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Jogadores compulsivos: Mulheres em busca de ajuda.

16/08/2005

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A quantidade de mulheres que hoje procuram associações anônimas de jogadores compulsivos patológicos tem crescido significativamente desde 2003.
‘‘Não podemos garantir, com isso, que tenha aumentado também o número de jogadoras compulsivas, mas que pelo menos as que existem resolveram abrir a concha, buscando ajuda para se tratar desse vício arrebatador’’, explica Mariana (nome fictício), ex-jogadora patológica, que hoje integra a Associação de Jogadores Anônimos da Baixada Santista (Jabs).
Com duas sedes na região, uma em Santos e outra em São Vicente (recém-inaugurada), o Jabs promove reuniões duas vezes por semana em cada unidade, para auxiliar pessoas portadoras da doença que buscam ajuda. ‘‘Notamos que a maioria do nosso grupo era formada por homens. Hoje, isso já não retrata a realidade. As mulheres já se igualam ao sexo oposto’’, garante Mariana.
Também para o psicólogo Eustázio Alves Pereira Filho, que é especializado em tratamento de compulsões, atualmente há mesmo mais mulheres se tratando. ‘‘Acredito que tenha a ver com o acesso à informação e até com a emancipação feminina’’.
Ainda segundo o psicólogo, apesar de os bingos e os videobingos não serem o único tipo de jogo que atrai os compulsivos patológicos, a expansão desse tipo de setor, sem dúvida, para ele, envolveu mais as mulheres, principalmente as mais velhas.
‘‘É claro que há os jogadores compulsivos de corridas de cavalos, de máquinas eletrônicas de rua (bares, por exemplo), de jogos de cartas e até de raspadinha, mas as mulheres se concentram mais nos bingos e nos videobingos’’, garante Pereira Filho.
Recuperação
Os trabalhos no Jabs — associação que é vinculada aos Jogadores Anônimos do Estado e do País (cuja matriz fica no Rio de Janeiro) — auxiliam na recuperação dos patológicos, mas não na cura definitiva. ‘‘Simplesmente por que não existe cura definitiva. O que existe é um controle da situação, mas para isso é preciso se policiar o tempo todo’’, assegura a ex-jogadora compulsiva Mariana.
E mesmo para garantir esse controle é difícil. ‘‘É preciso querer muito. Ter vontade de mudar de vida’’, emenda Mariana, que teve sérios problemas com jogo há cerca de cinco anos. ‘‘Estava me sentindo sozinha e me convidaram para jogar em um videobingo uma vez’’.
A ex-compulsiva recorda que ganhou uma bolada (cerca de R$ 1 mil) já na estréia.
‘‘Que ilusão’’! observou Mariana. ‘‘Você ganha uma vez, depois outra e acha que vai ganhar para sempre’’. É nesse ponto que os problemas começam.
‘‘Você acaba agindo como uma viciada em qualquer outra coisa, como em drogas e álcool. Precisa de dinheiro para alimentar seu vício. Acaba se afastando de tudo e de todos’’. Mariana, que hoje tem 50 anos de idade, recorda dos absurdos que fazia como ir jogar às 6 horas ou quando alguém da sua família ia buscá-la em plena madrugada em alguma casa de bingo.
Sua luz no fim do túnel apareceu graças à família, que não aguentava mais a alienação de Mariana. ‘‘Meu marido e minha filha mais velha descobriram o Jabs e me levaram para uma sessão. Fui levada por eles e resolvi ficar por minha conta’’. Apesar dos esforços, Mariana conta que teve, ao longo desse tempo, três recaídas.
‘‘Não é nada fácil, mas agora me sinto mais segura para controlar a situação’’. Mariana explica que a ajuda somente da família é limitada. ‘‘Por isso é importante entrar para grupos como o do Jabs. Isso porque eles são compostos por gente que sofreu o que nós sofremos. Falamos, portanto, a mesma língua’’.
Serviço
Quem precisa de ajuda e quiser entrar em contato com o Jabs, pode fazê-lo em Santos, na Rua Vergueiro Steidel, 243, na Aparecida, ou em São Vicente, na Avenida Antônio Emmerick, 292, no Centro.
Em Santos, o local funciona nas terças e quintas-feiras, das 20 às 22 horas. Já em São Vicente, as sessões são nas quartas-feiras (das 20 às 22 horas) e aos sábados das 18 às 20 horas. O telefone para mais informações é o 3284-1433.
O site da associação nacional é www.jogadoresanonimos.org e o e-mail do Jabs é jogadoresaninimosbs@hotmail.com.
Lei de SP obriga bingos a alertar sobre vício.
Na semana passada o prefeito de São Paulo, José Serra (PSDB), baixou um decreto — já publicado no Diário Oficial de São Paulo — obrigando todas as casas de bingo da Capital a colocarem uma placa de advertência sobre a ‘‘o perigo de vício’’ dos jogos, na entrada e no interior dos estabelecimentos.
Segundo o decreto, ‘‘a prática do jogo pode viciar e provocar problemas emocionais e financeiros’’. Os bingos que desrespeitarem a nova lei poderão ser multados em R$ 16.069,00. Em caso de reincidência, o valor é o mesmo da multa inicial.
Hall
O decreto determina que as placas, contendo o aviso, devem ficar em local visível e medir 1,5 metro por 1 metro. A interna deve ser instalada no hall de entrada, medindo 0,4 metro por 0,7 metro.
Segundo a Assessoria de Imprensa da Associação Brasileira dos Bingos (Abrabin), as casas paulistanas teriam 90 dias para se adequar ao decreto, mas de acordo com a Prefeitura de São Paulo, a nova lei já está valendo desde a publicação da mesma no D.O. da Capital (último dia 9).
‘Não se pode desistir nunca’, diz ex-apostador.

Apostar em cavalos parecia uma coisa inocente para o mestre de manutenção elétrica João (nome fictício), hoje com 51 anos. Por causa de uma compulsão em apostar no desempenho dos belos animais em uma pista de corrida, ele teve muitos problemas familiares e financeiros.

‘‘Tinha 21 anos quando apostei em uma corrida de cavalos pela primeira vez e nunca imaginei que aquilo se transformaria em um pesadelo’’, afirma o ex-jogador, que controla sua obsessão há dois anos e dois meses.

Levado a uma casa de apostas em Santos por um gerente de um dos empregos que teve, João garante que só perdeu dinheiro na vida por causa do jogo. ‘‘Esse gerente não era compulsivo. Ele apostava eventualmente e, quando não tinha dinheiro, não ia e acabou. Já não era o que acontecia comigo’’.

O mestre de manutenção recorda de uma empreitada histórica, quando conseguiu perder somente em um dia cerca de R$ 2 mil. ‘‘Foram anos de dívidas, mentiras, empréstimos com agiotas e com financeiras’’.

Orações
João afirma que chegou a vender um carro para apostar em cavalos. ‘‘Inventava uma desculpa para a família e ia até o Jockey Club de São Paulo’’. Mas não demorou para sua mulher desconfiar de que algo estava errado. ‘‘Ela me levou para um grupo de orações da Igreja São Judas, o que ajudou bastante, mas aí apareceram aquelas máquinas eletrônicas (tipo de bares e padarias)’’.

No início, João só apostava moedas e não percebeu grandes perdas financeiras.

‘‘Depois vieram as de notas. Foi a partir desse ponto que a coisa complicou’’, recorda o mestre de manutenção, que não resistia a apostas simples e enfiava compulsivamente notas de R$ 50,00 nas máquinas (para poder ficar o dia todo apostando).

O resultado do descontrole foi mais um carro queimado no jogo (desta vez um Gol zero quilômetro).

‘‘Disse para minha mulher que o carro estava com defeito e que precisava vendê-lo’’. O desespero em arrumar dinheiro fez João se livrar do veículo no comércio de rua, com os catarinas, que providenciaram na hora da venda o dinheiro que o ex-jogador precisava para apostar nas maquininhas.

‘‘Minha família percebeu minha situação e começou a buscar ajuda para mim até na internet. Foi quando conhecemos os Jogadores Anônimos (Jabs)’’. Atualmente, João garante estar controlando no vício. ‘‘Sempre que posso vou às reuniões. O importante é a frequência. Não se pode desistir nunca’’.

Primeiro sintoma é negar a dependência.

O primeiro sintoma que um jogador compulsivo manifesta é a negação do problema. ‘‘O que se encontra em estado patológico tem dificuldade de assumir sua condição. Ele custa a entender que não consegue conter sua compulsão, a vontade forte e irracional de jogar’’, explica o psicólogo Eustázio Alves Pereira Filho, que é especializado em tratamentos e prevenções compulsivas.
Os jogadores patológicos — já reconhecidos inclusive pela Organização Mundial de Saúde (OMS) — são movidos psicologicamente por um transtorno obsessivo, ou seja, por uma idéia fixa e repetitiva. ‘‘Enquanto ele não encontra uma válvula de escape para essa angústia, gerada pelo pensamento obsessivo, o indivíduo não sossega’’, observa Pereira Filho.
Ou seja, o jogo — nesse caso — torna-se a válvula de escape do patológico. ‘‘Como o mecanismo acaba suavizando sua angústia, a pessoa passa a viver em função daquilo’’. O psicólogo lembra que essas alterações psíquicas são acompanhadas por descompensações químicas.
‘‘Há uma substância no corpo chamada dopamina, conceituada como um neurotransmissor, que provoca uma sensação agradável, compensadora e motivadora.
Quando sua distribuição no corpo está desequilibrada, por diversos fatores, inclusive emocionais, ocorre a descompensação química’’.
Sem cura
O especialista comenta que há três tipos básicos de tratamento para controlar a compulsão, que não tem cura: o psiquiátrico, o medicamentoso e o cognitivo comportamental (pensamento racional). ‘‘Eles podem ser aplicados de forma associada ou não. Depende muito de cada paciente’’, afirma Pereira Filho.
O objetivo da terapia cognitiva comportamental, por exemplo, é fazer com que o paciente tenha mais recursos para ajudar a controlar a compulsão.
‘‘E isso ocorre por meio de conversas, exposições de casos e interpretações’’. Para o psicólogo esse trabalho é muito bem sucedido em grupos de anônimos, como o de Jogadores Anônimos da Baixada Santista (Jabs).

Quanto à influência de fatores genéticos, Pereira Filho é enfático: ‘‘Realmente, podem existir predisposições genéticas para alguns tipos de compulsão, mas a doença só se manifesta por interferência do meio’’.

A Tribuna de Santos (SP) – Valéria Malzone