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Igor Trafane construiu um império de negócios relacionados ao pôquer

08/07/2019

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O empresário Igor Trafane no H2 Club, em Pinheiros: investimento de 3 milhões de reais em sua nova sede (Alexandre Battibugli/Veja SP)

As cadeiras têm encosto anatômico, conforto bem-vindo para o jogador ficar sentado por uma hora, duração média de uma partida de pôquer. Maior espaço dedicado à atividade na capital, o H2 Club, na Rua Henrique Schaumann, em Pinheiros, possui 210 mobiliários do tipo, mas há tempos faltam lugares disponíveis. Para suprir a demanda, o grupo vai se mudar em setembro para uma casa maior, a 250 metros de distância da original, com 430 assentos distribuídos por 2 000 metros quadrados. O investimento será de 3 milhões de reais, valor que o H2 fatura em um trimestre, segundo estimativas do mercado. No comando dessa operação está o ex-jogador profissional Igor Trafane, de 47 anos, mais conhecido nesse meio como Federal. “A nova unidade deve aumentar nosso faturamento em 50%”, diz.

Mesmo em tempos de crise, o mercado do pôquer na capital está perto de “quebrar a banca”. Estima-se que 700 000 paulistanos pratiquem o jogo de cartas em 100 diferentes pontos. Metade destes são locais como tabacarias, restaurantes e até condomínios particulares. A outra, de clubes especializados. No total, a atividade movimenta quase 40 milhões de reais em sua versão ao vivo e o mesmo montante na variante on-line.

Esse cenário de prosperidade parece um blefe se comparado ao de cinco anos atrás, quando o pôquer era literalmente um caso de polícia. A última ação aqui ocorreu em março de 2015: a equipe da Delegacia Especializada em Atendimento ao Turista (Deatur) fechou o H2 por dois dias, após uma denúncia de um grupo de estrangeiros que perdeu cerca de 100 000 reais por lá. “Foi bom porque o Instituto de Criminalística de São Paulo realizou um laudo pericial e concluiu o óbvio: pôquer depende de habilidade e não pode ser enquadrado na categoria de jogo de azar”, afirma Trafane.

Brazilian Series of Poker, no Sheraton WTC: mais de 3 000 participantes (Divulgação/Divulgação)

Quem costuma se entreter com o pôquer concorda com esse raciocínio. As regras básicas do Texas Hold’em, a principal modalidade, são tão complicadas que renderam um e-book com 27 páginas. “A pessoa pode ter as melhores cartas possíveis, e, mesmo assim, perder a partida caso seu oponente blefe e a convença de que tem na mão algo ainda superior”, diz Cristiano Torezzan, professor de fundamentos do poker, disciplina eletiva da Faculdade de Ciências do Esporte da Unicamp desde 2013. O curso, com carga horária total de trinta horas (duas por semana), aplica a lógica do esporte como forma de aprimorar técnicas de negociação, além de tomadas de decisão.

Há uma fila de espera de 170 alunos, especialmente graças à procura dos estudantes de administração e ciências aplicadas, para as 130 vagas. “Faz quase uma década que classes de Harvard e MIT oferecem cursos semelhantes”, explica o professor, entusiasta do jogo que só aposta cerveja e pizzas com amigos. Segundo ele, apenas 10% dos jogadores conseguem lucrar. Para não sair no prejuízo, ele recomenda separar uma verba específica para inscrições em torneios ou partidas de cash games, em que os participantes compram as fichas. Na prática, funciona como planejar um valor no orçamento para curtir uma balada ou um hobby. “Há tantas lendas sobre gente que perde bens, além de histórico de batidas policiais, que fiz uma pesquisa antes de lançar o curso para saber se seria preso”, diz.

Aqui no Brasil, ir ou não para a cadeia vai depender da interpretação de um delegado ou um juiz sobre o que é um jogo de azar. O artigo 50 da Lei de Contravenções Penais pune com prisão de até um ano e multa de até 200 000 reais quem “explora jogos em que o ganho e a perda dependem exclusiva ou principalmente da sorte”. Mas não explica que tipo de entretenimento se enquadra nessa lei. Em 2010, a Associação Internacional dos Esportes da Mente (IMSA) reconheceu o pôquer como esporte mental, integrando o time do xadrez, bridge e damas.

Jogador Neymar é um dos famosos no Texas Hold’em (Divulgação/Divulgação)

Além de ter a maior casa do jogo no país, Federal organiza o Brazilian Series of Poker (BSOP), torneio que reúne mais de 3 000 participantes em cada uma de suas seis etapas no Brasil. É o segundo maior campeonato do planeta, atrás apenas do World Series of Poker (WSOP), mundial que ocorre entre junho e julho em Las Vegas, nos EUA, com mais de 9 000 participantes. Em 2013, o então ministro do esporte, Aldo Rebelo, esteve presente na abertura do BSOP Millions, aqui na capital, ao lado de Ronaldo Fenômeno, Maurren Maggi e Fernando Scherer, fãs do recém-considerado esporte da mente.

O poderoso chefão possui doze negócios — de sites e revistas a agência de turismo, todos relacionados ao jogo — e distribui 60 milhões de reais por ano em prêmios — “com retenção de imposto de renda”, como gosta de ressaltar. Em 2019, o império deve atingir um faturamento de aproximadamente 200 milhões de reais. “Cheguei a trabalhar catorze horas por dia durante um período e enfrentei muitos obstáculos para construir essa história”, afirma.

A saga de Federal no pôquer teve início em 2006. Ele havia acabado de vender o Centro Cultural Americano, uma rede de franquias de oitenta escolas de inglês que construiu em parceria com sua tia paterna, Rita de Cássia Trafane. Quem comprou a marca foi o empresário Carlos Wizard Martins, por estimados 2,5 milhões de dólares. Federal passou, então, a dedicar-se ao hobby que aprendera nos tempos de estudante de inglês na Universidade de Delaware, nos Estados Unidos, em 1994. Filho de um geólogo e uma paisagista, ele já demonstrava habilidade com as cartas desde a adolescência, ao vencer campeonatos de truco em sua cidade natal, São João da Boa Vista, a 219 quilômetros da capital. “Meu pai inicialmente ficou preocupado quando comecei nessa carreira, pois havia investido bastante em minha educação e não queria me ver inserido em um possível mundo de contravenções”, lembra o bacharel em administração pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

Em 2007, alcançou a melhor colocação de um brasileiro até então no WSOP, um 217º lugar. Aliás, o apelido veio dessa época. Ao disputar ao vivo um torneio com parceiros que só conhecia por meio on-line, pregou uma peça na turma ao se apresentar como um policial federal e dar voz de prisão a todos. Nesses dois anos como jogador profissional, ganhou cerca de 400 000 dólares. “Percebi que o dinheiro não estava nos torneios, mas em torno deles, em um mercado gigantesco. Não entendia como o Brasil podia ficar de fora”, conta. Em 2008, mudou-se para São Paulo, onde decidiu se tornar um “cartola do pôquer” e batalhar na Justiça. No ano seguinte, criou a Confederação Brasileira de Texas Hold’em (CBTH) e contratou um dos maiores juristas do país, Miguel Reale Junior.

Técnico de futebol Luxemburgo, no Texas Hold’em (Divulgação/Divulgação)

O ex-ministro da Justiça fez um estudo e concluiu que o carteado não se enquadra no conceito de contravenção penal. Ainda assim, Trafane estima que a polícia tenha fechado um terço dos campeonatos promovidos por ele entre 2009 e 2010. “Os policiais chegavam armados com máscaras e metralhadoras, parecia filme”, relembra. “Eu perguntava onde a lei dizia que aquilo era jogo de azar.” E a CBTH reabria os pontos via ações na Justiça.

Os próprios concorrentes reconhecem o trabalho de Federal pela causa. “Ele foi fundamental”, diz o jornalista Julio Gomes, um dos sócios da HomeGame Club, aberto há três meses na Lapa. Para inaugurar a casa sem enfrentar os antigos problemas, o empresário diz que recebeu orientações da equipe da Federação Paulista e da Confederação Brasileira de Texas Hold’em, lideradas pelos sócios de Federal no H2, respectivamente João Marcelo Dornellas e Uelton Lima. “Para evitar a concorrência com o H2, viso a um público mais recreativo, e não os profissionais”, afirma.

Nem todos são tão magnânimos, no entanto. “Federal tenta fazer do pôquer um monopólio e joga sujo para isso”, acusa Moisés Luís Branco de Moraes, sócio da Kings Eventos, criada há cinco anos, que organiza o campeonato nacional Kings Series of Poker (KSOP), o principal concorrente do BSOP. Sobre a briga mais recente, diz que logo após ele anunciar um torneio em Camboriú (SC), com distribuição de 7 milhões de reais em prêmios, entre julho e agosto, Federal surgiu com o BSOP Winter Millions, que uma semana antes vai oferecer 9 milhões de reais em São Paulo. “Ele fez algo semelhante comigo”, declara João Carlos de Paula Jr, o Juninho, um dos sócios da Sirius Club, nos Jardins.

Apresentador Serginho Groisman, no Texas Hold’em (Divulgação/Divulgação)

Ex-funcionário de Federal, ele abriu seu clube em março anunciando um torneio com premiação de 40 000 reais às segundas. Então, o H2 anunciou um idêntico, com recompensa de 50 000 reais. “Dou minha penúltima gota de sangue para estimular a abertura de negócios no pôquer, mas dou minha última gota para que meus empreendimentos sigam líderes”, diz o mandachuva.

Estrategista e carismático, Federal se alia aos grandes nomes da área. Um eles é André Akkari, que virou celebridade do esporte ao levar o prêmio máximo de 675 117 dólares no mundial de 2011. Os dois são sócios no curso on-line do craque, que já formou mais de 5 000 alunos nos últimos cinco anos, por preços entre 880 e 1 580 reais. “Desde o início percebi que tinha talento e desfiz uma sociedade para investir no jogo”, conta o paulistano do Tatuapé. Em 2006, ele deixou uma empresa de informática ao perceber que em três horas conseguia 500 dólares, o mesmo que ganhava no mês.

Croqui da nova unidade do H2 na Rua Henrique Schaumann, com inauguração prevista para setembro (Divulgação/Divulgação)

Outro raro caso de sucesso é o casal Rafa Moraes e Lauriê Tournier, juntos e profissionais desde 2010. Com os ganhos, bancam uma casa no Planalto Paulista e um cotidiano de classe média alta. “Um jogador rentável lucra em média 20 000 reais por mês”, diz Rafa. Ela é uma das raras mulheres no ramo (estima-se serem apenas 2% dos praticantes). “Mais um preconceito da sociedade”, ela acredita. Em 2016, Federal criou o BSOP Ladies, para estimular a presença feminina. “Mulheres e homens têm o mesmo potencial, claro, mas algumas se sentem mais confortáveis em eventos especiais”, ele avalia. As praticantes contam que normalmente são respeitadas, mas de vez em quando enfrentam um engraçadinho. “Já ouvi na mesa piadas como ‘não dá para perder de mulher’ ou ‘vou deixar você ganhar se sair comigo’”, diz Fernanda Lopes, que trabalha com marketing digital. “Isso dá ainda mais vontade de vencer, e a melhor resposta é bater o engraçadinho no jogo”, completa. Elas percebem que cada vez mais mulheres estão aderindo à modalidade. “Somos pacientes, e o público só tende a crescer”, acredita Roberta Cantelli, fã do carteado.

O campeão mundial André Akkari: destaque internacional e dinheiro on-line (Divulgação/Divulgação)

Nesse mercado em expansão, Federal sonha com um oásis: a liberação dos jogos. “Um governo jamais deveria interferir em questões como minha diversão, como gasto meu dinheiro ou meus gostos sexuais”, diz o empresário, casado há onze anos com Isabella Trafane, ex-funcionária de sua escola de inglês, e pai de Enzo, 7, e Nina, 2. A família mora em um apartamento nos Jardins. “Meu passatempo é ir a parque de diversões com as crianças e jantares românticos. Abri mão de hobbies que todos curtem. Por exemplo, não me lembro da última vez em que fui ao cinema e nunca vi uma série da Netflix.” Ele conta que ainda há gente que torce o nariz ao ouvir a palavra pôquer, mas o pior já passou. “Tudo o que fiz e enfrentei foi para que pudesse jogar em paz”, conclui.

Linguagem própria

All in: apostar todas as fichas em uma jogada, é tudo ou nada.

Bad beat: dar azar no jogo.

Rafael Moraes e Lauriê Tournier: destaque internacional (Divulgação/Divulgação)

Donkey: jogador ruim.

GL: abreviação de “good luck”. Usado para desejar boa sorte aos colegas.

Grindar: maratonar, jogar durante várias horas.

Nuts: estar com uma “boa mão”.

Rebuy: comprar mais fichas após ser eliminado da mesa.

(Veja São Paulo – Ana Carolina Soares – Edição nº 2642)