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O azar de Las Vegas

18/02/2002

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O principal cartão-postal da capital do jogo é a Las Vegas Boulevard, avenida que concentra os maiores e mais luxuosos cassinos do mundo. Na foto acima, as luzes dos hotéis e o lado glamouroso da cidade aparecem apenas ao fundo. No primeiro plano o que se vê é um condomínio residencial de classe média, cuja arquitetura sem graça nada lembra as imagens suntuosas que celebrizaram Las Vegas. O conjunto é uma espécie de símbolo das transformações que ocorrem na cidade. Las Vegas deixou de ser apenas um parque de diversões para adultos e se tornou a área urbana que mais cresce nos Estados Unidos. Na última década, a população local dobrou e já chegou à marca de 1,3 milhão de habitantes. A maior parte dessas pessoas é de imigrantes de origem latina e asiática que chegaram ao local para trabalhar nos cassinos ou negócios alimentados indiretamente pela indústria do jogo. Esse fenômeno levou para o lugar um problema típico das grandes metrópoles: o aumento da criminalidade. De um ano para cá, o número de assassinatos subiu 40% e o tráfico de drogas disparou. São números altos, mesmo levando em conta o crescimento populacional registrado no período. Uma pesquisa recente apontou outro grave problema local: o número de suicídios em Las Vegas é quatro vezes maior que o registrado em outras cidades americanas do mesmo tamanho que não possuem cassinos.
A maré de azar que atinge a cidade registrou outra péssima notícia na semana passada. Depois do longo período de pujança financeira responsável pelo formidável crescimento de sua população, a economia de Las Vegas começou a dar sinais preocupantes. De acordo com um relatório da comissão de cassinos de Nevada, o Estado onde fica Las Vegas, o faturamento do jogo caiu pela primeira vez desde o início dos anos 80. Em 2001, movimentou 9,4 bilhões de dólares, resultado 1,4% inferior ao de 2000. O total de visitantes da capital mundial dos jogos de azar caiu 2%. Parece pouco quando se observam os porcentuais, mas em números absolutos significa 800 000 apostadores a menos nas roletas da cidade. Segundo os empresários do ramo, a queda ocorreu por causa de uma combinação de dois fatores: o atentado às torres do World Trade Center e o desaceleramento da economia do país.
Desde a década de 30, cada Estado americano tem autonomia para decidir se quer ou não permitir a atuação da indústria das apostas. Hoje, de um total de cinqüenta, 28 deles optaram por liberar os cassinos. Las Vegas não é o único caso citado como exemplo dos efeitos perversos da prática do jogo. Segundo um estudo recente da Universidade da Geórgia, as cidades que abriram suas portas aos cassinos sofreram incremento médio de 8% nas taxas de criminalidade. Outra pesquisa, encomendada no começo da década de 90 pelo governo do Estado da Flórida, concluiu que os cassinos poderiam gerar na região um movimento adicional na economia de 470 milhões de dólares por ano. Ao mesmo tempo, segundo esse trabalho, teriam de ser gastos 4 bilhões de dólares para combater os problemas decorrentes da liberação das apostas. De acordo com os estudiosos, dois terços dos jogadores compulsivos recorrem a atividades ilegais para financiar as apostas e metade deles burla o imposto de renda. Esses indivíduos, segundo os especialistas, custam à sociedade entre 13.000 e 52.000 dólares por ano. Com base nesses dados, o governo da Flórida manteve a proibição aos jogos.
Os problemas gerados pelos cassinos não são um produto exclusivo dos Estados Unidos. Do badalado principado de Mônaco às capitais do Leste Europeu, que liberaram o jogo depois da queda do Muro de Berlim, a maior parte das cidades que viraram centro do jogo possui hoje taxas elevadas de criminalidade, prostituição e sonegação de impostos. Por causa disso, tem crescido nos últimos anos o lobby favorável ao fim da indústria de apostas. Os críticos travam uma queda-de-braço interminável com os empresários que participam do negócio, principalmente nos Estados Unidos. Os defensores do jogo argumentam que a atividade fomenta o turismo, desenvolve as cidades e gera muitos empregos. Somente nos EUA, estima-se que os cassinos sustentem 800 000 postos de trabalho e sejam responsáveis por um faturamento anual de 26 bilhões de dólares – um naco considerável desse dinheiro volta para o bolso dos Estados, na forma de impostos.
“Existem problemas, é verdade, mas os benefícios gerados são muito maiores”, argumenta o empresário brasileiro Ciro Batelli. A discussão é complexa e está longe do fim. Instalado em Las Vegas há dezoito anos, Batelli trabalhou como funcionário de cassinos e hoje é consultor de hotéis e grupos interessados em investir na indústria do jogo em qualquer parte do mundo. No Brasil, o empresário atua como um dos principais defensores da legalização das casas de apostas. Um projeto de lei criado para esse fim tramita no Congresso Nacional desde 1994. Depois de passar na Câmara dos Deputados, ele se encontra sob análise da comissão de assuntos sociais do Senado Federal. Se for aprovado, segue direto para sanção ou veto do presidente da República. “Esse assunto está se arrastando há tanto tempo que o desfecho do caso se tornou absolutamente imprevisível”, afirma Batelli.
Revista Veja – Amauri Segalla