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Uma das poucas esperanças africanas: o jogo.

15/10/2003

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NAIRÓBI – O continente mais pobre do mundo há muito tem uma queda pelo jogo. Mas com as restrições às apostas aliviadas em alguns países e com investidores externos e empresas começando a capitalizar sobre o mercado de jogo da África, mais e mais africanos estão achando que a boa vida está à distância de apenas uma raspadinha, apostas em loterias esportivas ou num giro da roleta. Há linhas de loteria na África do Sul e mesas de jogo lotadas no Quênia. Na Eritréia, um dos países mais indigentes do continente, a venda de cartões de loteria por garotos pequenos os ajuda a não passar fome. "Os cassinos lhe dão esperança", disse George Wainaina, de 36 anos, um queniano que perdeu quase tudo que possuía na roleta: "Não há muita esperança, mas talvez mais do que você encontra fora daqui." Os búlgaros estão financiando uma nova loteria no Quênia, e empresários chineses recentemente ressuscitaram a Loto de Uganda. Uma empresa americana com sede em Rhode Island, a Gtech Corp., juntou-se a investidores britânicos, australianos e sul-africanos no jogo de maior crescimento do continente – a Loteria Nacional da África do Sul. O jogo foi severamente coibido na África do Sul durante o apartheid. Mas, depois que o governo de maioria negra liberalizou as normas, em 1996, dezenas de cassinos foram abertos e foi criada um loteria de grande sucesso. Desde 2000, quando o presidente Thabo Mbeki inaugurou uma loteria num açougue na Cidade do Cabo, o jogo cresceu a passos largos, principalmente entre a população pobre. Um estudo recente indicou que 72% dos sul-africanos agora apostam e até mesmo 27% dos sul-africanos desempregados tentam a sorte. Alguns países da África subsaariana já têm loterias administradas pelo Estado desde que ganharam a independência, na década de 60. Outros só agora estão se voltando para o setor como uma forma de crescimento econômico. A Scientific Games, uma empresa de Nova York que produz cartões de raspadinha, já fechou contratos com nove países africanos e está em negociação com mais outros. Seus cartões de raspadinha para a Eritréia, na língua tigrínia, apresenta fotos de onças-pintadas, búfalos, tucanos e girafas. Acertar a loteria instantânea pode transformar um investimento de 5 nakfas (menos de US$ 0,50) numa pequena fortuna. O jogo expõe de forma dramática a divisão entre ricos e pobres na África. No Quênia, os jornais publicam o perfil de pessoas pobres que ganharam a sorte grande, sempre com uma fotografia do sorridente ganhador segurando um cheque gigantesco. Um prêmio de 1 milhão de shillings, equivalente a cerca de US$ 13 mil é capaz de mudar a vida de uma pessoa. Mas quantias parecidas são ganhas ou perdidas em questão de minutos pelos altos apostadores nos cassinos ou no Big Bets, um novo recanto para apostas esportivas aqui na capital do Quênia. "Os quenianos são os jogadores do futuro", disse Alessandro Scarci, um italiano que administra o Big Bets. Um dos cliente regulares de Scarci, um importador de produtos farmacêuticos, já lhe deve mais de US$ 100 mil. Ele continua a jogar, usando o que ganha para deduzir do valor de sua dívida. As fraudes são freqüentes. Falsificadores do Quênia alteram cartões de loteria instantânea não premiados de forma que pareçam premiados e depois os vendem nas ruas. Na África do Sul, foram presos cinco homens no ano passado que foram denunciados por perdedores frustrados – por venderam amuletos que supostamente ajudariam as pessoas a ganhar a sorte grande. Uma cervejaria do Quênia ainda está tentando descobrir o que aconteceu com sua loteria promocional. A empresa imprimiu números na parte interna da tampa da garrafa de vários de seus produtos, anunciou os número ganhadores e deu prêmio para os detentores das tampas premiadas. Quando o número 5774 ganhou, apareceram mais de 12 mil quenianos com tampas contendo essa número. A cervejaria cancelou o sorteio e deu início a uma investigação. Alguns portadores do número 5774 foram processados judicialmente. O jogador médio é mais interessado em cartões de loteria, principalmente do tipo instantâneo. O investimento é pequeno, mas os sonhos são grandiosos: um carro, uma casa, uma fazenda. Porém, raramente os sonhos se concretizam. Embora muitos africanos tenham que se arranjar com menos de US$ 1 por dia, eles freqüentemente conseguem juntar com sacrifício moedas suficientes para apostar. "Nunca consegui ganhar, mas ainda tenho esperanças", disse Gathoka Njoroge, de 62 anos, um queniano que trabalha como empregado doméstico. Ele gostaria de ter a própria casa e contratar o próprio empregado.
O Estado de S.Paulo – The New York Times