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Opinião

Águias, burros e borboletas 18/10/2005

Um estudo antropológico do jogo do bicho

Águias, burros e borboletas
Um estudo antropológico do jogo do bicho
Roberto DaMatta e Elena Soárez
Ensaio   200 páginas R$28,60
ISBN: 8532509592

Um jogo de azar e uma espécie de rito sacrificial, desenvolvido num terreno em que o onírico e o primitivo se fundem ao racional e ao utilitário, o jogo do bicho está incrustado no cotidiano dos brasileiros. É o que nos mostra os antropólogos Roberto DaMatta e Elena Soárez em Águias, burros e borboletas — Um estudo antropológico do jogo do bicho, ensaio que ultrapassa a análise do jogo como objeto de poder dos bicheiros e apresenta um estudo mais amplo e mais específico de debate.

Embora o tema já tivesse sido abordado por DaMatta em livros anteriores, o antropólogo revisita o assunto a partir da tese de mestrado de Elena, então sua aluna no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional. Juntos, eles elaboraram um minucioso trabalho em que buscam dissecar a história e a sociologia do jogo do bicho, fugindo de um modelo de análise reducionista e revelando-o como "uma instituição total".

O resultado aponta, por exemplo, como essa loteria popular — criada em 1890 por João Baptista Vianna Drummond, o barão de Drummond, com o objetivo de angariar fundos para a manutenção do Jardim Zoológico do Rio — surge exatamente nos estertores da escravidão brasileira, quando a sociedade institui o trabalho livre.

"Há uma profunda ligação entre as mudanças sociais ocorridas na virada do século e o alastramento da jogatina", observam os autores. Entre outras visões, está a do jogo do bicho como um instrumento para "promover a passagem entre categorias sociais". Embasado por uma ampla pesquisa de campo, entrevistas com jogadores e dezenas de elucidativas notas de pé de página, o livro percorre a trajetória do jogo, posto na ilegalidade pelo governo em 1944; enumera os 25 animais da loteria; reúne as interpretações de alguns sonhos que são usados como palpites e traça paralelos com outras formas de totemismo, tanto dos Estados Unidos quanto da Europa.

Não é um "alvará para o jogo e para os que dele tiram proveito", como frisa Roberto DaMatta na introdução. É, antes, importante obra de referência de uma instituição eminentemente popular, normalmente desprezada pelas análises sociológicas.

 

Sobre os autores

Roberto DaMatta é professor de Antropologia da Universidade de Notre Dame (EUA). Elena Soárez é mestra em antropologia social pelo Museu Nacional da UFRJ.