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Opinião

ESPECIAL: O jogo ou a fome. 29/04/2006

Maitê Proença*


Revista Época - Foto: Fernando Torquato

Nunca ficou muito claro para mim a razão real pela qual o jogo foi proibido no Brasil. Dizem que a esposa do presidente Dutra, muito carola, e por influência de um cardeal, dom Jaime Câmara, enchia a paciência do marido para atender à Igreja, que já na época não gostava dessas coisas. (Também não compreendo por que a Igreja implica com essas coisas. Jogar é pecado? Está na Bíblia? Quando minha filha joga Banco Imobiliário, que utiliza prêmios em dinheiro-fantasia, está pecando? E eu estou permitindo que ela seja induzida a um vício futuro? E, por esse raciocínio, quando almoço estou sendo induzida à gula?)
Dizer que o jogo favorece a lavagem de dinheiro não convence, posto que há tantas atividades lícitas que se prestam à mesma finalidade e nem por isso o governo cuidou de baixar qualquer medida provisória impedindo negociatas nos passes de atletas, na compra e venda de pedras preciosas, no turismo, na hotelaria e assim por diante. Considerar ainda que o jogo estimula a prostituição infantil e por isso deve ser coibido leva ao raciocínio sofismático de que se deveria desestimular o turismo nas variadas regiões do país onde estrangeiros tarados desembarcam em cascata, atrás de menininhas disponíveis para o sexo remunerado.
Se há atividade ilícita decorrente de qualquer outra atividade, é porque as leis são permissivas ou simplesmente não são cumpridas, e só a fiscalização eficiente por parte do governo pode acabar com essa bandalheira.
Além do mais, a relação do governo com o jogo é facciosa, já que a União só proíbe o jogo dos outros - seus próprios sorteios e loterias mantêm-se, semanalmente, em frenética atividade. Impedir o funcionamento de cassinos enquanto se permitem as corridas de cavalo também não me parece fácil de entender. Sem falar, viva a sensatez, na reabertura dos bingos - um dos poucos locais onde senhoras inofensivas ainda se sentem protegidas das violências urbanas.
Tempos atrás assisti na TV à entrevista de um especialista em hidrologia, diretor de um desses órgãos federais de controle das secas no Nordeste. Ele dizia que o polígono das secas era bem menor do que se divulga. Fazia isso confrontando os mapas das secas com mapas temáticos da produção agrícola na área, sugerindo que, se houvesse seca nas proporções alardeadas, não poderia haver agricultura produtiva na mesma região e vice-versa. O que ele tentava provar é que a abrangência do polígono era forjada para obter subsídios que favorecessem os interesses de políticos clientelistas da região. Não sei quanta verdade há nisso, mas, de qualquer forma, é indiscutível que aquele pedaço do Brasil carece vergonhosamente de um plano honesto e possível, que o inclua de vez no mapa do país.
Se lá nos anos de Juscelino a indústria automobilística tivesse sido implantada no Nordeste, em vez de na já próspera região de São Paulo, teríamos evitado o êxodo para o Sul, dado emprego a milhões com as indústrias-satélites que nasceriam a reboque, e com impostos arrecadados ali mesmo ainda poderia ter-se remediado a questão da seca; os grandes centros não estariam hoje soltando gente pelo ladrão e o emprego estaria mais bem dividido pelas cidades de todo o país.
Não há como voltar atrás, mas um equívoco serve para pensar o futuro de forma mais generosa.
Minha sugestão, então, é a seguinte:
Por que não permitir a abertura do jogo no polígono das secas, criando uma Las Vegas brasileira e fixando o retirante na região? Tudo seria financiado por megaempresários do show business que esperam ansiosos por essa liberação. Milhares de empregos seriam gerados durante as obras de execução, e posteriormente, com o funcionamento dos cassinos, restaurantes, teatros etc., o cidadão local se readaptaria para trabalhar nas mais diversas atividades. Las Vegas, que foi um dia apenas um deserto inóspito, é hoje dos metros quadrados mais valorizados do planeta. Com o polígono pode acontecer o mesmo, e ainda promoveríamos, ainda que tardiamente, a dignidade do homem que vive ali.
Levar a vida como bailarino ou crupiê deve ser bem mais bacana que se equilibrar na corda injusta da fome.
(*) Maitê Proença é atriz - Época