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José Serra divulgou informações erradas sobre cassinos

21/10/2002

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Para que os leitores do BNL tomem conhecimento como o então senador José Serra divulgou várias informações erradas em seu artigo "O Jogo Errado" na Folha de São Paulo, em 1998, contra o Projeto de legalização dos cassinos que estava tramitando no Senado Federal, fomos buscar em nossos arquivos a correspondência que o presidente do Comitê Pró-Legalização dos Jogos no Brasil, Ciro Batelli, respondeu ao artigo. O Senador não tomou o devido cuidado com as fontes em que citou no seu artigo e foi traido.

Rio de Janeiro, 30 de março de 1998

Ao Ilma. Jornalista RENATA LO PRETE

Ombudsman da Folha de São Paulo Prezada Renata, Com relação ao artigo “O Jogo Errado”, publicado pela Folha de São Paulo na edição do dia 29.03.98, no caderno Dinheiro, assinada pelo Exmo. Senador José Serra, gostaríamos de fazer alguns esclarecimentos para os leitores deste conceituado jornal que julgamos importantes e, também, vamos demonstrar que o Senador foi induzido ao erro pelas suas fontes (Economista, Ricardo Gazel, Professores Dan Rickman e William Thompson):

José Serra – “Em primeiro lugar, os cassinos não trarão recursos externos significativos para o Brasil, por meio de turistas estrangeiros que viriam jogar aqui no Brasil ou de brasileiros que deixariam de jogar lá fora”.

É do conhecimento de todos que anualmente milhões de brasileiros visitam a Argentina, Paraguai e Uruguai e que a grande parte destes turistas, freqüentam também os cassinos destes países para jogar. Estes cassinos recebem anualmente milhares jogadores brasileiros provocando uma expressiva e danosa evasão de divisas do país de milhões de dólares. Através de pesquisas está provado que mais de 70% do movimento desses cassinos advêm de brasileiros. Segundo o Las Vegas Convention and Visitors Buereau, 60 mil brasileiros visitaram Las vegas no ano de 1996. Com a legalização e a abertura de cassinos do Brasil, haveria uma ampliação do período médio de permanência do turista estrangeiro no país. Outra vantagem seria a redução efetiva da diferença nas taxas de ocupação da hotelaria entre a alta e a baixa estação, pois os cassinos promovem e subsidiam uma extensa programação de eventos culturais, artísticos, musicais e esportivos na baixa temporada para atrair turistas provocando o crescimento substancial do turismo interno. Como resultado imediato, seriam aportados investimentos significativos na construção de novos hotéis e empreendimentos turísticos em nossas estâncias hidro-minerais, climáticas e balneárias.

José Serra – “Aliás, os cassinos provavelmente aumentaria o déficit do balanço de pagamentos, face a importação de equipamentos…”

À exceção dos equipamentos eletrônicos mais sofisticados, a indústria brasileira já está capacitada para produzir a maior parte dos produtos essenciais para a implantação dos cassinos no Brasil.

José Serra – “Em segundo lugar, tenhamos presente: de onde viria a receita dos cassinos? Evidentemente, do bolso dos jogadores, principalmente da classe média para baixo”.

Este argumento é desprovido de qualquer fundamento, fruto do desconhecimento dos padrões de modernidade da indústria dos cassinos. Existem diversos métodos para evitar a freqüência em cassinos de pessoas de baixa renda. Um dos mecanismos mais simples e eficaz de todos, é taxar o ingresso no cassino em valor suficiente para inibir ou inviabilizar o acesso de pessoas de baixa renda. Outro mecanismo de contenção do ímpeto do jogador já consta do próprio Projeto de Lei ora em exame, que é a proibição dos cassinos de conceder linhas de crédito aos apostadores. Vale lembrar que as populações de baixa renda, já vêm sendo explorada pelos jogos populares, administrados pelo próprio Governo. A abertura de cassinos promoveria para estas populações, um novo e expressivo mercado de trabalho, e não uma ameaça.

José Serra – “No entanto, acredite o leitor, a experiência norte-americana desaconselha a implantação de cassinos no Brasil…” “Vício”

O Senador José Serra, tomou como referência os estudos do economista Ricardo Gazel, ex-professor da Universidade de Nevada. Este trabalho é contestado pela divulgação em dezembro de 1997, de recente pesquisa realizada pela Universidade de Harvard Medical School que através de estudos científicos, realizados nos últimos 20 anos, constatou-se que apenas 1,29% da população adulta dos Estados Unidos e Canadá sofrem algum tipo de patologia de jogador compulsivo.

José Serra – “Um estudo feito em 1990 em Maryland estimou que tais fatores provocaram prejuízos de 1,5 bilhão de dólares no Estado, devido ao jogo…”

O Senador foi induzido a cometer outro grave equivoco com relação a esta afirmação. Jogo de cassino nunca foi permitido no Estado de Maryland. O que já existiu neste Estado, foram jogos de carteados patrocinados pelo Corpo de Bombeiros para fins beneficentes e desde maio de 1997, esta atividade também foi proibida, pelo fato de não ter regulamentação estadual e/ou municipal.

“Criminalidade” José Serra – “Por que aumentam o crime? Porque o volume de dinheiro que circula em torno do jogo é suficientemente grande para atrair o dinheiro sujo, proveniente do tráfico de drogas e outras atividades ilegais”.

O FBI – Federal Bureau of Investigation, iniciou há 60 anos o Programa UCR (Uniform Crime Report), baseado em ocorrências criminais dos Estados Unidos. O principal objetivo deste programa, é formar um banco de dados com estatísticas reais para serem utilizadas na administração, gerenciamento e operação das policias municipais, estaduais e federais. Com o nome de “Crime In the United States”, este programa é a principal fonte de pesquisa de sociólogos, jornalistas, criminalistas, legisladores, pesquisadores estudantes, entre outros. Para falar sobre criminalidade, consultamos o Relatório do FBI citado acima, publicado em dezembro de 1997, que afirma o seguinte: As cidades que têm cassino legalizado são classificadas como cidades mais seguras dos Estados Unidos. (Página 24a) As cidades com cassinos legalizados têm menos crimes de rua do que cidades com potencial turístico. (Página 25a) Apesar de ser a cidade com o maior índice de crescimento populacional dos Estados Unidos, Las Vegas tem o menor índice de criminalidade comparado com todas as cidades turísticas da América. Essa segurança não é fruto de um substancial aporte de recursos aplicados no aparato policial. Pelo contrário, o Departamento de Polícia Metropolitana de Las Vegas apresenta um dos menores números de policiais por habitante, do que qualquer outra grande cidade americana. (Página 27a) Em Atantic City os índices de criminalidade vêm caindo ano após ano, desde 1992, apesar do aumento do número de visitantes. (Página 29a)

“Desvio de renda e canibalização de atividades” José Serra – “Em Atlantic City, metade dos restaurantes da cidade fechou as portas dois anos depois da abertura dos cassinos na cidade”.

Segundo estudo da Arthur Andersen Consultants publicado no Boletim da Americam Gaming Association de março de 1998, demonstra que os gastos nos cassinos não estão sendo subtraídos de outros segmentos da industria de entretenimentos. Como exemplo podemos citar: entre 1977 (três anos após a abertura dos cassinos) e 1987, o número de restaurantes na área metropolitana de Atlantic City aumentou em 120%. Em 1994, a indústria de cassinos de Atlantic City gastou US$ 1.35 bilhões nos 4 mil estabelecimentos comerciais de New Jersey. Segundo o estudo sobre “Impacto Econômico da Industria de Cassinos” , elaborado pelo Evans Group em setembro de 1996, o valor dos imóveis em Atlntic City tiveram uma valorização de 200% entre 1997 e 1980, quando foram criados 30 mil novos empregos na indústria do cassino. Em 1995, 31 milhões de turistas visitaram a cidade que faturou US$ 3.77 bilhões em 12 hotéis/cassinos.

José Serra – “Quem vai a Iowa jogar? … Fazendo um balanço do que o Estado ganhou e do que perdeu após a abertura dos cassinos, constatou-se um prejuízo de 125 milhões de dólares…”

Outro equivoco do Senador José Serra. Segundo o estudo sobre “Impacto Econômico da Industria de Cassinos”, elaborado pelo Evans Group, os cassinos de Iowa faturaram US$ 239 milhões em 1995, US$ 265 em 1996 e US$ 293 em 1997. Ao contrário da informação dada pelo Senador, o Estado de Iowa arrecadou em impostos nesses três anos à importância de US$ 153 milhões diretamente dos cassinos. Se forem considerados os impostos de todos os jogos praticados no Estado esse número aumenta para US$ 375 milhões. Para finalizar, vamos demonstrar que o Senador José Serra foi induzido ao erro pelas suas fontes, ao afirmar que:

“Segundo o Instituto Americano de Seguros, nos Estados Unidos, 40% dos crimes de colarinho branco têm raízes no jogo”.

No Relatório do UCR (Uniform Crime Report) do FBI – Federal Bureau of Investigation, sobre “Casinos and Crime: An Analysis of the Evidence”, publicado em dezembro de 1997, na página 55a, que traduzimos na íntegra e anexamos uma cópia, informa:

Afirmações sem fundamento “Indiscriminadamente tem-se afirmado que Instituto Americano de Seguros (American Insurance Institute – AII) estima que 40% de todos os crimes de colarinho branco são relacionados ao jogo. Esta estimativa tem sido propagada em debates, relatórios direcionados, várias histórias de jornal e recentemente no livro anti-jogo do Robert Goodman. Porém, o fato é que esta estatística não pode ser verificada por um único fator determinante: o Instituto Americano de Seguros não existe.”

Gostaríamos de solicitar a jornalista que publique os esclarecimentos acima, para que seus leitores da Folha de São Paulo tomem conhecimento da verdade. Contando com a compreensão dos esclarecimentos apresentados, colocamo-nos ao seu inteiro dispor para quaisquer esclarecimentos.
Atenciosamente,
CIRO BATELLI Comitê Pró-Legalização dos Cassinos no Brasil