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Regis de Oliveira: O jogo e os desejos humanos

15/01/2018

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Regis Fernandes de Oliveira*

O homem é um ser desejante. Ele quer sempre alguma coisa. Em todos os ângulos. Deseja algo. Quando consegue, muda seu foco e quer outra. Sempre insatisfeito. O desejo é exatamente a falta. Em “O banquete”, obra de Platão, Sócrates relata o que lhe contou Diotima, mulher que veio de terra estranha. Diotima diz que o amor é sempre o desejo insatisfeito. Busca o que pode e, se alcança, já não o quer mais. Quer objeto diverso e segue sempre assim.

Platão está falando sobre a insaciedade do ser humano. Ele nasce em ambiente capitalista e é aprende a ser consumista. Mesmo nas classes menos favorecidas, há sempre o desejo de obter uma grife. A busca por tênis, camisetas, roupas mais finas não é apenas desejo dos ricos, mas de todos. Evidente que a mídia, por seus meios de comunicação, cria no espírito de cada um o desejo de possuir o objeto. É a sociedade do consumo e do efêmero.

Cada qual sabe o tamanho de seus passos. Cada qual delimita o que quer. Cada qual traça os limites de sua pretensão.

Ocorre que os desejos continuam sempre. Sem limites. Cada vai atrás do que quer, naquele momento e dentro de sua situação de vida. Não se pretende falar aqui sobre a mera subsistência. Esta é implícita nas necessidades. Aqui já não há desejo, mas necessidade. O necessário é o que existe e é imperioso, como a noite e o dia. Em primeiro luar, para que a vida exista é necessário que se alimente. Isso não, é desejo, mas é o necessário.

Quando, então, superamos a fase da necessidade, surgem os desejos, ou seja, queremos as coisas que nos propiciam prazer. Evitamos a dor. Esta incomoda e agride. Não a queremos. Buscamos, sempre, o prazer (Freud).

O prazer pode estar em ouvir uma boa música, ir ao funk, tomar um sorvete, cheirar uma rosa, etc. Buscamos sempre aquilo que nos alegra. O que nos entristece, procuramos evitar. Não passar perto de um terreno fétido com lixo, por exemplo.

Como seres desejantes, como falamos, o ser humano vive à cata de coisas boas, seja o que lhe dá conforto (um colchão muito gostoso, uma malha para cobrir do frio) ou o que pode agradar o estômago (comida saborosa). Rejeitamos situações ruins. Ninguém se sente confortável em um velório.

Essa é a regra da vida. Assim, nossas paixões nos conduzem para a busca de prazeres imediatos ou futuros. Sempre que houver a possibilidade de obtermos alguma coisa que aumenta nossa alegria, vamos em busca delas.

Aí que passamos a analisar o chamado jogo de fortuna ou de azar. A expressão de jogo da fortuna advém de uma deusa romana que dirigia nossos destinos. Podemos dirigir nossos comportamentos pela virtude, quando decidimos o que queremos ou pela fortuna, ou seja, quando a sorte traça nosso caminho.

O jogo pode ser de fortuna ou de habilidade. O poker, o, xadrez, por exemplo, são jogos de habilidade, porque depende da cultura, do preparo ou da esperteza, do raciocínio do jogador. Pode prever jogadas, pode calcular o que fará outro jogador, pode estudar os lances que fará, etc.

O jogo de azar ou fortuna depende do acaso. Quando se compra um bilhete de loteria, por exemplo, não se sabe qual será o número a ser sorteado (salvo manipulação aqui descartada). Mero acaso (randômico). Previsão desejada e querida, mas nem sempre atingida.

Distinguem-se. Os jogos de habilidade são legais e independem de autorização legislativa. Os jogos de fortuna ou azar estão proibidos.

Há movimento bastante forte no sentido de sua legalização. Interessados e setores se movimentam no sentido de estimular o Congresso Nacional e o governo para que se sensibilizem e aprovem o jogo.

Em primeiro lugar, traz aportes tributários bastante interessantes. Fala-se em cerca de 20 bilhões de reais. Em segundo, legalizaria todo o pessoal que pratica jogo ilegal (perto de 450 mil pessoas). Terceira providência positiva, abriria enorme quantidade de empregos (crupiês, segurança, lavanderia, hotelaria, gastronomia, setor de construções, etc.). O turismo sofreria forte incentivo.

De outro lado, os que são contra, indicam como fatores negativos: lavagem de dinheiro e ludopatia. Os modernos meios de informática e eletrônica impedem que haja lavagem. E a ludopatia pode existir, como contingente ao jogo.

De qualquer maneira, os fatores são mais positivos que negativos. Ocorre, e voltamos ao assunto inicial, que o homem é um feixe de sensibilidade. Recebe o impacto diário de interferências com o mundo. Reage. Relaciona-se com outras pessoas. Há um ciclo intermitente de comunicações.

Tudo agita seus desejos. Busca, no jogo, a realização que eventualmente não teve na vida normal. Busca fugas (de família, de relacionamentos frustrados, etc.) e eventualmente sucesso (o ganho de enorme quantia que lhe garantiria independência financeira e econômica). Ao lograr uma aposta vencedora, sente, nas mãos, o dinheiro, ainda que representado por fichas. Sente que pode ir adiante para ganhar um pouco mais. Não se preocupa com o que já perdeu. Sua matemática é só de soma.

Envolvido com a emoção do tinir das máquinas eletrônicas ou com o virar das cartas ou dos dados, empolga-se para jogar mais…mais…mais e pode perder tudo.

Se o domínio for da razão, arrisca um pouco e para.

Só que a razão, no jogo, tem influência mínima. O que domina são as paixões. O jogo é estimulando. O desejo espicaçado. Com o dinheiro pode ter a mulher que quiser, a casa de seus sonhos, o carro do ano e da melhor marca. Tudo é o estímulo que o alimenta. Busca, realmente, a empolgação. Dínamo de seus desejos.

Sua energia se agiganta. A concentração o afasta do mundo. Tudo é a aposta. Seu mundo se vê concentrado na possível vitória. Seu organismo se sente dopado. Estímulos, sensações vibrantes, tudo é como se estivesse movido por alma alheia.

É o jogo. São os desejos. É a irracionalidade que toma conta do indivíduo. É o desejo estimulado que vibra com as sensações. É o tesão do possível ganho.

É a grande vitória da adrenalina. É a satisfação pessoal do ganho. É a realização pessoal dos desejos. Jogo é vibração e realização pessoal (com eventuais desencantos).

 

(*) Regis Fernandes de Oliveira Mestre e Doutor em Direito, com defesa de tese na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC. Livre-docente em Direito. Adjunto em Direito e Adjunto em Filosofia do Direito pela Universidade de São Paulo. Professor Titular da Cadeira de Direito Financeiro do Departamento de Direito Econômico e Financeiro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo – USP, desde 1994. É desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, foi presidente da Associação Paulista de Magistrados, da Associação do Magistrados Brasileiros e da Federação Latino Americana dos Magistrados. Foi deputado federal por duas legislaturas e vice-prefeito de São Paulo. Autor de 19 livros e inúmeros artigos publicados em revistas especializadas em Direito e nos jornais de maior circulação no Estado de São Paulo. Regis de Oliveira também é consultor do Instituto Brasileiro Jogo Legal – IJL.