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Homens têm mais propensão à doença e demoram para se tratar

04/02/2002

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Eles são mais inteligentes. Muitas vezes, superinteligentes. Também são pessoas dinâmicas, criativas e ousadas. Mas nem só de virtudes é feito o perfil dos “dependentes” de jogos de azar como bingo, loterias, videopôquer, corrida de cavalos e cassinos. Eles têm deficiências na capacidade de planejamento, como comprovou um estudo do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas.
O vício em jogo com apostas em dinheiro é uma doença, uma forma de dependência. Na linguagem médica, o paciente é chamado de jogador patológico. O problema se caracteriza pelo domínio que o jogo exerce sobre a vida da pessoa. Ela deixa de cumprir compromissos para poder jogar, perde economias que juntou durante anos e faz mais e mais dívidas.
Numa única noite jogando videopôquer, o arquiteto Marcos (nome fictício), de 52 anos, estourou os limites de três cartões de crédito que somavam US$ 10 mil. “Só perdia dinheiro, nunca tinha reservas e estava sempre devendo”, conta. Ele não joga há pouco mais de três anos e participa de reuniões do Jogadores Anônimos, um grupo de auto-ajuda que segue o modelo dos Alcóolicos Anônimos (AA).
Detalhes -A pesquisa do IPq avaliou o funcionamento do cérebro de 20 jogadores patológicos, comparando os resultados com os de outras 20 pessoas que não sofrem do problema. Ao todo, 90% dos jogadores apresentaram deficiências na capacidade de planejamento.
Para planejar algo, uma pessoa passa por três fases: a visão geral do problema, a organização das ações necessárias para enfrentá-lo e o detalhamento delas. “O jogador vai direto para a terceira fase, já pensa nos detalhes da questão”, explica o neuropsicólogo Daniel Fuentes, do Ambulatório do Jogo Patológico (Amjo) do IPq.
Transpondo essa observação para a prática, vale tomar como exemplo uma situação corriqueira de trânsito: um acidente na pista. O jogador patológico só consegue perceber um acidente que esteja bem próximo. Se estiver mais distante, o jogador não nota, não desvia nem diminui a velocidade com antecedência.
A deficiência que o jogador patológico tem na capacidade de planejamento está relacionada a um mau processamento mental na região frontal do cérebro.
Mais precisamente nas regiões chamadas pré e órbito-frontais. A próxima etapa da pesquisa vai verificar se há alterações estruturais ou químicas nessas regiões do cérebro do jogador patológico. Essa investigação será feita por meio de exames de ressonância magnética de alta resolução.
“Conhecer a estrutura do cérebro do jogador patológico é o caminho para o desenvolvimento, no futuro, de remédios que tratem a doença”, diz o neuropsicólogo.
Em geral, os jogadores patológicos são mais inteligentes do que as outras pessoas. No grupo estudado, 20% dos jogadores eram superinteligentes; eles tinham coeficiente de inteligência (QI) superior a 120. O QI normal fica entre 90 e 110.
Outro ponto que merece destaque é a tendência que os jogadores patológicos têm para serem líderes. Seja no trabalho, no bairro ou no time de futebol, sempre ocupam posições de destaque. “São perfeccionistas, sistemáticos e rígidos com os filhos”, afirma Fuentes.
De acordo com a pesquisa, o jogador patológico é mais rápido do que as outras pessoas para responder a estímulos simples. Mas em questões mais complexas, o jogador perde velocidade e erra mais ao tentar distinguir o certo do errado.
Sem munição – Fosse alguns meses atrás, Paula (nome fictício), de 36 anos, não estaria com brincos combinando com a blusa azul nem com um novo corte de cabelo. Dependente do jogo por três anos, ela está abstinente há quatro meses. O jogo a fazia trocar os gastos com a vaidade pelas cartelas de bingo. “Deixava até de retocar a tintura do cabelo para gastar no jogo.” Paula é gerente de uma loja de roupas.
Gastava tudo o que tinha, fazia dívidas, mentia para conseguir dinheiro emprestado, jogava de novo e só aumentava o volume de contas a pagar. Até que o basta veio do patrão, que percebeu a doença. Ele decidiu que passaria a pagar o salário de Paula só para o filho dela, um rapaz de 19 anos.
“Significa tirar a munição das mãos do jogador. A munição é o dinheiro”, diz Paula, que também participa do grupo Jogadores Anônimos.
Hoje, é o filho de Paula quem controla as finanças da casa. Ele dá para a mãe a exata quantia de dinheiro de que ela precisa para passar o dia. Nada de talão de cheques, cartão de banco ou de crédito dentro da bolsa de Paula.
Só mesmo o dinheiro que o filho libera. “E presto contas para ele de tudo o que gasto”, completa Paula.
Atividades simples como sair para tomar chope se transformam num tremendo desafio para quem está tentando se livrar do jogo. Foi assim com Paula quando ela saiu com uma amiga. Na carteira, levava R$ 50. Fez de tudo para gastar todo o dinheiro no bar, mas não conseguiu. Havia um bingo perto dali e Paula temia quebrar a abstinência. “Saí do bar com R$ 30. Cheguei a ir até a porta do bingo, mas não entrei.” Paula precisava gastar os R$ 30 de qualquer maneira. “Decidi pegar um táxi, mas como minha casa era muito perto fiz o motorista rodar até a corrida dar os R$ 30.”
A doença do jogador patológico tem uma dinâmica muito parecida com a dependência de álcool ou drogas, até mesmo com síndrome de abstinência.
Quando impedido de jogar, o doente chega a ter sinais orgânicos como suor excessivo e tremores. “A dificuldade que essas pessoas têm para resistir ao jogo é muito grande”, diz Fuentes.
O Estado de S. Paulo – SP – Luciana Miranda