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Paixão perigosa – Funcionando como compensação para carências, é entre as mulheres que o jogo faz vítimas mais depressa

21/08/2002

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Diversão garantida é ter emoções na dose certa. Como acontece com muitas mulheres pelo mundo afora, a advogada Maria Carolina Passanezi, de 22 anos, adora jogar cartas com seus amigos nas horas de lazer. Aliás, ela aprecia jogos em geral, inclusive o gamão, que não chega a ser popular no Brasil.
“De todos, o de que mais gosto é o bingo”, anima-se. “Mas, como envolve dinheiro, sempre estabeleço para mim mesma uma quantia que posso gastar e não a ultrapasso.”
Passatempo predileto da advogada Maria Carolina, 22, o bingo só pede sorte e, por isso, pode viciar. Assim como Maria Carolina, uma legião de mulheres transforma os jogos de azar num saudável passatempo. Mas, numa época marcada por promessas de prêmios a cada esquina, muitas vivenciam os jogos com tal intensidade que podem chegar ao ponto de apresentar transtornos de comportamento. Na maioria das vezes, essas jogadoras compulsivas se ligam em modalidades de jogo que não exigem qualquer aptidão especial. Ficam, literalmente, à mercê da sorte.
O alerta vermelho para as mulheres foi acionado por uma reveladora pesquisa do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP). De acordo com o estudo, as mulheres se viciam em jogos de azar em um período três vezes mais curto do que os homens. Embora eles comecem a jogar muito mais cedo, costumam levar, em média, 20 anos para se viciar. Elas, em compensação, podem se tornar jogadoras compulsivas com facilidade, mesmo que resistam a assumir o fato.
“Foi uma atração fatal. Durante uma época, passava todo o meu tempo livre em bingos”, conta a recepcionista Fátima Souza, de 43 anos, que inclusive conheceu o pai de seu filho, Júlio, de 4 anos, em uma casa de jogos na elegante região dos Jardins, em São Paulo. “Vi tantas amigas perderem patrimônio e se enrolarem em dívidas por causa de bingos que me forcei a mudar de comportamento. Hoje, quando vou, estipulo um pequeno valor para gastar. Quando perco essa quantia, volto rapidinho para casa.”
Coordenadora do Ambulatório do Jogo, um programa para orientação e atendimento a dependentes da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a psicóloga Maria Paula Magalhães de Oliveira constata no cotidiano o agravamento do problema entre mulheres. Quando o serviço foi criado, em 1994, existia uma mulher para cada três homens atendidos pela Unifesp. Hoje, a proporção aumentou para duas mulheres em relação a cada grupo de três homens. A mudança coincide com a proliferação de casas de bingo pelo país, um jogo que não exige qualquer habilidade do apostador, mas que desponta como o primeiro colocado na preferência feminina.
“As pessoas que jogam bingo se sentem menos culpadas, pois, em nível inconsciente, há uma associação com atividades filantrópicas”, compara Maria Paula, lembrando que a fórmula é inclusive adotada por escolas e instituições religiosas para arrecadar recursos. Na versão comercial do bingo, tudo é mais sofisticado e planejado. Quem entra num salão bem montado, com algum dinheiro no bolso, encontra um serviço de qualidade e poucos motivos para sair de lá. “O ambiente é envolvente, tem pouca iluminação, não há relógio chamando para a realidade da vida lá fora e os funcionários são atenciosos”, enumera a psicóloga.
Solução para todos os problemas
O jogo patológico já havia sido tema da tese de pós-graduação de Maria Paula na USP. “O carteado e o jogo do bicho são, de modo geral, clássicos do universo masculino. No Jockey, apostando em cavalos, encontrei poucas mulheres. No videopôquer elas também são raras. Em compensação, elas são a maioria no bingo, o jogo com o qual mais se identificam”, comenta a psicóloga. Historicamente mais identificados com os jogos, os homens os procuram atrás de emoção. Muitas mulheres, ao contrário, acabam adotando-os como forma de compensar carências. E aí é que mora o perigo.
O pensamento mágico de que uma solução para os problemas vai cair do céu é que leva ao vício, diz a psicóloga Maria Paula Magalhães de Oliveira. O vício pega pelos pontos fracos de cada um. Por isso, na hora de tentar vencê-lo, homens e mulheres acabam no mesmo lugar. O primeiro passo é pedir ajuda. “Parece simples, mas trata-se de um processo difícil. A tendência das pessoas é negar a existência do problema, especialmente das mulheres, cuja ausência de casa é a mais sentida. Além do mais, os jogos são estimulados pela própria sociedade, por causa do pensamento mágico de que a solução para todos os problemas vai cair do céu”, analisa Maria Paula.
Os programas de ajuda para dependentes de jogos incluem atividades em grupo, nas quais a pessoa partilha com outras suas experiências. Dois pontos fundamentais são descobrir o papel do jogo na própria vida e encontrar outras atividades para substituí-lo. Nos casos em que há depressão ou ansiedade associadas, é preciso fazer também um acompanhamento clínico. O apoio da família é essencial, exemplifica a coordenadora do Ambulatório do Jogo.
Embora as estatísticas sejam preocupantes, resta lembrar que o fato de apreciar apostas nem sempre leva ao vício. Tudo depende da relação de cada um com a própria vida. “Tem de ter bom senso e saber que jogo não é fonte de recursos para ninguém. Mas pode virar prejuízo, se a pessoa não se controlar”, ensina Conceição Pinto Fiuza, uma fã assumida das corridas de cavalo. Há mais de três décadas, Conceição freqüenta semanalmente o Jockey Club de São Paulo. Aos 73 anos, ela está aposentada como gerente de uma empresa de turismo e, de dois anos para cá, virou estrela de peças publicitárias.
Na última delas, para a televisão, aparecia em horário nobre, tomando cafezinho numa roda de amigas. “Naquela propaganda, fiquei mesmo elegante, usei até chapéu. Hoje já não dá para ir ao Jockey tão arrumada, por causa dos assaltos”, defende Conceição. Se todas as pessoas conseguissem manter
esse tipo de relação com o jogo, estaria muito bom. Na prática, não é assim. Embora não existam pesquisas sobre o número de jogadores compulsivos em todo o Brasil, sabe-se que as Associações de Jogadores Anônimos, antes restritas ao eixo São Paulo – Rio, estão proliferando por todo o país. Apenas em São Paulo, estima-se que existam cerca de 450 mil pessoas com este tipo de dependência. Do total, 33% são mulheres.
Quando menos se espera, o fundo do poço
Entrar num carteado, passar uma tarde no bingo ou vez por outra apostar num palpite não faz mal a ninguém. Ao contrário, pode ser um programa divertido. É fundamental, porém, que as pessoas, em particular as mulheres, fiquem atentas às próprias atitudes. Os mesmos caminhos que levam ao prazer podem desembocar num transtorno do comportamento. Daí, não custa lembrar que o hábito de jogar vem acompanhado do risco de adquirir um vício, com todas as suas conseqüências.
A recepcionista Fátima Souza, 43, que estipula uma pequena quantia para perder no bingo, consegue fazer do jogo diversão. “A chave da diferença, na maioria das vezes, é o dinheiro. Quando alguém decide apostar de novo para recuperar o que perdeu, entra num círculo vicioso. Quanto mais aposta, mais perde. É o fundo do poço”, afirma a psicóloga Maria Paula Magalhães de Oliveira.
Moradora de um condomínio na cidade de Osasco, na região metropolitana de São Paulo, a analista de sistemas Vanda, de 32 anos, demorou para reconhecer que havia caído nas garras do vício. Como seu marido trabalha à noite, de vez em quando passava com colegas de escritório em um bingo nas proximidades da empresa onde trabalha.
Acreditava ter encontrado uma forma agradável de relaxar depois de um expediente puxado. Como a maioria dos mortais, vibrava quando ganhava alguns trocados, mas jamais apostava muito dinheiro. Há um ano, quase sem perceber, Vanda passou a jogar quase todas as noites e a perder uma fatia cada vez
maior do salário. “Primeiro, acabei com toda a reserva que tinha. Depois, deixei de pagar um plano de previdência privada e, no final, me enrolei de dívidas até o pescoço”, admite.
“Achava que valia a pena tentar mais uma vez, para zerar a situação, e me enrolava mais um pouco.” Para não assumir em casa que tinha dívidas, Vanda começou a inventar uma série de mentiras. Durante três meses, chegou a simular que estava fazendo um curso noturno de especialização. “Um dia a casa caiu. Até nos finais de semana, eu desaparecia por horas a fio. Meu marido, que não agüentava mais meu stress e estava para lá de desconfiado, descobriu tudo”, lembra.
“Foi duro. Minha sorte é que não temos filhos, pois era uma discussão atrás da outra. Demorei para aceitar que precisava de um tratamento.” Há um mês, Vanda freqüenta um grupo de ajuda a jogadores compulsivos, mas não se arrisca a dizer que não se deixará seduzir de novo pela jogatina. Por via das dúvidas, anda sempre com pouco dinheiro. Cancelou os cartões de crédito, o talão de cheques e passou a transferir seu salário direto para a conta bancária do marido.
De passatempo inocente, o hábito se transforma em vício.
Os componentes que levam uma pessoa a se viciar em jogos ainda são um enigma para os cientistas. “O que se sabe, comprovadamente, é que em alguns casos existe uma carga genética, hereditária, que torna o indivíduo vulnerável ao jogo”, afirma a psiquiatra Mônica Levit Zilberman, do Ambulatório do Jogo Patológico da USP.
A psiquiatra não tem dúvidas, porém, de que, enquanto os homens buscam adrenalina, as jogadoras compulsivas tentam encontrar um consolo para seus problemas, em especial a depressão e a ansiedade. “Quando jogam, sentem uma espécie de alívio. Por isso acabam repetindo o comportamento”, esclarece.
Embora ressalte que a cura é perfeitamente possível, Mônica lembra que, no caso da mulher, existe o mascaramento do problema, pois nela, em especial, o comportamento é mais criticado. “É provável que por isso as mulheres se envolvam com jogos legalizados. E os que não dependem de habilidade, mas de sorte, são os que viciam.”.
Carmen Fenoi