogar bingo, deixei de pagar água e luz. Cortaram as duas. Fiz tantas dívidas que perdi minha casa. Sem dinheiro, roubava os parentes e o vizinho. Muitas vezes, ensaiei me atirar sob carros que passavam. Nunca consegui. Continuo vivo, com esperança de sair do buraco”
Folha de SP – Armando Antenore