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Lobby dos cassinos já está em ação e é forte como o das empreiteiras

02/12/2019

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Trump pediu a Bolsonaro apoio a cassinos (Foto: Alan Santos/PR)

A legalização dos cassinos foi um dos pedidos do presidente dos EUA, Donald Trump, ao presidente Jair Bolsonaro em conversa em Washington em 19 de março. Não é coincidência nem detalhe que o maior financiador da campanha de Trump tenha sido o magnata dos cassinos Sheldon Adelson, que desembolsou mais de R$ 100 milhões para apoiar o candidato republicano.

O bilionário americano esteve no Brasil por três vezes desde 2016 e criou um grupo de lobby para influenciar o Congresso Nacional a aprovar a legalização dos cassinos, como informou a Agência Pública.

Desde o encontro de Trump com Bolsonaro, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, e o presidente da Embratur, Gilson Machado Neto, tornaram-se propagandistas da ideia. Prometem triplicar o número de turistas, acenam com investimentos de R$ 60 bilhões, geração de milhares de empregos e o reforço dos cofres públicos dos três níveis de administração com milhões em impostos. Nesta semana, a legalização será debatida na Câmara dos Deputados, sendo esperada a presença do ministro da Economia, Paulo Guedes,

O modelo de liberação que tem mais encantado os bolsonaristas é só permitir que cassinos possam operar integrados a resorts, com concorrência limitada conforme a população das diversas regiões do país. Exatamente o modelo de negócios de Sheldon Adelson, o amigo de Trump.

Em entrevista à Folha, publicada neste domingo, o presidente da Embratur acena até com a possibilidade de grupos evangélicos se tornarem sócios de cassinos, numa manobra para superar os vetos da chamada bancada evangélica à liberação dos jogos. De certa maneira, quer fazer com os evangélicos no Brasil o que os EUA fizeram com os índios.

Há 40 anos, o jogo de cassino era ilegal em todos os lugares nos Estados Unidos, exceto o estado de Nevada e Atlantic City, cidade de Nova Jersey. Em 1988, sob lobby intenso, o congresso americano aprovou o Indian Gaming Regulatory Act, lei que permitiu a criação de cassinos em terras indígenas, com as lideranças sendo remuneradas para dar a permissão do negócio. A indústria do cassino hoje está presente em 40 estados, com mais de 1.000 casas de jogos.

Os americanos gastam a cada ano mais de R$ 160 bilhões em cassinos. É o dobro do que gastam com esportes, o triplo do que gastam com cinema e o quíntuplo do que gastam com música. É a atividade recreativa mais rentável para a indústria.

Reportagem da revista The Atlantic mostrou que o vício em jogos nos EUA aumentou na proporção em que cresceu o lucro das operadoras de casino. Uma parcela significativa da receita do cassino vem de uma pequena porcentagem de clientes, a maioria provavelmente viciados, jogando em máquinas projetadas explicitamente para embalá-los em um estado de transe que a indústria se refere como “produtividade contínua de jogos”.

Nos EUA, 4 milhões de pessoas – 1,6% da população adulta – têm distúrbios em razão do jogo. Isso é mais do que o número de mulheres que vivem nos EUA com histórico de câncer de mama. A associação americana de psiquiatria calcula que de 5 milhões a 8 milhões de pessoas atendem a alguns dos critérios de dependência, mas ainda não progrediram para o estágio patológico ou desordenado.

Além de estimular o vício e a lavagem de dinheiro, estudos calculam que cada dólar ganho com um cassino implica US$ 3 em custos sociais _ seja o aumento do crime, ou a produtividade em declínio ou mais gastos em serviços como hospitais e seguro-desemprego.

Investigações também mostraram que grupos ligados a cassinos estão entre os principais corruptores de políticos, de eleições e de atividades legislativas. Os grupos têm acesso a grande quantidade de dinheiro vivo, facilidade para dar fachada a transferência de altas quantias e fazem grande investimento no que chamam de relações públicas. Muitos deles fazem doações eleitorais legais em troca de favores prestados muito discretamente. Em um sistema político-eleitoral como o brasileiro, com pouca transparência e fiscalização ineficiente e reduzida, a capacidade destrutiva das operadoras de cassino poderá se equiparar ou superar à das empreiteiras. (Plínio Fraga – Colunista do UOL)