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Quem aposta no futuro do Jockey

26/11/2001

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“No dia em que vi um cara de bermuda e bonEzinho nunca mais voltei ao Jockey”, afirma Armando Conceição, advogado paulista e sócio remido do clube, grande apostador do tempo em que era obrigatório o uso de traje social para entrar na ampla e elegante sede. Isso se passou há quase 10 anos, e marca o início da transformação pela qual passa o Jockey Club de São Paulo, que hoje enfrenta a pior crise de sua longa história.
As arquibancadas estão permanentemente vazias, e não é preciso ir lá para constatar isso: mesmo quem passa de automóvel pela Marginal Pinheiros nos dias de corrida pode ver o triste cenário. O Jockey vem sobrevivendo muito mais graças a seus restaurantes e serviços terceirizados do que das apostas em cavalos, que diminuíram muito nos últimos anos. Hoje, o rateio (volume de apostas) está atingindo seu nível mais crítico.
Decadência
A Mercearia São Roque, o Cânter e o Charlô são lugares onde se serve boa comida, petiscos e refeições variadas, sempre cheios de pessoas bonitas, elegantes e ricas, que às vezes apostam.
Mas não o bastante. O aluguel dos grandes salões para eventos nobres e de repercussão nacional – como o Free Jazz Festival, o Mega Bazar da Ação Criança, o desfile de Chistian Dior e o Carlton Cult, uma novidade ainda em planejamento – são hoje a principal fonte de renda do clube.
O Jockey Club também fatura com o aluguel dos outdoors iluminados que dão para a Marginal, das placas internas e de seu imponente edifício na Rua Boa Vista, no centro da cidade, de 22 andares. São seis metros de pé direito cada andar – o dobro dos prédios comuns -, dos quais apenas um continua como sede social.
Tal decadência se arrasta lenta e progressivamente, tendo nos números sua mais fiel testemunha: o total bruto do rateio, que girava entre R$ 11 milhões e R$ 12 milhões há dois anos, caiu para R$ 9 milhões em 2001; a receita líquida do clube, gerada pelo turfe, está por volta de R$ 900 mil, enquanto sua despesa é de R$ 1,8 milhão; dos seus 965 funcionários, restam apenas 670.
Vê-se, pois, que o dinheiro arrecadado com os arrendamentos e aluguéis tem servido, unicamente, para tapar os buracos criados pelo orçamento do turfe, e não para o engrandecimento do próprio clube, em benefício dos sócios e da população.
A crise atual se deve a vários fatores: o crescimento dos programas de televisão roubou parte do público apostador; a agressividade do governo no monopólio do jogo no Brasil, através de suas loterias cada vez mais variadas; e, principalmente, pela expansão dos bingos. Ao se tornar tema de novela, o bingo aplicou no Jockey o golpe final.
O grosso da multidão de apostadores que abarrotava suas arquibancadas nos dias de páreo, engarrafando a Avenida Lineu de Paula Machado, em Cidade Jardim, compunha-se em sua maioria por motoristas de táxi, caminhão e funcionários públicos, que agora não precisam se locomover tanto para sentir a adrenalina das apostas correndo nas veias. As casas de bingo, espalhadas por todos os bairros da cidade – como a de Toni Ramos na novela da Rede Globo – atendem a essa demanda, embora o próprio Jockey disponha de quase 60 lojas de apostas espalhadas pelo Brasil.
Valentia
Esta não é a primeira dificuldade que o Jockey Club, instituição sem fins lucrativos, atravessa em seus 126 anos de história. As corridas de cavalo na cidade começaram por volta dos 1860, sendo realizadas em duas diferentes raias: sobre uma delas ergue-se hoje o Parque São Jorge.
A outra ficava na Praça Princesa Isabel, no centro. Mas restringiam-se a apresentações em feiras pecuaristas – muito em moda naquela época -, e não dispunham de qualquer entidade que as promovesse.
Em 1875, foram redigidos os estatutos do Clube Paulistano de Corridas, a primeira instituição do turfe paulista. Um ano mais tarde, em 29 de outubro, realizou-se a primeira corrida oficial da cidade, no hipódromo levantado no bairro da Mooca.
Foi em 1881 que a entidade adotou o nome de Jockey Club de São Paulo, enfrentando, logo de início, sua primeira grande crise. Permaneceu fechado por dois anos, entre 1887 e 1889, por causa da falta de uma produção adequada de cavalos de corrida PSI (puro sangue inglês). Dos poucos que existiam no País, a grande maioria descendia do lendário Monarcha.
Mas os tempos mudaram, e a expansão da cidade levou o Jockey ao seu novo endereço no dia 25 de janeiro de 1941 (aniversário da cidade), um terreno de 600 mil m2, em Cidade Jardim, doado à instituição pela antiga Companhia City, que começava a lotear aquela região.
Foi a fórmula encontrada pelos ingleses para valorizar ainda mais os bairros que iriam implantar, como de fato aconteceu.
O projeto do clube seguiu o estilo art déco. Alguns anos depois foi reformado, adquirindo seu aspecto atual, neoclássico, com a fachada enobrecida pelos famosos e belos altos relevos de motivos eqüestres do escultor Vítor Brecheret. O Jockey adquiriu mais 40 mil m2, e elevou sua área para um total de 26,6 alqueires. O que vale uma fortuna, mais que todos os bingos da cidade reunidos.
O golpe seguinte que atingiu o clube foi em decorrência das revoluções de 1924 e 1932, que paralisaram as corridas. O polêmico Jânio Quadros foi responsável por outro: quando subiu à Presidência da República, baixou decreto proibindo que os páreos fossem realizados fora dos fins de semana e feriados.
O Jockey teve seu auge nos anos 50, 60 e 70. Naquele tempo, os homens, usando terno e gravata, disputavam assentos nas arquibancadas enquanto as mulheres, munidas de binóculos e vistosos chapéus, dedicavam-se a uma outra disputa: a luta para ser escolhida a mais bela e elegante do prado, o que transformava as corridas em grandes desfiles de moda.
Os salões do clube se abriam para as grandes festas, que rolavam ao borbulhar do champagne e reuniam o crème de la crème da alta sociedade brasileira, no saboroso vocabulário dos antigos colunistas sociais. Entre eles, nomes como Tavares de Miranda, Mattos Pacheco, Ibrahim Sued, Jacinto de Thormes e Álvaro Luís Assumpção, o Meninão, que lá encontravam o melhor recheio para suas animadas colunas.
Novas apostas
Como está aberta a temporada de busca por soluções para o problema, o presidente do Jockey, Antonio Grisi Filho (ex-vice-presidente do Banco de Crédito Nacional), defende que “a salvação do turfe depende da terceirização das apostas”. Isso significa que o jogo tem de ser administrado por quem entende do riscado.
“Há firmas internacionais especializadas, com know-how necessário para atrair a volta do público, criando programas de marketing de médio e longo prazos. E o mais importante: com capital suficiente para transformar o turfe brasileiro num dos melhores do mundo”, diz o presidente, Grisi Filho.
Um exemplo disso está nos diversos países que possuem bares aparelhados para aceitar apostas, onde o apostador pode assistir às corridas pela tevê. Mas a falta de unificação dos rateios dos diversos jóqueis clubes do Brasil dificulta a instalação do sistema. Em todo caso, o clube está agindo:
“Criamos novas modalidades de apostas, aumentando o rateio em 30%, se comparado com o do ano passado”, revela Nonato Pinheiro, diretor de Marketing do clube.
São elas a Betting 4, Bolo de 8 e Trinca 150 que, aliás, “está pegando fogo”, segundo José Romano Júnior, diretor-geral de Operações. Tal aposta consiste em acertar o vencedor dos três primeiros e dos três últimos páreos, podendo se escolher mais de um cavalo por corrida.
Quem acertar leva um bônus de 150% sobre o valor do prêmio pago. Há pouco também foi inaugurada a Quarentinha, aposta na qual o acertador do primeiro e quinto páreos leva um bônus de 40% sobre o valor do prêmio.
Reflexos
Como a arrecadação caiu nos últimos anos, os prêmios também ficaram desinteressantes para os criadores de cavalos. Em relação à época de ouro do Jockey, por exemplo, os prêmios diminuíram em 50% . Num páreo de cavalo estreante sem vitória, por exemplo, o primeiro prêmio está por volta de R$ 4 mil, sendo que o quinto é de apenas R$ 300.
A manutenção de um animal na Vila Hípica custa em média R$ 800 mensais. Os proprietários vencedores, que antes aguardavam 15 dias para receber o dinheiro, agora têm de amargar dois meses para ver a “féria”.
Isso levou vários haras tradicionais a fecharem as portas, embora outros novos, de grande porte, estejam abrindo. É o processo de renovação, iniciado quando o clube decidiu flexibilizar sua entrada social, assinando convênios com outros clubes, para aumentar a arrecadação. Isso provocou mudanças em sua freqüência, provocando alguns dissabores para sócios antigos.
‘Simulcasting’
A necessidade de aumentar o rateio também fez nascer o simulcasting, um engenhoso sistema de apostas tipo “ponte aérea” entre Rio e São Paulo. A parceria aconteceu por influência e amizade pessoal do presidente Antonio Grisi com Alfredo Taunay, seu colega carioca, tendo a TV Jockei Club – sintonizada a cabo pela NET ou parabólica, através do canal 6 – como ponto de união.
Já está havendo o simulcasting entre São Paulo e Curitiba (as corridas do Hipódromo de Tarumã acontecem às quintas-feiras), e entre Rio de Janeiro e Porto Alegre também.
“Este é o primeiro passo para a unificação do rateio nacional”, diz Grisi. Como se sabe, pode-se apostar nas corridas através do Tele-Turfe, por telefone. De acordo com a ficha cadastral do apostador, ele liga de qualquer lugar em que esteja assistindo às corridas na TV, e dá a sua senha para fazer qualquer tipo de aposta.
Internet
A Internet é outro recurso que está sendo mobilizado para tirar o Jockey do sufoco. A Soluziona Serviços Internet, empresa do grupo espanhol Senosa, está implantando, através de José Bonifácio Andrada e Silva, o Pinduca, ex-coordenador geral de operações do clube, o website do Jockey. On-line, oferece vários serviços ao mundo turfístico: programação e resultados de corridas, galeria de fotos dos GPs, datas de leilões de cavalos, relação e visitas virtuais a diversos haras, e “horse-links” ligados ao turfe nacional e internacional. Terá também a transmissão da TV Jockey com som e imagens ao vivo.
“A função do site é atrair o público jovem, plugado na rede, para o mundo do turfe e aguçar sua vontade de apostar”, revela Pinduca. Nos próximos 60 dias, o website será um veículo para as apostas, que poderão ser feitas por cartão de crédito e com boleto bancário.
“As corridas no prado devem ser encaradas como um lazer acessível. Não prejudicam o bolso dos avisados, é um esporte praticado com total segurança e ao ar livre, rodeado pela beleza do nosso verde, e não num ambiente fechado por quatro paredes. Em vez de gastar R$ 10 num ingresso de cinema, por que não apostar num cavalinho?”, indaga Grisi Filho.
O Jockey conta também com o apoio de seus sócios mais tradicionais. O industrial Taufik Curi, por exemplo, certa vez garantiu de punho próprio o pagamento de um empréstimo milionário efetuado pelo clube. Fica então a pergunta: será que o Jockey Club de São Paulo vai dar a volta por cima, e encarar com o seu eterno glamour os desafios do século XXI? Senhoras e senhores, façam as suas apostas.
Jornal da Tarde – SP – Armando Serra Negra