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Pandemia é tempestade perfeita para crime organizado, diz especialista em combate à fraude no esporte

18/05/2020

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Fred Lord, diretor do departamento de anticorrupção e transparência do ICSS (International Center For Sport Security) — Foto: Reprodução de Instagram

Fred Lord é um dos principais especialistas no combate à manipulação de resultados no esporte. Ele foi executivo no escritório anticorrupção da Interpol na França e gerente do programa de integridade firmado entre a entidade e a Fifa no início da década. Desde 2014, Lord é diretor do departamento de anticorrupção e transparência do ICSS (International Center For Sport Security), centro especializado em segurança no esporte, baseado no Catar, país sede da próxima Copa do Mundo.

Na entrevista, ele faz um alerta sobre o impacto da pandemia no esporte. Segundo Lord, a Covid cria condições para o crime organizado agir nos campos e quadras. O especialista acredita que os jogadores, com salários atrasados ou contratos cancelados, são os mais vulneráveis.

– Com o esporte parado pela Covid-19, muitos atletas em todo o mundo não conseguem manter uma renda para se sustentar, criando uma tempestade perfeita para o crime organizado.

De acordo com Lord, em fraudes no esporte, os integrantes das máfias já estão assediando atletas.

– O crime organizado entende muito bem essa situação e usará essa oportunidade como uma vantagem.

Quadrilhas especializadas em manipular jogos atuam no Brasil. Em janeiro, o Esporte Espetacular revelou a ação de suspeitos de integrarem um esquema de manipulação de resultados na quarta divisão do futebol do Rio. O programa obteve depoimentos de atletas, teve acesso a diálogos dos envolvidos e gravou a atuação dos suspeitos nas arquibancadas para mostrar como o grupo fraudava os jogos. Segundo a Polícia Civil, pelo menos 9 dos 15 times participaram do esquema.

Mesmo com a paralisação do futebol em quase todo o planeta, as quadrilhas continuam fraudando. Eles agora organizam os chamados “jogos fantasmas”, partidas que não acontecem, mas são incluídas em sites de apostas pelos manipuladores. Autoridades conseguiram detectar pelo menos dois “jogos fantasmas” na Ucrânia, no final de março. A competição era chamada Copa Azov, um torneio amistoso que reuniria equipes amadoras, mas não saiu do papel. Nos sites de apostas, os dois primeiros jogos movimentaram cerca de 100 mil libras (cerca de R$ 720 mil). As partidas tiveram os seus lances descritos em tempo real por uma das empresas de scout que alimenta os sites internacionais de apostas.

Após a descoberta da fraude, os outros jogos da Copa Azov agendados pelas casas de apostas foram desmarcados. Em seguida, a Federação Ucraniana de Futebol disse que as partidas não ocorreram e foram criadas para fraudar os mercados de apostas. Em comunicado, a empresa de scout pediu desculpas

Qual o impacto da pandemia no combate à fraude no esporte?

– Com o esporte parado pela Covid-19, muitos atletas em todo o mundo não conseguem manter uma renda para se sustentar criando uma tempestade perfeita para o crime organizado.

“Os manipuladores planejam suas abordagens com o objetivo de fraudar e comprometer jogadores antes do reinício das atividades esportivas”

Atletas são mais fáceis de se abordar e manipular individualmente do que em um ambiente de equipe. Eles podem não ter um contrato agora, podem não estar recebendo um salário ou apoiados por sua federação ou entidade de administração esportiva. O crime organizado entende muito bem essa situação e usará essa oportunidade como uma vantagem.

Como monitorar a manipulação dos resultados no meio da pandemia?

– Este é um ponto extremamente interessante, que mostra o apetite global pelas apostas esportivas. Mesmo durante a pandemia com o futebol parado, criminosos conseguiram orquestrar jogos de futebol e fraudar casas de apostas. Isso destaca claramente a necessidade crítica de se investigar as competições esportivas que são oferecidas. Os “jogos fantasmas” continuam sendo um problema e não está realmente claro se a devida diligência está sendo conduzida.

Já foi possível constatar a ação desses manipuladores durante a pandemia?

– Sim. Um torneio chamado de Copa Azov foi promovido entre alguns clubes ucranianos da liga inferior no final de março. Esses jogos, que não saíram do papel, foram oferecidos por um site que faz scout das partidas (registrando os lances dos jogos em tempo real e repassando o conteúdo para casas de apostas). A empresa alegou que foi levada ao erro pelos seus olheiros locais.

Estima-se que foram apostadas até 100 mil libras (cerca de R$ 700 mil) durante esses jogos falsos. As partidas fantasmas bem-sucedidas foram oferecidas por várias casas de apostas de destaque. Já as partidas restantes foram canceladas depois que a trapaça foi descoberta. Isso foi relatado pela primeira vez no site “Inside World Football”.

Há confusão sobre quem seria o responsável por investigar crimes, como “jogos fantasmas”, uma vez que não são cobertos pelas federações de futebol e nem recebem uma prioridade das autoridades. As casas de apostas, talvez, relutem em relatar essas fraudes.

Esses crimes também podem ser realizados online e em todos os continentes, em jurisdições que talvez nem tenham a legislação relevante para cobrir tais crimes.

Durante esse período crítico, a educação permanente será a chave para qualquer atleta, para lembrá-los dos perigos do crime organizado e para reconhecer, resistir e delatar os criminosos

O senhor tem um estudo atualizado sobre manipulação de resultados no mundo?

– No ICSS, operamos nossa Linha direta de integridade esportiva desde 2017, que aceita informações em todos os esportes. Dos 274 relatórios recebidos desde 2017, mais de 100 arquivos estão relacionados à correção de resultados e fraudes nas apostas, de 40 países diferentes em todos os continentes.

O senhor acredita que os manipuladores sairão mais fortes após a pandemia?

– Com a parada do esporte, as empresas criminosas que atuam no esporte também tiveram uma redução maciça nos rendimentos. Por causa da dificuldade de movimento provocado pela pandemia, os grupos mais inteligentes estão usando esse tempo para se aproximar de atletas locais em preparação para o retorno do esporte.

Os manipuladores podem ter um grande mercado de atletas para cooptar, mas também oferece uma boa oportunidade para autoridades e organizações esportivas monitorarem de perto os principais eventos esportivos quando retornarem. Os manipuladores aguardam suas novas oportunidades. (GloboEsporte – Por Sérgio Rangel — Rio de Janeiro)