Home Jogo Responsável Jogadores compulsivos e mulheres apaixonadas são burros????
< Voltar

Jogadores compulsivos e mulheres apaixonadas são burros????

17/05/2002

Compartilhe

Alberto Goldin*
Naquela tarde daria sua última aula. Decidiu se aposentar e, para dizer a verdade, o velho professor de psicanálise, sábio e firme como uma rocha, estava emocionado. Essa foi a razão pela qual antigos discípulos (inclusive eu) nos reunimos para ouvi-lo. O tema, por motivos que no início não entendemos, surgiu na hora: foi a polêmica discussão sobre “querer” e “desejar”.
– Vocês pensam que sempre desejamos o que queremos?
Com essa pergunta, o mestre abriu o debate. Surpreendentemente, disse que se as pessoas desejassem a mesma coisa que quisessem, a humanidade seria mais feliz. Como era óbvio para os presentes, a situação era oposta: a maioria dos humanos vivia insatisfeita.
– Sabem por quê? – perguntou o ancião. Porque queremos com a consciência e desejamos com o inconsciente.
Platéia em silêncio. A consciência quer? O inconsciente deseja?
– Um exemplo, com urgência! – pediu o professor.
Um terapeuta citou a história de um ex-cliente, jogador que tinha perdido a fortuna em cassinos de Las Vegas.
– Excelente! – vibrou o mestre. O homem que vai a um cassino e joga, quer ganhar, busca dinheiro fácil, só precisa que o destino privilegie seus números favoritos. Porém, a realidade é que sempre perde, e sabe que se continuar jogando vai perder mais, mas não consegue parar. Por isso decidimos que seu “desejo” inconsciente, o motor do seu comportamento, é perder tudo, às vezes a própria vida. O jogo compulsivo é um motivo freqüente de suicídio… Porém, hoje, não precisamos ser tão dramáticos.
Novo silêncio na sala. Eu acabara de receber a correspondência do jornal, de modo que, confesso que um pouco nervoso, abri o primeiro envelope. Por acaso, era a carta da Regina e a li pausadamente. Quando terminei, o professor fez um enigmático gesto de aprovação. Novo silêncio e, por fim, retomou a palavra.
“Regina começa sua carta contando que foi a um lugar onde conheceu um homem interessante. Encontram-se, amam-se, saem, cria-se uma química envolvente. Até aí, todo mundo está feliz. Novos encontros, ela começa unilateralmente a se envolver.”
“Sem dúvida, é um sentimento perigoso, porque Regina, sem aviso prévio, modifica o projeto original. Ela admite que começou como uma simples aventura sexual: queria e desejava experiências fortes, noites intensas. Durante um tempo, o “querer” da sua consciência coincide com o “desejar” inconsciente. Até aqui, razão e emoção caminham paralelamente. Queria uma aventura e a realiza sem culpa nem conflito. A relação continua.”
“É possível que ela emitisse sinais que a revelavam apaixonada. A partir da modificação dos seus planos, frustra-se e, sem querer, induz o rapaz a abandoná-la. “Não é inteligente amar sem ser correspondido; é uma fonte de frustração e angústia. Mas é um conselho inútil. Só a razão entende razões. O desejo, por ser inconsciente, é às vezes louco, quando não burro. Por isso, os jogadores compulsivos e as mulheres apaixonadas e não correspondidas perdem com tanta freqüência.”
A discussão durou um bom tempo. Quando terminou, despediu-se como de costume. “Até a próxima quinta-feira”, entendemos. Ele “queria” se aposentar, mas “desejava” continuar as aulas.
ALBERTO GOLDIN é psicanalista e autor de “Amores freudianos” (Nova Fronteira) e “Histórias de amor e sexo”.