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Novo jogo de azar gera conflito entre ‘bicheiros’ em Fortaleza

05/03/2018

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Quando Darwin Henrique da Silva, 53 anos, chegou a Fortaleza, em torno de dezembro de 2017, ele já deveria imaginar que o negócio pelo qual é conhecido no Nordeste poderia criar um novo conflito na Cidade.

O banqueiro trouxe à capital cearense uma nova modalidade de jogo do bicho, agora informatizada. Com o auxílio de tablets, maquinetas e impressoras, o bicheiro trocou a caderneta e o carbono – clássicos da jogatina na Cidade – por poules impressas, similares a cupons fiscais e comprovantes de cartões de crédito. Ademais, o sorteio é feito com base nas loterias paraibanas, não na Loteria dos Sonhos, comumente escolhida pelos cambistas do Ceará.

Não suficiente, além da inovação tecnológica, Darwin Henrique também aumentou a premiação aos apostadores que optam pelas suas bancas. O valor conferido ao vencedor de uma milhar é seis mil vezes o valor apostado, enquanto o mercado cearense paga quatro mil; na centena, ele oferece 800, quando os daqui entregam 400; na dezena, a diferença é de 80 para 50.

O Diário do Nordeste teve acesso a áudios de um bicheiro pernambucano coagindo banqueiros cearenses a fazer pressão sob Darwin Henrique para ele não “acabar com o jogo do Ceará”. Segundo as informações obtidas, o bicheiro fechou mais de 60 bancas, em dois anos, em Pernambuco, local no qual iniciou seu negócio.

“Faça de tudo pra complicar a vida dele e pra que ele se mande do Ceará porque, se der um fio de cabelo de brecha pra ele se criar aí, ele vai se transformar em um câncer geral, que vai estragar o jogo do Ceará. Então, tenta quebrar, tirar ele do negócio de todo jeito”, afirmou o bicheiro de Pernambuco.

Em outro áudio, a ameaça é mais séria: “parceiro, é o seguinte: toca fogo nessa banca. Eles vão quebrar, vão destruir a vida de vocês. Pega fogo, querosene e toca fogo”.

A intimidação, segundo uma fonte da Inteligência da Polícia, está se encaminhando para concretização. Antes do Carnaval, tentaram atear fogo em uma das bancas de Darwin Henrique, intitulada “O Caminho da Sorte”, no bairro Bom Jardim. No dia 15 de fevereiro, a mesma sede do negócio foi metralhada às 2h da madrugada. Conforme o policial, há ameaças de morte partindo dos dois lados da moeda a fim de comandar o negócio na Capital

De acordo com o policial da Inteligência, o bicheiro já está aumentando as bancas para os bairros Conjunto Ceará, Granja Lisboa e Lagamar; a intenção é ganhar os negócios na Parangaba e no Montese e construir um monopólio da jogatina.

Guerra

Além disso, a fonte ainda afirmou que ele está procurando autoridades policiais de área para corrompê-las. “Só que isso vai gerar uma guerra porque os [bicheiros] daqui não vão aceitar, vai acabar um querendo matar o outro”, prevê. Há relatos de que alguns concorrentes do bicheiro no Bom Jardim procuraram-no para tentar um acordo, mas ele se negou a negociar.

Fortaleza já viveu período similar antes da formação da Organização Paratodos, em 1976, cuja sociedade era formada por 30 bicheiros e comandava todo o mercado a partir de um banco no Centro da Cidade.

Em 2008, contudo, a Polícia Federal deflagrou a Operação Arca de Noé e desbaratou a cúpula do jogo do bicho da Capital, criando vários focos de banqueiros em todo o Estado, independentes entre si e com formas diferentes de atuação.

A chegada de Darwin Henrique no Estado, para o policial, é como se ele quisesse criar “um novo Paratodos”, trazendo, inclusive, o pessoal de Recife para ajudá-lo a montar seu negócio aqui. As pessoas que trabalham com o bicheiro, adverso ao que ocorre no Ceará, recebem remuneração fixa, sem Carteira de Trabalho assinada.

Apuração

Uma das bancas de Darwin Henrique, no Bom Jardim, foi autuada no dia 15 de fevereiro deste ano por policiais do 32º Distrito Policial, responsável pela área de atuação do contraventor. Na ocasião, foram apreendidos os materiais do jogo, além da autuação de um homem que estava no local no momento da intervenção.

Contudo, na semana passada, o Diário do Nordeste foi na banca a fim de realizar um jogo e observou que o negócio já estava funcionando normalmente. No local, duas mulheres faziam o atendimento e, do lado de fora, um segurança particular cobria o perímetro.

De acordo com o delegado do 32º DP, Vicente Alencar, o processo já foi remetido à Justiça. “Primeiro a gente tem de receber a notícia-crime e, logo em seguida, instaura o Procedimento de Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO), fazemos a apreensão da máquina, interrogamos o autor e remetemos os autos à Justiça”, disse.

Conforme o delegado, porém, a instauração do processo pode mostrar outros delitos. “Naturalmente poderá haver outros crimes envolvidos no ‘simplório’ jogo do bicho, mas, tudo isso a gente tem a preocupação de remeter à Justiça com qualidade, autoria e materialidade”, pontuou.

A reportagem tentou contato com o bicheiro Darwin Henrique da Silva por meio dos telefones de suas empresas localizadas em Recife. Um dos números que constam no cadastro foi apresentado como desconhecido; no segundo, a pessoa que atendeu disse não conhecê-lo; no terceiro, as ligações não foram atendidas.

Banqueiro já teve problema em Pernambuco por valor de prêmios

O Diário do Nordeste visitou um dos negócios do contraventor, no Bom Jardim, e efetuou uma aposta com a intenção de ter um comprovante (acima) que validasse a contravenção penal realizada pelo grupo de Darwin Henrique na cidade de Fortaleza

Antes de chegar a Fortaleza, o bicheiro Darwin Henrique da Silva já acumulava divergências em Recife – sua cidade de origem -, na qual investiu fortemente no ramo do jogo do bicho na década de 1990.

Tudo começou antes mesmo da sua relação com a jogatina, pois o pai, Dráuzio José Henrique da Silva, havia sido presidente da Associação dos Vendedores Autônomos de Loterias (Aval)da cidade. Posteriormente, o filho ocupou o mesmo cargo e se desligou do grupo em meados de abril de 1999.

Quando houve a desvinculação, o bicheiro agiu praticamente da mesma forma na qual está atuando em Fortaleza: modificou o valor dos prêmios a fim de tornar suas bancas mais atraentes. Nos dois primeiros meses, contudo, amargou bastante prejuízo; no terceiro, o negócio começou a ir de vento em popa, atraiu mais clientes e as apostas, consequentemente, aumentaram. Enquanto as bancas de jogo do bicho da Aval pagavam quatro mil vezes pelo valor apostado na milhar, Darwin pagava cinco mil; no lugar de 400 vezes do valor investido na centena, o bicheiro premiava 800.

Foi então quando a associação reagiu e subiu o valor da cotação para sete mil vezes. Com a concorrência, Darwin esticou o valor da premiação das suas bancas para 8.800 vezes.

De investimento arriscado, em menos de cinco meses, o bicheiro aumentou as suas 13 bancas iniciais na Grande Recife para 2.200 pontos de jogo. O resultado para o contraventor foi de 100% de lucro no segundo semestre de 1999. O sucesso, segundo ele, porém, se devia à estrutura enxuta montada nos pontos de aposta, além do aumento dos ganhos de cambistas e arrecadadores.

Histórico

Na época em que investia no ramo das contravenções penais, Darwin Henrique criou um império, conhecido como o grupo DHS, capitalizando para si a sociedade de uma concessionária da Mitsubishi Motors Corporation (MMC), em Recife. O grupo atuava, em 1998, nos ramos de restaurantes, jogo do bicho, diversões eletrônicas e loterias – estes com as mesmas razões sociais: ‘Casa da Sorte’, ‘Caminho da Sorte’ ou ‘Esperança’.

Todavia, ao passo que o império crescia, os processos contra o bicheiro aumentavam da mesma forma. Atualmente, há 45 procedimentos de 1º grau divididos entre cíveis, criminais e de execução de títulos, colocando-o como réu no Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE).

Na 2ª instância, orbitam sobre ele um de devedor de Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU), requerido pelo Município de Recife. Os processos ou já foram finalizados ou ainda estão tramitando.

Na área criminal, Darwin Henrique responde atualmente a uma denúncia do Ministério Público de Pernambuco (MPPE) pela ocultação indevida de nove cartuchos de arma de fogo, calibre 38. Ele foi preso em flagrante, no dia 21 de novembro de 2014, e liberado após pagamento de fiança.

Em juízo, o bicheiro afirmou ter a posse da arma porque “fazia tiro ao alvo, mas deu baixa, inclusive porque ela foi roubada”. Está marcada uma nova audiência em junho desse processo que pode acarretar na suspensão condicional da pena. (Diário do Nordeste – Fortaleza – CE)