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Indústria do pôquer cresce no Estado e movimenta milhões 08/08/2017

O Instituto Brasileiro Jogo Legal defende a legalização de todas as modalidades de jogos hoje operadas no país


Jogo de pôquer ganha cada vez mais adeptos no Estado
Movimentando milhões em apostas e tendo Neymar, Ronaldinho, Michael Phelps e outras celebridades como garotos-propaganda, o pôquer atrai cada vez mais os capixabas que, seduzidos pelo jogo cheio de charme do Velho Oeste, dos cassinos de Las Vegas e dos galãs de Hollywood, estão prontos para blefar, se divertir e ganhar muito, muito dinheiro.
Os jogos virtuais conquistaram muitos adeptos no Estado, mas é nas casas de pôquer, como a Texas Poker House, com seu clima intimista e misterioso, com as rodadas de apostas conduzidas pelo crupiê, que se pode conferir como o jogo se popularizou no Estado e já reúne comunidades de 300, 400 integrantes.
E muitos optaram pelo carteado como profissão e se sustentam com torneios e competições de pôquer ou apostas virtuais. No último final de semana, um torneio realizado no Hotel Quality em Vila Velha pagou R$ 100 mil e atraiu mais de 400 participantes, tanto recreativos, como profissionais.
O pôquer recentemente foi reconhecido como atividade esportiva pela Comissão do Esporte da Câmara dos Deputados, que aprovou na semana passada o Projeto de Lei 5840/16.
O delegado José Darcy Arruda, superintendente de Polícia Especializada, explica que existem no Brasil os jogos proibidos, os liberados e os tolerados, que é o caso do pôquer, que não é jogo de azar porque depende mais de habilidades, estratégias, fatores matemáticos e de probabilidades do que da sorte.
Hoje cerca de 7 milhões de brasileiros jogam pôquer frequentemente e 5% desse total são profissionais, segundo os dados da Confederação Brasileira de Pôquer. O assessor de imprensa da confederação, Heitor Pires, explica que alguns jogadores têm patrocínio, participam de competições internacionais e ainda são coachs do jogo, e seus salários chegam a R$ 40 mil mensais.
O músico capixaba Leonardo Norbin joga pôquer há algum tempo e é uma das revelações do Estado no jogo e associa a diversão aos lucros ocasionais. Leonardo explica que o pôquer é um esporte da mente, como o xadrez, por exemplo, e que para conseguir seguir carreira no jogo é preciso investir e estudar.
Leonardo Norbim fazia parte de um time de jogadores de pôquer organizado por investidores que custeiam aulas e preparam os pupilos e depois ficam com 60% dos seus lucros nas competições reais e virtuais, mas saiu recentemente e hoje curte os torneios e algumas competições virtuais, mas sempre procura se aprimorar.
Mesmo sem restrições legais, Heitor Pires explica que a confederação e os representantes do pôquer querem a regulamentação da atividade, que hoje paga 27,5% de tributação, o mesmo que outros jogos, como o turfe. “Com isso os profissionais poderão ter registrado na carteira de trabalho a ocupação de jogador de pôquer, como os jogadores de futebol”, informa o representante da confederação.
A popularização dessa modalidade Leonardo Norbim e Heitor Pires atribuem aos valores que essa indústria movimenta, mas também às novas opções de diversão e ao exemplo de ídolos internacionais que são adeptos ao jogo.
Ambiente descontraído, uísque, picanha e dinheiro

Uma noitada de pôquer passou a ser diversão "oficial" de muitos capixabas e até a fonte de renda também. No Texas Poker House, em Itapoã Vila Velha, o clima é descontraído e as pessoas circulam como frequentadores habituais.

São quatro salas grandes, com mesas, baralhos e fichas, além de um ambiente social, onde Felipe Cruz Caldeira, diretor de torneio da casa, e Leonardo da Costa, o dealer, recepcionam os jogadores.
Os dois passaram por cursos, que hoje são comuns no País, para saber embaralhar e distribuir as cartas, conduzir as apostas e administrar as regras, que incluem os limites máximos das apostas, mesmo no cash game. Diferente dos torneios que têm um cacife inicial e só ganham os primeiros colocados, no cash game podem ser feitas apostas a cada rodada, aumentado o montante em jogo na mesa.
“Mesmo no cash game, há limite nos valores e números de mãos para que a competição atenda melhor o maior número de participantes”, explica Felipe.
Na quinta-feira (27/07), dia em que a reportagem do Estado ES esteve no Texas Poker House, apenas homens estavam lá, cerca de 20 jogadores, com idades entre 20 e 35 anos, no torneio com valor de R$ 110,00 ou no cash game com cacifes variados.
“Muitas mulheres frequentam a casa, casais inclusive, mas elas vêm mais no início da semana, quando o público é mais amador, ainda está aprendendo, embora tenhamos alguns capixabas já muito feras no jogo”, afirma Leonardo.
Na segunda-feira o valor das apostas é o mais baixo, R$ 30,00, o torneio e os preços vão subindo no decorrer da semana, assim como a expertise dos participantes.
Na casa há ainda um bar e uma cozinha que servem bebidas e comidas aos participantes, mas na quinta-feira foram feitos poucos pedidos, alguns refrigerantes e petiscos. Todo mundo concentrado na atração principal – o pôquer.
“Nos torneios são fornecidas bebidas e comidas, que são pagas pelos consumidores como em qualquer outro estabelecimento, mas no cash são oferecidas cortesias que vão desde uísque, sushi, picanha, dependendo de cada caso”, comenta Felipe.
Congresso tem projetos para liberar o jogo
A liberação dos jogos no Brasil, proibidos há 75 anos, divide opiniões, mas tramitam no Congresso Nacional projetos que podem legalizar o jogo e, acreditam os defensores do tema, estão próximos da aprovação.
O que é consenso entre quem é favorável e quem é contra é que a jogatina é uma indústria bilionária que no Brasil movimenta, anualmente, em apostas clandestinas, mais R$ 19,9 bilhões com o jogo do bicho (R$ 12 bi), bingos (R$ 1,3 bi), caça-níqueis (R$ 3,6 bi) e apostas esportivas e jogos pela internet (R$ 3 bi). E o jogo legalizado atinge cerca de R$ 13,5 bilhões - se somados os R$ 12,8 bilhões das loterias da Caixa Econômica Federal, R$ 400 milhões das Loterias Estaduais e R$ 300 milhões do turfe.
Os dados são do Instituto Jogo Legal, que defende a legalização de todas as modalidades como cassinos, jogo do bicho, bingos, videobingos, videoloterias, apostas esportivas e jogos online, hoje classificados como contravenções.
Nos discursos contrários, existe a preocupação com associação com outros crimes, como lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, além do vício que prejudica centena de brasileiros.
Na Câmara dos Deputados, está o projeto de lei PL 442/91, o Marco Regulatório dos Jogos no Brasil, que reúne propostas sobre legalização de cassinos, bingos, caça-níqueis, jogo do bicho e jogos online. No Senado, tramita outro projeto, o PLS 186/2016, cuja proposta está dividida em três seções: cassinos, bingos e jogo do bicho.
Nos dois projetos de lei, as propostas aprecem como alternativa para a crise econômica brasileira, como a volta dos cassinos, que passariam a funcionar em complexos hoteleiros e resorts, movimentando o turismo e gerando emprego e renda.
A recente audiência do CEO da Las Vegas Sands, Shaldon Adelson, com o presidente Temer, aumentou os rumores de aprovação. Adelson, um dos 20 homens mais ricos do mundo, apresentou um plano de implantação do seu cassino grife, sucesso absoluto em Macau, Cingapura e Las Vegas, no Brasil.
Mas a concretização desses investimentos passa por uma questão séria, que é como transformar contravenção em empreendimento.
O advogado e professor universitário Renan Salles explica que se o jogo for legalizado, todos os processos são retroativos, ou seja, os indiciados deixaram de réus e estarão livres de condenação.
O superintende de Polícia Especializada, delegado José Darcy Arruda, diz que que a Lei das contravenções é 1941, muito antiga e muita coisa precisa ser revista.
“Hoje no Espírito Santo recebemos muitas denúncias e temos, sim, problemas com o jogo clandestino, mas existe o princípio da adequação social e o jogo é um caso que a sociedade tolera”, avalia o superintende.
O presidente do Instituto Jogo Legal, o jornalista e professor universitário Magno José, diz que existe muita hipocrisia nesse assunto. “Os legisladores deveriam estar preocupados em aumentar receita, gerar tributos. No Brasil muita gente joga e vai continuar jogando. O que acontece é que o Brasil não arrecada com isso”, comenta Magno.
Quando jogo se torna vício, vidas e famílias são destruídas
Assim como as drogas e o álcool, o jogo é um problema para muitos brasileiros. São muitas as carreiras, vidas e famílias destruídas pela compulsão por jogos de azar e até mesmo pelos jogos legalizados. Além de grandes prejuízos financeiros, esse vício gera uma série de transtornos e situações que afastam os compulsivos de suas atividades profissionais e pessoais.
Os constrangimentos do vício em jogo estão retratados na novela "Força do Querer", da TV Globo, onde a atriz Lília Cabral atriz interpreta Silvana, uma arquiteta viciada em jogos de azar que vive conflitos com a família, de quem tenta esconder sua participação na jogatina.
A psicóloga Lucélia Aparecida de Paula explica que existe tratamento para a ludopatia, mas é um processo complicado e que depende muito de que a pessoas queira se tratar. Para Lucélia, a legalização pode facilitar o acesso dos viciados ao seu objeto de desejo, mas não é isso que vai impedir que o quadro seja reversível.
“O jogo é uma compulsão como outra qualquer, como por drogas, como por álcool e comida, que são vendidos livremente. Esses problemas atingem pessoas que têm predisposição para desenvolver essas dependências, seja por coisas legalizadas ou clandestinas”, avalia a psicóloga, que lembra que o tratamento passa por psicoterapia e até medicamentos.
Lucélia adverte para o vício nos jogos online, que são um reflexo da vida moderna, cada vez mais virtual e que já atinge inclusive crianças. “É preciso ficar muito atento ao comportamento das crianças que passam horas com computadores, tablets, celulares porque isso pode virar uma dependência e futuramente evoluir para vício em jogos digitais”, comenta.
Os países onde o jogo é legalizado optaram pelo processo de autoexclusão, que pode ser solicitada à Justiça pelo portador do vício ou por um familiar direto. A auto exclusão funciona de diferentes formas em vários países. No Estados Unidos, por exemplo, o auto excluído pode jogar, mas quando é premiado não pode receber o prêmio, que é imediatamente doado a uma instituição beneficente.
Em Portugal, onde existem grande cassinos com o de Estoril, o viciado identificado pela autoexclusão não pode nem entrar nas casas de jogos. Desde que foi liberada a exploração de jogos de apostas virtuais no país, há dois anos, mais de 13 mil portugueses, na maioria jovens, solicitaram a autoexclusão. (O Estado de ES - Ana Paula Herzog – ES)


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