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Quer apostar?

18/03/2004

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As pessoas crescem apostando. Desde criança disputam quem vai chegar primeiro, quem vai acabar primeiro, quem é o mais forte, quem corre mais rápido. Na adolescência disputam partidas de futebol, vôlei na praia e jogo de xadrez.
É assim que, ao longo do tempo e de maneira instintiva, nos adaptamos ao risco natural da vida, que é uma série contínua de escolhas e decisões. E como tudo tem o lado bom e ruim, aprendemos o jogo mais inevitável de todos, ou seja, ”dos males o menor”. Essa é a loteria da vida.
Assim é que continuamos apostando, seja nesse ou naquele banco, nessa ou naquela empresa, nesse ou naquele candidato. Calculando os casos possíveis e os favoráveis, e sabendo que a parcela do imponderável nem o melhor matemático consegue determinar.
É essa característica da vida humana, que fez nascer o jogo de azar. No mundo inteiro, as pessoas apostam. E se enganam os que pensam que são apenas as pessoas pobres e ingênuas, em busca da felicidade, que acreditam alcançá-la com o dinheiro do prêmio. Quem mais aposta são os ricos, à procura de emoção, da adrenalina saltitando em suas veias, como os dados no pano verde.
E olha que não é fácil ganhar. Mas quem se importa com isso?
O jogo honesto, o par ou ímpar ou cara ou coroa, é aquele no qual cada apostador tem 50% de chance, mas não é procurado, nem por banqueiro nem por apostador. O dado, cuja probabilidade de ganhar já cai para 16%, também não tem vez nos cassinos. Alguns aceitam esse tipo de jogo, mas com dois dados, cuja chance de ganhar já cai para uma em 36.
Nas loterias, por exemplo, a chance de acertar 6 números em 50 é de uma em 15 bilhões! É um número tão grande que uma calculadora convencional não tem capacidade de calcular. Só para ter uma idéia: se você contar de 1 até 15 bilhões, um número por segundo e sem descanso, só terminará a contagem daqui a 495 anos.
Um jogo de seis dezenas, na Mega, tem uma chance em 50 milhões.
Mas ninguém está pensando nisso na hora de jogar. O que fala mais alto é a emoção.
É a vida. Tem sido assim e não acredito que mude.
Ocorre que para cada fraqueza humana haverá sempre um espertalhão tirando proveito, fazendo negócio em nome do velho exercício da dominação do homem pelo homem. É nesse ambiente de palpitações frenéticas que se desenvolve uma série de infecções no tecido social. O vício, a dívida, o alcoolismo, as drogas e, pior, as quadrilhas que, com violência, lutam pelo domínio dos espaços.
É aí que o poder público precisa agir com inteligência. E a principal medida, a meu ver, é o jogo oficial. Sua principal função não é distribuir dinheiro para obras sociais, como muitos pensam. Essa tese é inválida, porque a maioria dos apostadores é composta por pessoas de baixa renda. Portanto, está se tirando dinheiro dos pobres para os pobres, bem em sintonia com a regressividade dos gastos do governo, quando aplica nosso imposto em distribuição de renda. É como pegar doadores de sangue na CTI do hospital.
As raspadinhas, bilhetes e carnês de tantas loterias estaduais e federal, inibem o crescimento do chamado jogo do bicho, dos bookmakers, dos cassinos clandestinos, esses, sim, ligados à lavagem de dinheiro, a quadrilhas, ao narcotráfico, etc.
Nesse momento em que discutimos os bingos, precisamos levar essas coisas em consideração.
Impedir o funcionamento deles não eliminará a sobrevivência, apenas os lançará na clandestinidade, permitindo que o jogo seja operado pelo crime organizado e se preste à lavagem de dinheiro, que, hoje, acredito ser exceção e amanhã poderá se tornar regra.
Mas tem outra coisa que me incomoda. E muito. Milhares de trabalhadores (há quem fale em 300 mil) ficarão sem seus empregos. O que será dessas famílias?
Caberá a nós, no Congresso, encontrar o caminho. O governo ainda não encontrou.
Há pouco tempo, defendia a legalização dos bingos e, após o caso Waldomiro, viu em risco a governabilidade do país, que parecia acreditar na ligação do Planalto com o jogo.
Então fez sua aposta no jogo dos ”males o menor”: fecha tudo!
Seres humanos são suscetíveis as ilusões. O jogo é mais uma delas. As pessoas apostam no sonho de mudar de vida. E quem vai tirar do ser humano a característica de sonhar? De perder ou ganhar?
Embora, por formação, eu seja contra o jogo, a primeira coisa que me preocupei em fazer neste artigo foi mostrar que se trata de um mau negócio, ele existe e, como disse antes, tudo leva a crer que sempre existirá. Por isso, acredito que o jogo legal, fiscalizado e controlado pelo governo seja a melhor aposta no jogo dos ”males o menor”.
Sinceramente, eu penso que o sexo antes ou fora do casamente é um engano. Mas, nem por isso, ele deixa de existir. Assim, no jogo dos ”males o menor”, aposto na camisinha.
É claro que me refiro à vida material e não à espiritual. Nessa última, a fé suplanta os riscos e não há chance de perder. Aliás, é perdendo que se ganha. Jesus disse: ”Aquele que perder sua vida por amor a mim, ganha-la-á.”
Mas, na vida material, pode apostar: sou contra o jogo de azar e, por isso, aposto no jogo legalizado e controlado pelo governo.
Além do mais, falta de sorte é colocar milhares de pais de família na rua. No jogo da vida, essa, talvez, seja a pior aposta.
(*) Marcelo Crivella é Senador -Jornal do Brasil