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Tem cura a compulsão para o jogo

11/01/2004

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Qualquer tipo de jogo pode ser enfrentado, desde que haja um desejo sincero 
Os mais variados tipos de jogo, quando efetuados de maneira compulsiva, configuram enfermidade emocional incurável. No entanto, o problema pode ser ‘detido’ dia-a-dia. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o jogador compulsivo é uma pessoa dominada por uma sensação irresistível para jogar. Desta forma, deve aceitar a doença e resistir progressivamente para a sua recuperação.

‘O jogo ainda me seduz’, admite um profissional liberal, que se identifica pelo nome Geraldo, 36. Neste sábado, ele completou dois anos sem contato com bingos e caça-níqueis – vício da maioria dos 55 integrantes do Jogadores Anônimos (JA) da Capital. Existem ainda no grupo viciados em carteados, corridas de cavalo, jogos do bicho e do osso e em loterias oficiais. O profissional liberal recorda que sua compulsão pelo jogo começou quando ele tinha apenas 14 anos. ‘Praticamente joguei a vida inteira, chegando a perder R$ 4 mil em uma única noite’, recordou. As desavenças familiares e os gastos desnecessários com a jogatina o levaram a procurar o JA. Lá, descobriu que deixar de jogar é muito simples, apesar de saber que não fazer a primeira aposta do dia é difícil para um jogador compulsivo. ‘Lutamos para ficar longe das apostas um dia de cada vez’, relata. Segundo ele, o jogador compulsivo deve ter disposição para reconhecer o fato de que está nas garras de uma grave doença e ter o sincero desejo de se recuperar.

A ordem é resistir à tentação, rejeitando inclusive um jogo social. A primeira aposta para um jogador compulsivo é comparada ao primeiro gole para o alcoólatra. O caminho, nesse caso, é o retrocesso ao velho padrão destrutivo. Basta cruzar a linha invisível do jogo descontrolado e irresponsável para nunca mais voltar a ter o autocontrole. O perfil dos que recorreram ao JA em Porto Alegre é bastante variado. O grupo é composto por pessoas dos sexo feminino e masculino, com idades entre 18 e 80 anos e oriundo das mais diferentes camadas sociais. Há, por exemplo, um empresário que já enfrentou o fim de duas uniões estáveis justamente por ser viciado em loterias.

Jogadores Anônimos: ajudar uns aos outros
O JA é uma irmandade de homens e mulheres, sem distinção de raça, religião e condição social. Todos compartilham suas experiências e esperanças em busca de dois objetivos: deixar de jogar e auxiliar outros que desejam se livrar da compulsão. O único requisito para se tornar membro é o desejo de parar de jogar. Não há necessidade de pagamento de taxas ou mensalidades.

O programa de recuperação é composto de 12 passos, sendo que o período da abstinência é o pior obstáculo a ser ultrapassado. Outro desafio é combater o desvio de caráter que advém com o vício, pois grande parte dos jogadores apela para mentiras, no intuito de prosseguir apostando. Muitos deles sequer desconfiam, ou fingem não perceber, os danos que esse desvio de comportamento provoca na família. 

‘Deixei de morar com meu pai há cinco anos justamente por não suportar a convivência com um homem que sempre foi meu ídolo e que parece ter se transformado em outra pessoa’, relata o universitário Felipe, 23. Conforme o jovem, o pai não tem qualquer ambição. ‘Ele sobrevive com o mínimo que pode ter. A felicidade dele está em acordar e ir jogar bingo, seja à tarde, à noite, manhã ou até mesmo na madrugada.’ Felipe admite ter cansado de auxiliar o pai, que começou a jogar compulsivamente tão logo se aposentou, aos 45 anos. ‘A partir de 1996, começou a jogatina.’ Foram várias as brigas e debates francos entre pai e filho. ‘Sempre havia a promessa nunca cumprida de que não jogaria de novo.’ Com o jogo, Felipe avalia que o pai já perdeu um carro, um imóvel no Interior e pelo menos R$ 70 mil.

Correio do Povo – RS – Luciamem Winck