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Jogo do bicho faz 110 anos

03/07/2002

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Ele nasceu no zoológico do Rio há 110 anos e hoje movimenta milhões de pessoas e de reais. O jogo do bicho vive – a despeito da ilegalidade – e faz aniversário hoje, mais de um século de uma clandestinidade que faz parte do folclore do país. Criado pelo Barão de Drummond, então diretor do Jardim Zoológico, o jogo teve ontem um dia de poucas apostas. ”Está fraco porque é ponto facultativo, muita gente não trabalha”, lamentaram três mulheres escreventes que levam seus banquinhos ao Centro há 10 anos, sempre fugindo da repressão policial. ”Os maridos não gostam. Todas nós já fomos presas”, contou uma.
Licenciado pela polícia e noticiado pelo Jornal do Brasil em 4 de julho de 1892, o jogo do bicho teve 19 dias de legalidade, até que o chefe de Polícia do Rio o proibiu. Em nota oficial, ele explicava que a licença fora dada ”em vista da feição disfarçadamente inocente de certo recreio público”. No evento histórico para promover o zoológico face à concorrência com outros pontos de visitação, foi organizado um prêmio diário que ”consistia em tirar a sorte dentre 25 animais o nome de um, que seria encerrado em uma caixa de madeira às 7h e aberto às 17h”, explicou o JB no dia seguinte à invenção, informando que cada portador de entrada com o animal sorteado estampado ganharia um prêmio.
Ontem, com a chegada da Seleção Brasileira, as bancas receberam o aviso: o 767 está cotado. O número do avião que trouxe os pentacampeões era aposta certa, por isso o prêmio diminuiu. ”Acontece em datas folclóricas”, explicou um gerente do jogo do bicho há 20 anos, sugerindo uma festa de aniversário. ”A sociedade não aceita mas joga. Tem advogado e até juiz que aposta ou manda alguém fazer”, entrega, acrescentando: ”Mantenho meus três filhos com esse trabalho”.
Embora funcionários do jogo do bicho aleguem se tratar de mais uma profissão em que muitos, de baixo nível hierárquico, recebem apenas R$ 16 ao dia, enquanto os bicheiros ganham fortunas com a atividade ilícita. Em 1992 foram presos, no Rio, os 14 maiores bicheiros do país, que cumpriram pena média de cinco anos. No primeiro ano de detenção, houve denúncias de regalias na Polinter. Na ocasião, foram apreendidos celulares, pelos quais os líderes do jogo do bicho comandavam os negócios de dentro da cadeia. Na investigação, descobriu-se uma lista que relacionava a atividade a políticos e policiais. Mesmo assim, muitos conseguiram a absolvição.
Jornal do Brasil – RJ