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“Nunca passamos por tantas dificuldades como agora”, Luiz Carlos Peralta, presidente do Sincoesp

26/05/2006

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Na data em que se comemora o Dia do Lotérico (26 de maio), o BNL convidou para uma entrevista exclusiva o empresário lotérico Luiz Carlos Peralta, presidente do Sindicato dos Empresários Lotéricos, Comissários e Consignatários do Estado de São Paulo (Sincoesp).

O Sincoesp é o maior sindicado de lotéricos do país, que reúne mais de dois mil associados, espalhados por uma rede de lojas no estado de São Paulo, que é responsável por aproximadamente 35% das apostas nas loterias da Caixa. Com essa autoridade, que o empresário lotérico da Predileta Loteria, de Campinas, vem trabalhando pela melhoria das condições dos lotéricos do seu estado. Nesse momento de transição para o Novo Modelo Tecnológico e Logístico da Caixa Econômica Federal, Peralta tem sido combativo, pois é exatamente em São Paulo que a rede vem enfrentando os maiores problemas durante o processo de transição.Para marcar o Dia do Lotérico, o Sincoesp convocou a categoria para uma manifestação em frente à sede da Caixa Econômica Federal, na Avenida Paulista e uma paralisação da rede lotérica em São Paulo, das 8h às 12h.  Na entrevista que aborda vários temas de polêmicos e de interesse dos lotéricos, Peralta afirma: “Sou lotérico há 38 anos, já passei por várias situações neste período. Mas nunca passamos por tantas dificuldades como agora.” Confira.

BNL – Durante a apresentação do novo sistema de loterias que substituirá o operado pela Gtech, realizado em Brasília (20.10.05), o então presidente da Caixa, Jorge Mattoso, destacou a parceria com a rede lotérica que “enfrenta situações difíceis e apesar dos assédios de outras empresas tem se mantido de cabeça erguida. Nesse momento de transição continua sendo importante a participação dos lotéricos e, faço questão de reconhecer a importância desses parceiros”, disse naquela época. O Senhor entende que esse reconhecimento do presidente da Caixa se aplica na prática?    

Luiz Carlos Peralta – Não. Apesar da parceria da rede lotérica com a CEF, essa relação parece não existir no sentido inverso. Em fevereiro, o Sincoesp    realizou uma reunião com os lotéricos de São Paulo, presidentes dos sindicatos nacionais e executivos da CEF, responsáveis pelo processo de internalização. Na ocasião, ficou bem claro que o Lotérico não é contra o processo. Mas, que exigia uma garantia de que não teria problemas para continuar realizando os atendimentos aos seus clientes. E o que está se vendo é exatamente o contrário.
Temos por exemplo, o anuncio da CEF de um lucro de R$ 700 milhões, só no primeiro trimestre de 2006, batendo todos os recordes de lucratividade. A CEF terá uma economia anual de cerca de R$ 200 milhões, com a saída da Gtech, da administração do sistema. E se nega a dar qualquer tipo de reajuste à Rede Lotérica.

BNL – Os empresários lotéricos de todo o País estão apreensivos com a implantação do Novo Modelo Tecnológico e Logístico pela Caixa Econômica Federal, devido ao fato do sistema estar apresentando problemas de transmissão em algumas cidades, principalmente no interior de São Paulo. Como o Sincoesp está acompanhando esse processo?

Luiz Carlos Peralta – Com muita preocupação, pois o sistema tem se mostrado incapaz de atender a demanda. Causando a impressão de que os problemas aumentam de acordo com o volume de máquinas substituídas. Preocupados com esta situação, o Sincoesp impetrou uma ação na Justiça Federal, exigindo que parte das máquinas da Gtech continuem instaladas na Rede Lotérica.

BNL – Com a decisão da Justiça Federal favorável ao Sincoesp, já são cinco sindicatos de lotéricos com liminares contra o processo de migração para os novos terminais da Caixa. Espírito Santo, Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais e São Paulo já têm decisão da Justiça Federal, garantindo o direito dos lotéricos manterem pelo menos um terminal Isys (Gtech). Mas essas liminares poderão comprometer o cronograma de instalação dos novos terminais da Caixa nas lotéricas desses estados.  Apesar da Caixa garantir o término do processo de transição nos próximos três meses, o Senhor não acredita que as decisões podem atrapalhar o processo?

Luiz Carlos Peralta – Na verdade, as decisões na justiça não atrapalham o cronograma. O que tem atrapalhado o cronograma de instalação é a incapacidade do novo sistema em atender as necessidades da Rede Lotérica. Pois, se os terminais estivessem funcionando adequadamente, não seriam necessárias as ações. O cronograma é de responsabilidade da CEF. O que o lotérico quer, é o direito de trabalhar e garantir a sobrevivência do negócio, e a manutenção da sua família.

BNL – Ficou decidido no último dia 11 de maio, entre a Caixa e os presidentes da Fenal, Aldemar Mascarenhas, e da Febralot, Paulo Michielon, que haverá ressarcimento aos lotéricos pela redução de receita decorrente da implantação do Novo Modelo Tecnológico e Logístico. Como o Sincoesp analisa essa decisão?

Luiz Carlos Peralta – Na realidade não houve uma discussão sobre a forma de ressarcimento com o representante da FENAL e da FEBRALOT. O que houve foi uma apresentação de uma proposta sobre o assunto. Pois nenhum dos dois tem procuração da rede, para aprovar, isoladamente, nenhum tipo de proposta apresentada pela Caixa. Acreditamos que a forma de cálculo do prejuízo está próximo do que espera o Lotérico. Mas, é preciso levar em conta como a própria CEF informou no Fax Prêmio nº 222, o crescimento do volume de autenticações em relação a 2005.Não se pode pensar no prejuízo imediato, no que se deixou de arrecadar. Pois não existem apenas problemas de danos materiais, mas também danos morais. E o prejuízo futuro, dos clientes que o lotérico está perdendo para outras redes e também os apostadores que migraram para outras lotéricas, que continuam atendendo normalmente com os terminais Gtech.

BNL – Qual a discordância do Sincoesp com a proposta de ressarcimento da Caixa?

Luiz Carlos Peralta – Não concordamos com três pontos: o não ressarcimento ao Lotérico que está inadimplente. Afinal, ele está nesta situação, pela impossibilidade de atender seus clientes.  Outro ponto é a separação dos Lotéricos que têm processo judicial aberto contra a CEF. Entrar na justiça é um direito constitucional. A CEF determina que se comprove as ligações realizadas para o 0800. Este atendimento quase nunca funciona. E em casos de queda do sistema, o serviço não tem obrigação de registrar o chamado. É um absurdo o lotérico precisar comprovar as ligações feitas para este serviço, na intenção de garantir o ressarcimento.

BNL – Porque o Sincoesp, que representa a maior parcela de empresários lotéricos do País, não foi convidado para participar dessa negociação?

Luiz Carlos Peralta  – Por que os gestores da Rede Lotérica, infelizmente, desconhecem que vivemos em um país democrático, onde as pessoas e as entidades, têm o direito de se manifestar. Tendo conhecimento da atitude do Sincoesp, de questionar as propostas apresentadas à rede, eles mudaram a data da reunião, sem comunicar o presidente do Sincoesp.

BNL – Atualmente, ainda é um bom negócio ser empresário lotérico?

Luiz Carlos Peralta  – Sou lotérico há 38 anos, já passei por várias situações neste período. Mas nunca passamos por tantas dificuldades como agora. Os executivos da CEF precisam usar o bom senso e reavaliar a relação comercial existente, para que o nosso negócio volte a ser rentável, com condições de sobrevivência. Pois, como está hoje, para a maioria da rede, deixou de ser um bom negócio.

BNL – Os dirigentes das entidades que representam os lotéricos nos estado defendem como soluções para o setor,  aumento do preço das apostas, melhoria no percentual de comissão dos serviços financeiros e liberdade comercial. Apenas essas iniciativas resolveriam ou seriam necessárias outras?

Luiz Carlos Peralta  – Não, pois seria uma solução imediata. É preciso que se discuta um projeto de futuro para a rede. Que se estabeleçam reajustes periódicos na remuneração de jogos e contas, possibilitando uma liberdade de criação de jogos, sem depender de aprovação do governo. Para isso, o principal seria a criação de um órgão independente de gestão das Loterias. Com a participação de representantes de fato da rede, junto com pessoas do governo, ou da própria CEF. Pois não é possível administrar uma rede complexa como a nossa da maneira como é feita hoje.  Onde várias superintendências, que não se entendem, têm poder de interferir nas decisões sobre o Negócio Lotérico.

BNL – Fala-se em liberdade comercial para melhorar a rentabilidade, mas essa proposta pode ser uma faca de dois gumes, pois a Caixa pode interpretar que o fim da exclusividade com as lotéricas e expandir a venda de seus produtos para outros pontos de vendas. Atualmente, as 9 mil lotéricas  gozam  de uma reserva de mercado. A exemplo das principais loterias do mundo, o Senhor não acredita que o crescimento dos pontos de venda de apostas representaria um aumento efetivo na comercialização dos produtos lotéricos?

Luiz Carlos Peralta – O que nós queremos é uma parceria onde o lotérico receba uma remuneração adequada, que possibilite a manutenção do seu negócio. De forma justa e equilibrada financeiramente. Se a CEF nos proporcionar esta remuneração, não precisaremos procurar outras parceiras no serviço de correspondentes bancários.O Sincoesp tem reivindicado a liberdade de estabelecer convênios em forma de Rede, com produtos legais e não concorrentes aos produtos da CEF. Quanto à expansão dos jogos para outros segmentos é preciso que se cumpra a lei, pois os jogos são de exploração exclusiva do governo, e a CEF, como concessionária dos jogos, tem a obrigação de licitar novos pontos de comercialização. Não tendo, portanto, esta liberdade de nomear novos revendedores.

BNL – Além dos jogos de loteria de prognósticos que a Caixa opera atualmente, o Senhor acredita que a CEF poderia ter um jogo eletrônico a nível nacional nas lotéricas?

Luiz Carlos Peralta  – Sim, pois precisamos acompanhar a evolução tecnológica. E oferecer ao público apostador o que existe de mais moderno. Acreditamos também, que a CEF poderá apresentar à Rede um jogo com sorteio diário, semelhante ao jogo de bicho. Com pagamentos de prêmios derivados de um mesmo número.

BNL – Atualmente, a Loteria Mineira e a Gtech operam o Pimba nas lotéricas de Minas Gerais. O Senhor acredita que uma iniciativa como a de Minas Gerais poderia ser rentável para os lotéricos de São Paulo?

Luiz Carlos Peralta  – O Pimba é um jogo que necessita um espaço físico maior para acomodação do púbico. Por questões econômicas, as lotéricas paulistas reduziram o espaço da sua loja. Mas, se houvesse a implantação do Pimba, ou outro jogo eletrônico, o que acreditamos ser rentável. O lotérico poderá se adequar à nova proposta.

BNL – Com a implantação dos serviços financeiros as lotéricas passaram a ter um aumento na movimentação de dinheiro, conseqüentemente os assaltos às lojas chegaram a níveis insuportáveis. Os jornais noticiam diariamente registros de violência contra lotéricas e empresários. Alguns lotéricos de Minais Gerais blindaram suas agências. O Senhor acredita que haveria mais alguma solução para esse problema em São Paulo?

Luiz Carlos Peralta  – É preciso que a Caixa cumpra a lei 7102/83, que exige a colocação de segurança na Rede Lotérica, pois a mesma é considerada pela Justiça do Trabalho, uma subagência da CEF. Importante também, seria a implantação do saque eletrônico, com cartão de outros bancos. Uma reivindicação da Rede lotérica desde 2003. E que até hoje, não foi implantado. Seria importante a alteração da data de vencimento das contas. Distribuindo durante o mês, o pagamento das contas, que é concentrado na primeira quinzena do mês.

BNL – E com relação ao transporte de valores pelos lotéricos. Existe uma lei que obriga que acima de um determinado valor, os recursos sejam transportados por carros fortes. Quem é obrigado a cumprir?

Luiz Carlos Peralta  – De acordo com a lei 7102/83, a instituição financeira, no caso a CEF, é obrigada arcar com os custos deste serviço.

BNL – No dia em que se comemora o Dia do Lotérico, quais outras considerações poderiam ser feitas sobre esse setor, pela sua reconhecida importância para a sociedade e para o Governo Federal?

Luiz Carlos Peralta  – É importante que os executivos da CEF deixem de se preocupar exclusivamente com o lucro do Banco. E dar mais importância às loterias. Destinando parte da economia, proporcionada com a saída da Gtech, aumentando a comissão do lotérico e  realizando trabalhos direcionados para o desenvolvimento e modernização dos jogos. Pois se em 2005 arrecadamos R$ 4,3 bilhões – uma soma considerável – mas muito abaixo do que o mercado de jogos movimenta no Brasil. Para que o Negócio Loterias passe a ser interessante, seria necessária uma arrecadação anual de pelo menos R$ 8 bilhões. O que daria uma arrecadação média mensal, por casa lotérica, de R$ 75 mil.

EDITORIAL: Dia do Lotérico
O BNL entende que o debate sobre a relação comercial entre a Caixa Econômica Federal e os Lotéricos é muito importante para essa atividade econômica. Ela movimenta uma expressiva parcela de recursos com destinações sociais e também é responsável pela geração de milhares de empregos, além disso, é na lotérica que o cidadão de baixa renda recebe benefícios sociais como o Bolsa Família.
Como as partes são dependentes, a retomada do diálogo é imperativo neste momento de uma irreversível transição.  
Não estava descartada a possibilidade do processo enfrentar problemas durante a implantação do Novo Modelo Tecnológico e Logístico da Caixa Econômica Federal, conforme informado em outubro do ano passado pelo próprio superintendente de Loterias e Jogos da CEF, Paulo Campos. Mas os problemas enfrentados pela rede lotérica nos últimos dias, apenas amplificaram o desgaste de uma relação que se esgarça há anos. Aproveitando o espírito do Dia do Lotérico, seria importante uma reflexão das partes sobre o futuro do negócio Loterias e a retomada urgente do diálogo entre as partes.