Home Vídeo Bingo Rede da fortuna.
< Voltar

Rede da fortuna.

30/06/2003

Compartilhe

Casos de policiais envolvidos em irregularidades com máquinas de bingo eletrônico, o caça-níqueis travestido que nos últimos anos se espalhou no País, já viraram rotineiros. O que começa a se vislumbrar agora é que, por trás dessa roda-da-fortuna, existe um esquema milionário que dá sustentação política ao braço da máfia do jogo clandestino. Na última semana, os operadores dos caça-níqueis no Ceará sofreram um duro golpe. Com autorização judicial, o Ministério Público espalhou por todo o Estado mais de uma centena de grampos telefônicos. As escutas acabaram fisgando políticos importantes no Estado, entre eles Assis Machado, ex-secretário de governo na administração do tucano Tasso Jereissati, e o deputado Leonardo Alcântara (PSDB-CE), filho do governador Lúcio Alcântara e presidente da Comissão de Economia, Comércio e Turismo da Câmara. Leozinho, como é chamado o deputado, já é conhecido no Ministério Público. Em 30 de novembro do ano passado, o engenheiro Australiamar Fernandes Ferreira, envolvido com o uso de contas bancárias fantasmas, prestou um depoimento à Polícia Federal e disse, entre outras coisas, que Leonardo usou dinheiro de empreiteiras que superfaturaram obras públicas do governo estadual para comprar votos, principalmente no interior. Agora, o nome do deputado reaparece em nova investigação. “Estamos em fase de apuração e não podemos revelar detalhes, mas não vamos nos intimidar e queremos que os responsáveis pelo jogo ilegal sejam punidos. Não importa nomes ou cargos”, diz o promotor Sávio Amorim. Na quarta-feira 25, ele pediu à Justiça a busca e apreensão de todas as máquinas caça-níqueis espalhadas no Estado. Em Itapipoca, a delegada Maria Alexandra de Medeiros apreendeu as 69 máquinas que operavam na cidade de 120 mil habitantes, a 150 quilômetros da capital. Em Fortaleza, o Ministério Público do Estado e a Polícia Federal montaram uma força-tarefa que já denunciou 17 empresas de fachada envolvidas na exploração de aproximadamente 15 mil máquinas. Vários policiais civis e militares estão na cadeia e a Interpol está no encalço de alguns bicheiros ainda foragidos. Os holofotes estão voltados para o Ceará, mas o propinoduto da máfia do jogo clandestino é nacional e tem ramificação com capos italianos.Em 1996, o Supremo Tribunal Federal (STF) recebeu do governo da Itália uma carta rogatória apontando Alejandro Ortiz Fernandez como o representante do mafioso italiano Lillo Lauricella no Brasil. Preso na conhecida Operação Mãos Limpas e metralhado no início deste ano, em Caracas (Venezuela), Lauricella foi quem introduziu no Brasil as máquinas caça-níqueis. Sete anos depois da comunicação feita ao STF, um inquérito na Polícia Federal já tem altura equivalente a um andar de edifício, e as maquininhas se proliferaram. A maior parte delas é explorada pelos irmãos Alejandro e Johnny Viveiros Ortiz, filhos de Fernandez. Cálculos feitos por donos de bingos mostram que os irmãos Ortiz operam com mais de 30 mil máquinas no Brasil, o que lhes daria uma receita diária superior a R$ 150 milhões. Dinheiro suficiente para manter um esquema nebuloso envolvendo policiais e políticos de diversos naipes. Para colocar suas maquininhas em bares e bingos de todo o País, os irmãos Ortiz têm uma gerente nacional chamada Marinês Parrilla e representantes em vários Estados. Em Brasília, o operador é Jesus Maria Artieda Madeo, um espanhol que costuma ser muito bem recebido pelo deputado Benício Tavares (PMDB), presidente da Câmara Distrital. Para colocar as máquinas da família Ortiz em praticamente todos os bingos do DF, Madeo investiu R$ 750 mil. Foi um tiro certo. O deputado conseguiu aprovar no Legislativo uma lei criando a Loteria Social, o que acabou facilitando a presença das máquinas caça-níqueis nas casas de bingos. Depois, não foi difícil para Madeo conseguir contratos de fornecedor exclusivo das máquinas para os vários bingos do DF. Uma dessas casas é o Bingo Palácio. Na mira do Ministério Público, a casa de jogatina pertence ao comendador Arcanjo, o chefe do crime organizado em Mato Grosso, preso recentemente. Os procuradores investigam quais as reais ligações entre Arcanjo e a família Ortiz.

Assessor palaciano – No mercado do Rio de Janeiro, os irmãos Ortiz encontraram um aliado de peso. Trata-se de Waldomiro Diniz, assessor de José Dirceu, o ministro-chefe do Gabinete Civil da Presidência da República. Entre junho de 2001 e abril do ano passado, Waldomiro foi o presidente da Loterj – Loterias do Rio de Janeiro. No início deste ano, foi acusado de participar de um esquema de desvio de recursos da verba publicitária da Loterj. Ele nega a denúncia e garante que em sua gestão nada foi feito de irregular. Agora, será investigado também por causa de relações com a máfia do jogo clandestino. Essas, porém, não são as únicas sombras que o acompanham. Waldomiro foi um dos principais defensores da renovação de um contrato da Caixa Econômica Federal com a Gtech do Brasil, empresa responsável pelo sistema operacional de todas as casas lotéricas do País. O contrato tem valor de US$ 130 milhões por ano. No final do governo de FHC, para que fosse renovado, a Gtech se propôs a uma redução de 28% no alor do contrato, mas não houve entendimento. Agora, no início do novo governo, a empresa conseguiu renovar o compromisso com a CEF, mediante uma redução de apenas 15%. “Isso tudo precisa ser muito bem investigado”, diz o senador Demóstenes Torres (PFL-GO). Ele já solicitou que a CEF lhe forneça toda a documentação relativa aos contratos com a Gtech, bem como a instalação de uma CPI para apurar  que se passa pelas loterias. As ligações de políticos com a máfia do jogo clandestino só agora começam a ser desvendadas no Ceará, mas as relações desses mafiosos com policiais, bicheiros e narcotraficantes estão bem adiantadas. Além de diversos policiais já presos em Fortaleza, a Interpol está no encalço de muito mais gente, entre eles os dois dirigentes da Associação Cearense dos Operadores de Máquinas de Entretenimento (Acome), Hamilton Viana e Miguel Alexandrino Neto. Na tarde de 3 de junho, o Ministério Público conseguiu desmascarar o diretor do Instituto de Criminalística da Secretaria de Segurança, Ranvier Aragão, há nove anos no cargo. Ele vistoriava as máquinas caça-níqueis e atestava que não eram máquinas de azar, passíveis de pena pela lei das contravenções. Porém, um estudo do perito José Helano Nogueira, do Setor de Crimes por Computador da Polícia Federal, diz exatamente o contrário: as máquinas espalhadas por todas as esquinas do Brasil apresentam um porcentual de perdas que oscila entre 70% e 93% das apostas. Na máquina Twin Parks, por exemplo, a chance de alguém ganhar seu dinheiro de volta não chega a 7%.O delegado Evandro Alves, chefe de gabinete do Superintendente da Polícia Civil do Ceará, também está na alça de mira do Ministério Público. Ele foi convidado de honra da escola de samba Grande Rio, no Carnaval de 2003. Ganhou passagens, hotel e lugar vip no camarote da escola no sambódromo. O curioso é que a Grande Rio, comandada por bicheiros tradicionais do morro carioca, abriu uma empresa de caça-níqueis em Fortaleza – uma das 17 rés já denunciadas pelos promotores.

Solução online – Denúncias envolvendo fraudes em máquinas programadas apenas para tirar dinheiro do apostador já provocaram a queda do ex-ministro de Esportes e Turismo no governo de FHC, Rafael Grecca, acusado de manter ligações com o crime organizado comandado por italianos e espanhóis que estariam lavando dinheiro através do videobingo. O importante, como diz o promotor Sávio, de Fortaleza, é que, além das punições, o País encontre uma legislação que seja capaz de inibir de vez os mafiosos do jogo clandestino. Por enquanto, para que isso ocorra, a proposta mais viável é de se fazer os jogos online, controlados pela CEF. Assim, haverá pleno controle não só sobre as máquinas como também sobre o montante arrecadado, o que poderá reverter em benefícios sociais. Em Goiás, onde a legislação estadual já regulamentou o jogo, há uma arrecadação mensal de R$ 2,5 milhões.Isto É – Mário Simas Filho e Luiz Claudio Cunha