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EUA começam a implantar produtos que associam poupança a prêmios

12/02/2014

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Reportagem veiculada pelo New York Times, evidencia que a preocupação em desenvolver uma cultura de poupança não é exclusividade brasileira. A situação nos Estados Unidos, neste contexto, é vista como crítica, uma vez que as loterias consomem boa parte dos orçamentos domésticos, particularmente no segmento de baixa renda. Para se ter uma ideia, o gasto médio das famílias americanas com as loterias atinge US$ 540 anuais, cerca de US$ 100 a mais do que é gasto com leite.

Poupando e jogando com a sorte

A aquisição de títulos de capitalização como forma de desenvolver disciplina para guardar dinheiro começa a ganhar adeptos fora do Brasil. A ausência de uma cultura de poupança não é problema exclusivo dos brasileiros. Segundo reportagem do New York Times, de 15 de janeiro, o assunto tornou-se crítico entre os americanos. Citando pesquisa anual de confiança realizada pelo Employee Benefit Research Institute, que efetua levantamentos sobre as reservas feitas pelos trabalhadores com vistas à aposentadoria, o NYT revela que pouco mais de 25% têm US$ 1.000 guardados para este fim. Metade dos entrevistados admite que só possui algo em torno de US$ 2.000 para enfrentar algum tipo de emergência financeira.

A pesquisa identificou, ainda, que os americanos de baixa renda, justamente os que mais precisam poupar, são aficionados pelos jogos lotéricos, apontados como os vilões da poupança interna. Para se ter uma ideia, o gasto médio das famílias americanas com as loterias atinge US$ 540 anuais, cerca de US$ 100 a mais do que é gasto com leite ou cerveja. Entre os afro-americanos, o número é maior: eles gastam, individualmente, cinco vezes mais em bilhetes de loterias.

Breve pausa de esperança em um dia triste

Segundo o NYT, os americanos jogam na loteria porque isso representa "uma breve pausa de esperança em um dia triste". Entretanto, para os especialistas, a aquisição de um bilhete de loteria não é, necessariamente, uma compra irracional. Que outra maneira existe para uma pessoa pobre ficar rica, ou mesmo para acumular dinheiro suficiente para comprar uma casa? "Uma elevada percentagem de jogadores de baixa renda visualiza a loteria como uma forma de planejamento financeiro", diz Joanna Smith-Ramani, diretor de estratégias de escala no Fundo D2D, especializado em criar alternativas que estimulem as pessoas de baixa renda e de classe média a poupar. "É difícil para as famílias vulneráveis financeiramente economizar US$ 10 por mês. A equação é a seguinte: posso obter rendimentos insignificantes ou eu posso gastar esses mesmos US$ 10 em loterias. Se ganhar, é uma bolada", diz o consultor. Segundo ele, para essas pessoas a loteria é o único caminho para a riqueza, por oferecer condições de igualdade, independentemente da renda ou da classe social. Entretanto, quem aposta sabe que a chance de ficar rico é pequena. A questão é que, sem um bilhete de loteria, a chance é zero.

E se poupança fosse associada a uma loteria?

A ideia de poupança com prêmios data de, pelo menos 1694, quando a Grã-Bretanha, afundada em dívidas de guerra, atraiu poupadores com a possibilidade de participar do sorteio de um grande prêmio. De acordo com o NYT, produtos que associam poupança a premiações existem, de alguma forma, em pelo menos 18 países, hoje. Talvez a experiência mais relevante para os Estados Unidos seja a da Grã-Bretanha. Criado em 1956, a modalidade lá adotada, assim como o título de capitalização comercializado no Brasil, não oferece rentabilidade. Os juros incidentes vão para um fundo de premiações. Uma aplicação de 30.000 libras oferece chances de ganhar uma bolada mensal de 1.000.000 libras, mais milhares de prêmios menores – tudo livre de impostos. No 50º aniversário do programa, há reservas de 32 bilhões de libras em títulos – permitindo ao governo captar recursos a taxas menores.

Quase 40% da população da Grã-Bretanha – 23 milhões de pessoas – mantêm este tipo de aplicação. Elas são, por vezes, menos vantajosas em termos de rentabilidade. Mas esse é o ponto: embora possam não ser a escolha mais racional, ajudam as pessoas a economizar.

Mudanças na legislação

Nos Estados Unidos, os bancos não podem oferecer produtos associados a sorteios ou loterias. Os consultores da D2D trabalham para mudar as leis federais e estaduais para permitir que os bancos ofereçam um produto que associem o conceito de economia vinculada a prêmios. Mas também estão colaborando com as instituições que têm autorização para operar esse tipo de aplicação: as cooperativas de crédito. Em alguns estados, essas instituições podem operar sorteios, caso de Michigan, onde oito delas se juntaram com este fim.

Para os consultores, oferecer cartões de poupança em estilo de loteria em lojas de esquina, em bairros pobres, onde frequentemente não há bancos, poderia produzir a demanda de consumo em grande escala necessária para oferecer grandes premiações. Nesse meio tempo, programas do tipo Save to Win (guardar para ganhar, em tradução livre) estão se espalhando. O programa de Michigan é considerado um sucesso e, agora, tem imitadores: Washington, Nebraska e Carolina do Norte começaram a implantar programas similares. Outros estados trabalham para mudar suas leis. A nível federal, há projetos na Câmara e no Senado para eliminar mecanismos que proíbem a participação dos bancos neste mercado. Segundo o NYT, especialistas consideram os produtos que associam poupança com prêmios como a melhor alternativa encontrada para incentivar as pessoas de posses modestas a guardar dinheiro e atingir seus objetivos financeiros.

No Brasil, um setor em franco crescimento

Estimular a formação de poupança interna, oferecendo produtos que conjugam a possibilidade de guardar dinheiro e participar de sorteios é um dos focos de atuação das Sociedades de Capitalização associadas da Fenacap. No Brasil, o setor se consolidou e os títulos de capitalização já aparecem como o segundo na preferência dos brasileiros, atrás apenas da tradicional Caderneta de Poupança, segundo pesquisa independente realizada pelo Instituto Fractal, de São Paulo. "Muitas vezes o título de capitalização é a porta de entrada das pessoas no mercado financeiro, embora o produto não seja exclusivamente voltado para a população de baixa renda", diz Marco Antonio Barros, presidente da entidade. Segundo ele, o aspecto lúdico dos produtos, que oferecem a possibilidade concreta de realizar sonhos e projetos de vida por meio dos sorteios, é um atrativo indiscutível. A perspectiva de ganhar funciona muito bem como estímulo para quem não têm disciplina para guardar dinheiro. Hoje, existem no Brasil 34 milhões de portadores de títulos de capitalização. Em 2013, as empresas do setor distribuíram uma média de R$ 3,8 milhões por dia útil em premiações. (Portal Nacional de Seguros)