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Jogadores ganham alternativa de tratamento

14/02/2003

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Culpa, remorso, arrependimento e autopiedade são os sentimentos mais comuns entre os jogadores compulsivos. É o que apontam os frequentadores e coordenadores do Grupo de Jogadores Anônimos da Baixada Santista (Jabs) — uma entidade com sede em Santos que, como os Alcóolicos Anônimos (AA), reúne 38 pessoas que têm o jogo como vício.
Entre os frequentadores do Jabs, há os que apostam em corrida de cavalos e principalmente os frequentadores de bingos — proibidos desde o dia 31 de dezembro. No entanto, fazem parte dos que buscam tratamento os apostadores da Loto, da Megasena e até do velho e popular (porém, ilegal) jogo do bicho.
Participantes do grupo acreditam que o número de compulsivos seja muito maior dos que os 38 membros do Jabs — imagina-se que poucos procuram ajuda.
Para descobrir se a pessoa é um jogador compulsivo, o grupo a submete a um teste com 20 perguntas (ver quadro). Caso o indivíduo responda sim para sete delas, é considerado viciado.
De acordo com a filosofia do Jabs, o primeiro passo para quem quer parar de jogar é reconhecer que possui uma doença progressiva e considerada incurável. Outro passo fundamental é querer se recuperar.
Conforme o coordenador do grupo, que prefere o anonimato, os compulsivos jogam pela obrigação imposta por seu próprio íntimo. Ele explica que os jogadores são estimulados pela dopamina — substância que atua no sistema nervoso. ‘‘Quanto mais você ganha, mais quer jogar’’.
Outra característica do jogador compulsivo é a mentira. ‘‘Se contássemos a verdade iríamos expor um defeito de caráter que não gostaríamos que ninguém soubesse’’.
Para saldar dívidas de jogo, o coordenador conta que os compulsivos emitem cheque sem fundo e falsificados, desviam verbas de empresas, tiram dinheiro da poupança dos filhos e movimentam a conta corrente da mulher sem a autorização.
‘‘Já ouvi até relatos de caixa de banco que desviou dinheiro da conta de outras pessoas para poder jogar, com a intenção de devolver depois’’.
Para ele, o que leva um jogador a tomar consciência é a perda material. ‘‘É nesse momento que costumamos nos questionar: ‘O que foi que aconteceu comigo? E com aquele projeto que eu fiz quando era jovem?’’’
Conforme o coordenador, depois de dois anos de abstinência, a pessoa passa a ter um pouco mais de confiança. Ele conta que o programa faz diminuir a ansiedade, o orgulho, e o egoísmo. ‘‘Hoje, não sinto vontade de jogar. Mas não sei o dia de amanhã’’.
Um dos lemas do grupo é o seguinte: ‘‘Não importa o quão distante o jogador está da última aposta. É preciso ter em mente que se está sempre perto da próxima’’.
Ajuda
O Grupo dos Jogadores Anônimos da Baixada Santista (Jabs), formado em 4 de maio de 2002, oferece um programa de recuperação que propõe o autocontrole.
Durante os encontros, são estabelecidas dinâmicas de grupo. ‘‘Enquanto um está depondo sobre o seu sucesso, o outro está dando conta do seu fracasso’’, explica o coordenador do grupo.
As reuniões acontecem na Rua Paraíba, 110. O grupo se encontra duas vezes por semana: às terças-feiras, das 19 às 21, e aos sábados, das 17 às 19h15. O Jabs também possui uma página na Internet onde acontecem reuniões virtuais às terças, quintas e domingos. O endereço do site é www.jogadores anonimos.org
Paralelo ao Jabs, existe o Jog-Anon, grupo que ajuda os familiares dos jogadores compulsivos. As reuniões acontecem aos sábados, no mesmo local e horário, mas em salas diferentes.

Saiba se você é um jogador compulsivo
1) Você desperdiça seu tempo de trabalho por causa do jogo?
2) Tem causado infelicidade na vida familiar?
3) Sua reputação está afetada devido ao jogo?
4) Já sentiu alguma vez remorso após ter jogado?
5) Jogou alguma vez por dinheiro para pagar as suas dívidas?
6) O jogo causou alguma diminuição na sua ambição, capacidade e eficiência?
7) Após ter perdido, sentiu-se como se tivesse que voltar logo após, pronto para a possibilidade de recuperar as suas perdas?
8) Depois de uma aposta lucrativa você teve um forte impulso para voltar e ganhar ainda mais?
9) Você jogava aos poucos até ganhar o último real?
10) Alguma vez você pediu empréstimo para financiar o seu jogo?
11) Você alguma vez vendeu algo pessoal para pagar dívidas de jogo?
12) Teve má vontade para usar o dinheiro ganho no jogo, nos gastos e compromissos normais?
13) Você alguma vez descuidou do bem-estar da família devido ao jogo?
14) Jogou mais tempo do que havia planejado?
15) Para escapar de preocupações e problemas procurou o jogo?
16) Alguma vez você cometeu algum ato ilícito para poder financiar o seu jogo?
17) Você tem dificuldades para dormir devido ao jogo?
18) Acredita que este impulso para jogar deve-se às desilusões e frustrações?
19) Teve alguma vez o impulso de comemorar alguma fortuna, conquistada com algumas poucas horas de jogo?
20) Você considerou alguma vez a autodestruição como resultado do jogo?

A maioria dos jogadores compulsivos respondeu ‘‘SIM’’ a pelo menos 7 das perguntas acima. Após ponderar sobre estas questões o primeiro passo na recuperação individual é se admitir como um jogador compulsivo. A negação, naturalmente, é a característica da doença. Para esta justificativa, todas as pessoas que entram para o Programa de Jogadores Anônimos são aconselhadas a permanecer no programa por 90 dias.
Fonte: Jogadores Anônimos da Baixada Santista (Jabs)
Familiares são principais vítimas
Carlos, nome fictício, começou a jogar bingo em 1989, em São Paulo, cidade onde nasceu. Sua compulsão, no entanto, só floresceu quando um bingo foi aberto a 200 metros de sua casa.
Aparentemente abalado, o microempresário de 35 anos, que mora em Santos há dois meses, lembra do seu passado com muita mágoa. Ele diz que primeiro acabou com o seu próprio dinheiro, depois com a renda dos pais e das irmãs, e por fim com a ‘‘grana’’ da avó. ‘‘Fiz dívidas em cima de dívidas. Acho que gastei o equilavente a um apartamento de R$ 80 mil’’.
Como tinha horário livre, o empresário frequentava os bingos durante dia e oite. ‘‘Às vezes, entrava às 15 horas e saía às 4 da madrugada. Ficava direto, sem almoçar, jantar e ir ao banheiro’’. Segundo ele, o jogador é um ótimo ator. ‘‘Ele mente descaradamente para conseguir dinheiro e acha que as pessoas vão acreditar’’.
Carlos fez terapia durante um ano — tempo que ficou sem jogar. Quando conheceu as máquinas de caça-níqueis, retomou o vício. Em abril do ano passado, começou a frequentar o Jogadores Anônimos e está sem jogar há cinco meses.
‘‘Quem cuida hoje das minhas finanças são minhas irmãs. Não quero me dar munição para voltar a jogar’’. Ele diz que perdeu a auto-estima, o prazer de sair, de namorar e de crescer profissionalmente.
Sem culpa
Casado, pai de 4 filhos e profissional bem-sucedido, Marcos, de 48 anos, diz que não procurou o jogo. ‘‘Ele (o jogo) é que me procurou. Na verdade, um dia eu me descobri jogador compulsivivo’’.
Marcos diz que sempre jogou de maneira lúdica, em cassinos, quando viajava. A princípio, frequentava os bingos acompanhado de sua mulher. ‘‘Tudo começou como uma brincadeira. Quando eu percebi, estava frequentando o local sem a minha mulher, em horários ociosos e, depois, diariamente’’.
Ele conta que deixou de cumprir obrigações profissionais e pessoais. ‘‘O jogo passou a ser a minha vida. Eu projetava o meu cotidiano para momentos de jogo’’, diz Marcos, em tom de arrependimento. ‘‘O tempo de de dedicação ao trabalho, à família e ao lazer passaram a ser praticamente nulos’’.
Foi quando Marcos percebeu que precisava fazer alguma coisa. Buscando alternativas, ele conheceu o Jabs. Mesmo depois de ingressar no grupo, Marcos teve recaídas, mas diz que não existe mais a relação de culpa. (TL)
Tribuna de Santos – Tatiana Lopes