O drama do apostador compulsivo

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Silêncio, concentração para não errar na hora de marcar a cartela, a explosão de alegria com o grito que anuncia a vitória: ”Bingo!” Para a maioria das pessoas, momentos passados com amigos em torno de uma cartela de jogo são apenas um programa agradável, como ir ao cinema ou ao teatro. Para os jogadores compulsivos, entretanto, uma tarde passada no bingo pode virar um prejuízo de alguns milhares de reais na conta bancária. ”Chega uma hora em que a gente não está mais ali para se divertir, mas para perder. É uma auto-destruição”, define a professora L.F.R, 55 anos, integrante do grupo Jogadores Anônimos (J.A.), que completou nove anos no último sábado.
Os depoimentos para esta reportagem foram colhidos em uma reunião do J.A. com cerca de 60 pessoas, em Botafogo. Os personagens serão identificados apenas pelas iniciais, já que preservar o anonimato é uma das normas do grupo. Os motivos vão além do medo de enfrentar o preconceito. ”É fundamental para o tratamento que as pessoas se conheçam o menos possível. Alguns chegam à reunião e são chamados apenas por apelidos”, explica o psicólogo e jogador compulsivo B.A.M, 47 anos. Para ele, os grupos de auto-ajuda, onde um depende do outro, são a única maneira de recuperação. ”Não existe uma terapia individual que consiga esse resultado”, acredita.
Proibidos no Brasil desde 1946, por decisão do então presidente Eurico Gaspar Dutra – segundo a lenda, atendendo a um pedido de sua mulher -, os jogos de azar nunca deixaram de existir: só passaram para a clandestinidade. As discussões em torno da sua liberação também sempre existiu. Em 1998, com a lei Pelé, veio a legalização dos bingos e a nova modalidade de aposta atraiu muita gente. Hoje os viciados em preencher cartelas e torcer pelas bolinhas em máquinas eletrônicas representam 80% dos freqüentadores das reuniões de jogadores anônimos.
Família – Comprometer o salário e ficar atolado em dívidas são prejuízos que os jogadores compulsivos conseguem contabilizar, mas, para eles, a maior perda é a da dignidade. ”Eu não estava mais levando dinheiro para casa, gastava tudo em jogo. Meu filho me chamou para conversar e chegou a perguntou se eu era homossexual. Expliquei o que estava acontecendo e ele me trouxe para o J.A.”, conta o engenheiro R.C.B, 58 anos, lembrando que já chegou a ser preso apostando em uma roleta clandestina. ”Podia ser em qualquer coisa, até se a placa do próximo carro seria par ou ímpar, o importante era apostar”, lembra.
O envolvimento da família acaba sendo inevitável, e o drama do vício leva à desintegração do ambiente doméstico. Por causa do sofrimento dos parentes, foi criado o grupo de ajuda aos familiares de jogadores, o Jog-Anom. ”A família costuma ter dificuldades em admitir que nada pode fazer. Não adianta brigar, nem esconder os erros da mãe ou do marido. É uma barra muito pesada”, garante S.P.S, mulher de um jogador compulsivo.
‘Bingólatra’ vive devendo
O perfil do jogador compulsivo tem mudado nos últimos anos, principalmente a partir de 1998, com a legalização dos bingos. ”A presença de mulheres nos encontros era muito pequena”, afirma P.P.R, 57 anos, um dos mais antigos integrantes do Jogadores Anônimos. Hoje, elas dividem a sala de reunião em pé de igualdade com os homens. ”Comecei a jogar aos 60 anos. Era uma forma de me divertir, mas acabei devendo mais de R$ 80 mil”, conta a advogada S.A.L., 76 anos, há dois no J.A..
Segundo ela, a maior dificuldade do jogador compulsivo é entender quando a diversão se transforma em doença. ”Cheguei a passar 12 horas por dia dentro do bingo. O dinheiro acabava e eu continuava querendo jogar”, lembra. Baseado nos princípios do Alcoólicos Anônimos, o lema do J.A. é ”só por hoje não farei a primeira aposta”.
As ”bingólatras”, como são chamadas, são em geral mulheres com mais de 50 anos e divorciadas, que vêem no bingo um ponto de diversão bonito e seguro. Como acontece com as drogas, no início os compulsivos acham que têm o controle da situação. Depois, o jogo torna-se um vício como outro qualquer. E.R.N., 18 anos, faz companhia à mãe nas reuniões. ”Demorei a entender a doença, mas agora quero apoiar minha mãe”, diz o jovem, que freqüenta as reuniões do Jog-Anom, onde os familiares trocam experiências.
Jornal do Brasil – RJ – Guatavo Schleder

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