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Presidente da Caixa comenta sobre ‘sentimento de conflito’ com os lotéricos

26/12/2019

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“Vamos aumentar isso (lotéricas) em mil pontos de venda. Vamos passar de 26 mil para 27 mil”, Pedro Guimarães

Caixa Econômica Federal encerra 2019 cumprindo a prometida redução de juros do cheque especial, do rotativo do cartão de crédito e do crédito imobiliário. A meta é ser cada vez mais identificada como um banco social. Não à toa, essa é uma das principais posturas de ajuste na governança do presidente da estatal, Pedro Guimarães. Em entrevista ao programa CB Poder, uma parceria entre oCorreio e a TV Brasília, ele promete, em 2020, acelerar a liberação de microcrédito.

O governo aposta no fomento ao empreendedorismo. E a engenharia financeira que pode viabilizar o sonho da primeira empresa pode vir do microcrédito, espera Guimarães. “Quando a gente assumiu, estava ainda mais focada em empréstimo para grandes empresas. Isso mudou”, diz. A meta é oferecer crédito acessível em diferentes modalidades. O presidente do banco estatal entende que o potencial que consumidores e microempresários têm para gerar novas operações é o mais importante, e diz que boas notícias não faltarão ao longo do ano.

Para o consumidor que deseja realizar o sonho da casa própria, vem aí o crédito pré-fixado. Quem optar por limpar o nome poderá recorrer ao Você no Azul, que será mantido. A Caixa projeta, ainda, juros mais baixos em todas as modalidades de crédito. Além de acompanhar a queda da taxa básica de juros (Selic), a previsão é reduzir a inadimplência de clientes. “Se a gente perceber que, realmente, estamos ganhando até mais do que imaginávamos, nada nos prende. Cheque especial a 4,95% eu, pessoalmente, não estou satisfeito”, destaca Guimarães, ou seja, a taxa pode cair mais. Confira esses e outros temas na entrevista:

Qual o balanço que o senhor faz do ano que está terminando? E para o ano que vem, o que a população pode esperar da Caixa?

Quando assumimos, o primeiro ponto era entender o funcionamento da Caixa, banco que é muito diferente, porque tem um forte componente social. O que a gente fez, os primeiros movimentos? Primeiro, realizamos uma troca gerencial, tendo como foco a meritocracia. Essa troca foi muito rápida. E quisemos ter um conhecimento do Brasil como um todo, porque a Caixa é o banco de todos os brasileiros e das políticas sociais. Fizemos um movimento de viajar pelo Brasil inteiro, realizando as viagens por 41 fins de semana. Fomos a todos os estados, em alguns deles,  até três vezes. Visitamos 15 mil funcionários, mais de 300 agências, 55 projetos do Minha Casa Minha Vida, tendo inaugurado seis. Isso foi muito importante, porque ficou claríssimo que a Caixa tem papel diferenciado no Brasil, em especial, nas regiões mais carentes e no interior do país.

O ministro Paulo Guedes chegou a falar em privatização da Caixa. Ela está fora disso?

Está, é uma determinação do presidente Jair Bolsonaro. Ainda no governo de transição, quando começamos essa discussão, eram três pessoas da equipe do ministro: eu, Roberto Castello Branco (presidente da Petrobras) e Rubem Novaes (presidente do Banco do Brasil). Para cada um deles, o ministro Paulo Guedes acabou destinando a liderança de uma das três grandes estatais e há uma determinação de não discutir privatização. Por outro lado, há uma discussão de abertura de capital das subsidiárias, como as de seguridade, de cartões, que são muito importantes, mas não estão no core business, ou seja, no coração das atividades da Caixa, que é muito ligada à parte imobiliária e de políticas sociais.

(…)

A Caixa costumava patrocinar o esporte, como seu Flamengo, que, agora, é vice-campeão do mundo. Por que não patrocina mais o futebol? O que houve?

O Flamengo não precisa da Caixa. Eu nadei 20 anos no Clube, a piscina tem o nome do meu pai, tenho orgulho enorme de ter sido atleta profissional, mas o Flamengo não precisa da Caixa. Nós cortamos, já na primeira semana da nova gestão, o patrocínio para os 22 clubes de futebol — e não tenho nenhuma dúvida de que foi uma decisão acertada. Não voltaremos. Quem precisa da Caixa? Vou dar um exemplo: no Acre, estávamos visitando a Caixa Mais Brasil e havia 10 cadeirantes jogando basquete. Era muito interessante, mas as cadeiras tinham 20 anos, pelo menos, de uso. Não tinha mais nem proteção. As pernas dos jogadores estavam cortadas. Nós ajudamos. Sabe quanto custou?  Nada. R$ 2 mil cada cadeira. Isso nós vamos fazer pelo Brasil inteiro. A Caixa vai fazer patrocínio regional, em especial para os mais carentes. A Confederação Brasileira quer que continuemos a patrocinar o esporte paralímpico, ginástica olímpica, atletismo e ela não tem nenhuma condição. Por exemplo, as crianças menores, as meninas com seis, sete, ou oito anos, muitas vezes, estavam com colantes rasgados, muito usados, ou estavam sem material.

O senhor fala em ampliar o número de agências, mas como vai ser esse movimento em um cenário de ajuste fiscal?

A Caixa é o quinto banco do mundo por clientes. São 112 milhões. É o maior banco da América Latina, o maior banco do Hemisfério Sul e, por pontos de venda, é o terceiro maior. São 26 mil pontos de venda. Quando a gente assumiu, era muito clara a diferença entre a Caixa e os lotéricos. Havia um sentimento de conflito. Só que a Caixa, a força dela é de complementaridade. Vou lhe dar um exemplo. Ao redor do número aproximado de 4,2 mil agências, há 8,7 mil correspondentes exclusivos, que são muito importantes, porque fazem o crédito imobiliário. A originação do crédito imobiliário está nos correspondentes bancários exclusivos (correspondente Caixa Aqui) e mais de 13 mil lotéricos. No pagamento do FGTS, 40% das pessoas receberam pelos lotéricos. Só que os lotéricos não têm uma tecnologia… Nem nos últimos 10 anos. Por exemplo, não podem receber um cartão de crédito. Tudo tem que ser dinheiro ou cartão de débito da Caixa.

Vai reduzir o número de lotéricas?

Não, vai aumentar. Vamos aumentar isso em mil pontos de venda. Vamos passar de 26 mil para 27 mil. O mesmo vale para as agências. Tem várias cidades em locais de crescimento muito acelerado em que nós continuamos com uma agência, só que a gente devia ter três. Então, o que é o mantra? Não fecharemos, na minha gestão, nenhuma agência onde só tem uma agência, ou seja, nós estaremos nos 5.570 municípios. Por quê? Porque a Caixa é um banco social.

Mas ampliando o número de agências vai, também, requerer uma necessidade de mão de obra, de profissionais…

Perfeito. O que acontece? Nós contratamos 2,8 mil aprovados no concurso de 2014. São basicamente pessoas com algum tipo de deficiência, 90% com deficiências muito leves. Mas, do ponto de vista de atendimento, diria que têm uma qualidade excepcional.

Na loteria vai todo mundo…

Na loteria, o que acontece? Você faz essa expansão, por exemplo, de 700 lotéricas, então, tem custo para a Caixa. E, com a melhora de tecnologia, nós, até na questão de aumento, 100% vão para a rede. Logo, já tem mais gente. Por outro lado, a discussão de fechar alguma agência só vai acontecer se for em algum local onde, matematicamente, você tem, em uma avenida três ou quatro agências. Faz sentido ter três ou quatro?  Você pode fechar uma. Então, como você teve um movimento, ao redor de cinco anos atrás, de aumentar mais de mil agências, algumas delas, hoje, não fazem sentido. Mas isso é minoria da minoria. Agora, é o banco da matemática. Mas, para ser objetivo, entendemos que essas 700 lotéricas têm componente social. Mas, como ganhamos dinheiro para ser o gestor do FGTS, pagar o Bolsa Família, todos os benefícios sociais, isso é muito importante. Como você mede a rentabilidade de uma agência? Se você está em um local muito distante, esse, certamente, não vai ser um local de empréstimo para grandes empresas, nem de investimento. Ali, é a parte social. Agora, a Caixa é um banco de todos os brasileiros, e aí tem um ponto muito importante. Nós já estamos em 5.415 municípios. Dos cinco maiores bancos, tem dois que estão em mil municípios. Todos os dois dão 3 mil. Nós estamos em 5.415. Aí, a questão é a seguinte: quem está em 5.415 tem que estar em 5.570. E tem um custo? Tem.

Quanto tempo leva para colocar isso em curso?

Até março, porque a maioria é de lotéricas. As 30 agências já estão todas em processo…

(Correio Braziliense – Denise Rothenburg – Rodolfo Costa – Vera Batista)