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Loteria dobra aposta.

09/02/2004

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Tudo começou no dia 4 de outubro de 1784, em Vila Rica, Minas Gerais. Garotos tiraram, um a um, 9 mil papéis dobrados de três urnas. A primeira papeleta trazia o número do bilhete, a segunda o valor do prêmio e, a última, se o concorrente havia ganhado o dinheiro. O sorteio da primeira loteria do Brasil levou quatro dias, mas foi um sucesso. Rapidamente os jogos se espalharam por outras províncias. Mais de dois séculos depois, a velha mania voltou a pegar fogo. Só no ano passado, as nove loterias oficiais, da Caixa Econômica Federal, movimentaram
R$ 3,5 bilhões – valor recorde, 18% superior ao do ano anterior. No primeiro semestre de 2004, serão lançadas mais duas loterias. Outras três estão em estudo. “As loterias crescem sem parar”, diz Jorge Mattoso, presidente da CEF. “Quando a economia vai bem, sobra mais dinheiro para as pessoas jogarem. Quando vai mal, as pessoas arriscam mais para melhorar de vida.” Hoje, o brasileiro pode comprar os velhos bilhetes da Federal, raspar a cartela da Instantânea, arriscar resultados de partidas de futebol na Loteca ou chutar combinações de números na Mega-Sena, Lotomania, Lotofácil, Quina, Dupla Sena e Lotogol. Isso sem contar as loterias estaduais, os sorteios pela tevê, o jogo do bicho, o bingo, as rifas e inúmeras alternativas legais e ilegais de tentar a sorte. Dentro de dois meses, a lista vai ficar maior. A nova loteria da CEF ainda não tem nome, mas especula-se que se chamará Timemania. Funcionará de maneira parecida com os jogos de números, como a Quina ou a Mega Sena. Com uma diferença: o apostador não marcará números, escolherá escudos numa lista de 80 clubes de futebol. Ganha quem marcar a combinação sorteada. “A nova loteria mexe, ao mesmo tempo, com a paixão do brasileiro pelos times de futebol e pelos jogos de azar”, diz Mauro Hozmann, diretor do Clube dos 13, a organização dos maiores times do País.

Extração centenária:
Em 1824, São Paulo já tinha seu jogo, mas os bilhetes da Federal foram os mais populares no século XX.

A outra novidade a aparecer nas Casas Lotéricas até julho é a loteria cultural. Esse jogo está em fase inicial de planejamento. O que se sabe até agora é que destinará parte de seus recursos à área cultural, assim como a Timemania reservará 10% de sua receita para os clubes de futebol – seja em dinheiro ou no abatimento de dívidas com o governo. Essa é mais uma tradição brasileira: desde suas primeiras extrações, as loterias servem para arrecadar recursos para serviços e obras que o Estado não tem como tocar. “A primeira loteria custeou a construção do edifício onde hoje está o Museu da Inconfidência, em Ouro Preto”, conta Sylvio Luongo, maior especialista e colecionador de bilhetes de loteria do País. Hoje em dia, não é diferente. De cada R$ 1,00 arrecadado pela CEF com os jogos, R$ 0,48 pagam desde serviços penitenciários a salário de atletas. “As loterias exercem um papel social importantíssimo”, diz Mattoso, da CEF.Todos querem aproveitar o sucesso das loterias para descolar uns trocados. Além da Timemania e da Loteria Cultural, fala-se na criação do “Bolão” e da “BigQuina”, ainda em estágio inicial de planejamento. A CEF ainda vai tentar ressuscitar a velha Loteca. Conhecida pelo seu símbolo, a Zebrinha, a Loteca foi abatida por denúncia de que apostadores subornavam jogadores de futebol, principalmente os goleiros, para influenciar os resultados dos jogos. Para reanimar a Zebrinha, a CEF quer aumentar os prêmios e fazer uma grande campanha publicitária. A grande aposta é que o apetite dos brasileiros pelos jogos não tem limites. Nos últimos dois anos, mesmo com toda a crise econômica, a arrecadação das loterias cresceu 26%. O brasileiro compra dois bilhões de bilhetes de loterias por ano. A melhor amostra do potencial dos jogos veio em setembro do ano passado. Foi quando a CEF lançou a Lotofácil, mais uma modalidade de combinação de números com sorteios periódicos. Com uma característica original: a distribuição de uma enorme quantidade de prêmios de pequeno valor, de R$ 2,00, R$ 4,00 e R$ 10,00. “Quem é sorteado, usa o dinheiro para apostar de novo. Foi um sucesso instantâneo”, diz Luongo, dono de uma lotérica fundada em 1925 por seu pai. Em três meses, a Lotofácil arrecadou R$ 150 milhões – o equivalente ao faturamento anual de uma empresa média. “Não tem erro. O brasileiro é louco por jogos”, resume Luongo. 
Revista Isto É Dinheiro – Ricardo Grinbaum